A Cabana

Este ano tem uma explicao sobre quem  Deus, muito, mais muito
bonito e confortante... Leiam...

       A CABANA
                     WILLIAM P. YOUNG
COM A COLABORAO DE WAYNE JACOBSEN E BRAD CUMMINGS


ESTA HISTRIA FOI ESCRITA PARA MEUS FILHOS
Chad - o Profundo Gentil,
Nicholas - o Explorador Sensvel,
Andrew - o Afeto Generoso,
Amy - a Alegre Conhecedora,
Alexandra (Lexi) - o Poder Luminoso,
Matthew - o Belo Prodgio,
E DEDICADA EM PRIMEIRO LUGAR A
Kim, minha amada - obrigado por salvar minha vida -,
E EM SEGUNDO A
"... todos ns, falhos, que acreditamos que o Amor governa. Levantemo-nos e deixemos que ele brilhe".

CONTRA CAPA

"Esta histria deve ser lida como se fosse uma orao - a melhor forma de orao, cheia de ternura, amor, transparncia e surpresas. Se voc tiver que escolher apenas
um livro de fico para ler este ano, leia A Cabana." - Michael W. Smith.
Publicado nos Estados Unidos por uma editora pequena. A Cabana se revelou um desses livros raros que, a partir do entusiasmo e da indicao dos leitores, se torna
um fenmeno de pblico - quase dois milhes de exemplares vendidos - e de imprensa.
Durante uma viagem de fim de semana, a filha mais nova de Mack Allen Phillips  raptada e evidncias de que ela foi brutalmente assassinada so encontradas numa
cabana abandonada.
Aps quatro anos vivendo numa tristeza profunda causada pela culpa e pela saudade da menina, Mack recebe um estranho bilhete, aparentemente escrito por Deus, convidando-o
a voltar  cabana onde aconteceu a tragdia.
Apesar de desconfiado, ele vai ao local numa tarde de inverno e adentra passo a passo o cenrio de seu mais terrvel pesadelo. Mas o que ele encontra l muda o seu
destino para sempre.
Em um mundo cruel e injusto. A cabana levanta um questionamento atemporal: se Deus  to poderoso, por que no faz nada para amenizar o nosso sofrimento?
As respostas que Mack encontra vo surpreender voc e pode transformar sua vida de maneira to profunda como aconteceu com ele. Voc vai querer partilhar este livro
com todas as pessoas que ama.

ABAS DO LIVRO

Durante uma viagem que deveria ser repleta de diverso e alegria, uma tragdia marca para sempre a vida da famlia de Mack Allens: sua filha mais nova, Missy, desaparece
misteriosamente. Depois de exaustivas investigaes, indcios de que ela teria sido assassinada so encontrados numa velha cabana.
Imerso numa dor profunda e paralisante, Mack entrega-se  grande tristeza, um estado de torpor, ausncia e raiva que, mesmo aps quatro anos do desaparecimento da
menina, insiste em no diminuir.
Um dia, porm, ele recebe um estranho bilhete, assinado por Deus, convidando-o para um encontro na cabana abandonada. Cheio de dvidas, mas procurando um meio de
aplacar seu sofrimento, Mack atende ao chamado e volta ao cenrio de seu pesadelo.
Chegando l, sua vida d uma nova reviravolta. Deus, Jesus e o Esprito Santo esto  sua espera para um "acerto de contas" e, com imensa benevolncia, travam com
Mack surpreendentes conversas sobre vida, morte, dor, perdo, f, amor e redeno, fazendo-o compreender alguns dos episdios mais tristes de sua histria.
Intenso, sensvel e profundamente transformador, este livro vai fazer voc refletir sobre o poder de Deus, a grandeza de seu amor por ns e o sentido de todo o sofrimento
que precisamos enfrentar ao longo da vida.


SOBRE O AUTOR
WlLLIAM P. YOUNG nasceu em Alberta, no Canad, mas passou grande parte de sua infncia em Papua Nova Guin, junto com seus pais missionrios, em uma comunidade tribal.
Pagou seus estudos religiosos trabalhando como DJ, salva-vidas e em diversos outros empregos temporrios. Formou-se em Religio em Oregon, nos Estados Unidos.





NDICE
Prefcio

Uma confluncia de caminhos
A escurido se aproxima
O mergulho
A grande tristeza
Adivinhe quem vem para jantar
Aula de vo
Deus no cais
Um caf da manh de campees
H muito tempo, num jardim muito, muito distante
Andando sobre a gua
Olha o juiz a, gente
Na barriga das feras
Um encontro de coraes
Verbos e outras liberdades
Um festival de amigos
Manh de tristezas
Escolhas do corao
Ondulaes se espalhando Posfcio Agradecimentos



PREFCIO
Quem no duvidaria ao ouvir um homem afirmar que um fim de semana inteira com Deus e, ainda mais, em uma cabana? Principalmente naquela cabana.
Conheo Mack h pouco mais de 20 anos, desde o dia em que ns dois fomos  casa de um vizinho para ajud-lo a embalar feno para suas poucas vacas. A partir de ento
a gente se encontra compartilhando caf - ou, para mim, um ch tailands super quente, com soja. Nossas conversas nos do um prazer profundo e so sempre salpicadas
de muito riso e de vez em quando de uma ou duas lgrimas. Francamente, quanto mais velhos ficamos, mais a gente se d bem, se  que me entende.
O nome completo dele  Mackenzie Allen Phillips, mas a maioria das pessoas o chama de Allen.  uma tradio de famlia: todos os homens tm o primeiro nome igual,
mas so conhecidos pelo nome do meio, provavelmente para evitar a ostentao do I, II e III ou Jnior e Snior. Assim, ele, o av, o pai e agora o filho mais velho
tm o nome de Mackenzie, mas s Nan, a mulher dele, e os amigos ntimos o chamam de Mack.
Ele nasceu em uma fazenda do Meio-Oeste, numa famlia irlandesa-americana de mos calejadas e regras rigorosas. Ainda que aparentemente religioso e exageradamente
rgido, seu pai bebia muito, sobretudo quando a chuva no vinha ou quando vinha cedo demais, e quase sempre entre uma coisa e outra. Mack nunca fala muito sobre
seu pai, mas quando o menciona a emoo abandona seu rosto, como se uma mar vazante, deixando seus olhos sombrios e sem vida. Pelo pouco que Mack me contou, sei
que seu pai no era o tipo de alcolatra que cai num sono rpido e feliz, e sim um bbado perverso que batia na mulher e depois pedia perdo a Deus.
A coisa chegou a tal ponto que, aos 13 anos e com certa relutncia, Mack abriu o corao para um lder da igreja durante um encontro de jovens. Dominado pelo clima
do momento, Mack confessou chorando que nunca fizera nada para ajudar a me nas vrias vezes em que testemunhara o pai bbado lhe dar uma surra at deix-la inconsciente.
O que Mack no pensou foi que seu confessor freqentava a mesma igreja que seu pai. Quando chegou a casa, o pai o esperava na varanda e a me e as irms no estavam.
Mais tarde, Mack ficou sabendo que elas tinham sido mandadas  casa da tia May para que o pai pudesse ter liberdade para dar ao filho rebelde uma lio inesquecvel.
Durante quase dois dias, amarrado ao grande carvalho nos fundos da casa, ele foi castigado com um cinto e com versculos da Bblia todas as vezes que o pai acordava
de sua bebedeira e largava a garrafa.
Duas semanas depois, quando enfim conseguiu ficar em p, Mack simplesmente se levantou e foi embora de casa. Mas antes de partir colocou veneno de rato em cada garrafa
de bebida que conseguiu encontrar na fazenda. Depois desenterrou de perto da latrina externa a pequena lata onde guardava todos os seus tesouros: uma foto da famlia
em que o pai estava meio afastado, uma figurinha de beisebol do Luke Easter de 1950, uma garrafinha com mais ou menos 30ml de Ma Griffe (o nico perfume que sua
me havia usado), um carretel de linha e duas agulhas, um pequeno jato F-86 da Fora Area americana em metal fundido e todas as economias de sua vida: 15 dlares
e 13 centavos. Esgueirou-se pela sala e enfiou um bilhete debaixo do travesseiro da me, enquanto o pai roncava, curtindo mais um porre. O bilhete dizia simplesmente:
"Um dia espero que voc possa me perdoar." Jurou que nunca mais olharia para trs e no olhou - durante um longo tempo.
Treze anos  muito pouco, porm Mack no tinha muitas opes e se adaptou rapidamente. Ele no fala muito sobre os anos seguintes. A maior parte foi passada fora
do pas, trabalhando pelo mundo, mandando dinheiro para os avs, que o repassavam  me. Acho que desses pases distantes chegou a pegar em armas e participar de
algum conflito terrvel; desde que o conheo, ele odeia a guerra com um fervor sinistro. Seja l o que for que tenha acontecido, aos 20 e poucos anos foi parar num
seminrio na Austrlia. Quando Mack se fartou de teologia e filosofia, retornou aos Estados Unidos, fez as pazes com a me e as irms e se mudou para o Oregon, onde
conheceu Nannete Samuelson e se casou com ela.
Neste mundo de faladores, Mack  pensador e fazedor. No diz muita coisa, a no ser que algum pergunte, o que pouca gente faz. Quando fala, d a impresso de ser
uma espcie de aliengena que v a paisagem das idias e experincias humanas de modo diferente de todas as outras pessoas.
O que acontece  que as coisas que ele diz causam certo desconforto em um mundo onde a maioria das pessoas prefere escutar o que est acostumada a ouvir, o que freqentemente
no  grande coisa. Os que o conhecem geralmente gostam muito de Mack, desde que ele mantenha guardados seus pensamentos. Porque as coisas que Mack diz nem sempre
deixam as pessoas muito satisfeitas com elas mesmas.
Uma vez Mack me contou que quando era jovem costuma se abrir com mais liberdade, mas admitiu que a maior parte dessas conversas fosse um mecanismo de sobrevivncia
para encobrir suas feridas. Freqentemente acabava derramando a dor sobre quem estivesse por perto. Disse que tinha prazer em apontar as falhas das pessoas e humilh-las
para manter seu sentimento de falso poder e controle. Nada muito elogivel.
Enquanto escrevo estas palavras, reflito sobre o Mack que sempre conheci: um sujeito bastante comum e certamente sem nada de especial, a no ser para os que o conhecem
de verdade. Vai fazer 56 anos e no chama a ateno, est ligeiramente acima do peso,  meio careca, baixo e branco - uma descrio que serve para muitos homens
dessas redondezas. Voc provavelmente no o notaria numa multido nem se sentiria incomodado sentado ao seu lado enquanto ele cochila no trem que o leva  cidade
para a reunio semanal de vendas. Faz a maior parte de seu trabalho num pequeno escritrio em sua casa na Wildcat Road. Vende alguma engenhoca de alta tecnologia
que eu no pretendo entender: trecos eletrnicos que de algum modo fazem tudo andar mais depressa, como se a vida j no fosse rpida demais.
Voc s percebe como Mack  inteligente quando, por acaso, escuta um dilogo dele com um especialista. J vivi algumas situaes dessas quando a lngua falada mal
parecia com a nossa e eu me via lutando para captar os conceitos que jorravam como um rio de jias despencando de uma cachoeira. Ele consegue falar com inteligncia
sobre quase tudo e, apesar da fora de suas convices, Mack tem um modo gentil e respeitoso que deixa voc manter as suas.
Seus assuntos prediletos so Deus, a Criao e por que as pessoas acreditam em determinadas coisas. Seus olhos se iluminam e seu sorriso repuxa os cantos dos lbios
para cima. De repente, como se fosse um garotinho, o cansao se dissolve e ele rejuvenesce, praticamente incapaz de se conter. Mas, ao mesmo tempo, Mack no  muito
religioso. Parece ter uma relao de amor e dio com a religio e talvez at com Deus, que ele imagina como um ser mal-humorado, distante e altivo. Pequenas gotas
de sarcasmo escorrem s vezes pelas rachaduras de seu reservatrio, como dardos cortantes cheios de veneno. Embora algumas vezes ns dois vamos juntos  mesma igreja,
d para ver que ele no se sente muito  vontade l.
Mack est casado com Nan h pouco mais de 33 anos - na maior parte do tempo, eles so felizes. Diz que ela salvou sua vida e pagou um preo alto por isso. Por algum
motivo que no d para compreender, Nan parece am-lo agora mais do que nunca, apesar de eu ter a sensao de que ele a magoou de algum modo terrvel nos primeiros
anos. Acho que, assim como a maior parte das nossas feridas tem origem em nossos relacionamentos, o mesmo acontece com as curas, e sei que quem olha de fora no
percebe essa bno.
De qualquer modo, Mack se casou. Nan  a argamassa que mantm juntos os ladrilhos de sua famlia. Enquanto Mack lutou num mundo com muitos tons de cinza, o dela
 principalmente preto e branco. O bom senso  to natural para Nan que ela nem consegue perceber o dom que isso representa. Ter uma famlia a impediu de realiza
seu sonho de ser mdica, mas ela se destacou como enfermeira e obteve reconhecimento considervel em seu trabalho com pacientes terminais com cncer. Enquanto o
relacionamento de Mack com Deus  amplo, o de Nan  profundo.
Esse casal contraditrio teve cinco filhos de beleza incomum. Mack gosta de dizer que todos pegaram  beleza dele, "... porque Nan ainda conserva a dela". Dois dos
trs meninos j saram de casa: Jon, casado h pouco, trabalha como vendedor de uma empresa local, e Tyler, recm-formado na faculdade, est fazendo mestrado. Josh
e uma das duas garotas, Katherine (Kate), cursaram a escola comunitria local. E a que chegou por ltimo  Melissa - ou Missy, como gostvamos de cham-la. Ela...
bem, voc vai conhecer melhor alguns dos filhos de Mack ao longo deste livro.
Os ltimos anos foram... como  que posso dizer... Notavelmente peculiares. Mack mudou: agora est ainda mais diferente e especial. Durante todos os nossos anos
de convvio ele sempre foi bastante gentil e amvel, mas desde a estada no hospital h trs anos ficou... bem, melhor ainda. Tornou-se uma daquelas raras pessoas
que esto totalmente  vontade dentro da prpria pele. E eu tambm me sinto mais  vontade perto dele do que de qualquer outra pessoa. Cada vez que nos separamos,
tenho a sensao de ter tido a melhor conversa da minha vida, mesmo que eu tenha falado mais. E, a respeito de Deus, Mack no  mais simplesmente amplo. Ficou muito
profundo. Mas o mergulho custou caro.
Os dias de hoje so muito diferentes de h sete ou oito anos, quando a Grande Tristeza entrou em sua vida e ele quase parou de falar. Mais ou menos nessa poca,
e por quase dois anos, nossos encontros foram interrompidos, como se por um acordo mtuo no verbalizado. E via Mack de vez em quando na mercearia ou, mais raramente
ainda, na igreja. E, embora em geral trocssemos um abrao educado, no falvamos de muita coisa importante. Para ele era at difcil me encarar. Talvez no quisesse
entrar numa conversa capaz de arrancar a casca de se corao ferido.
Porm tudo isso mudou depois de um acidente feio com... Mas l vou eu outra vez botando o carro na frente dos bois. Vamos chegar l no devido tempo. Basta dizer
que estes ltimos anos parecem ter devolvido a vida de Mack e tirado o fardo da Grande Tristeza. O que aconteceu h trs anos mudou totalmente a melodia de sua vida
e  uma cano que mal posso esperar para tocar.
Apesar de se comunicar bastante bem verbalmente, Mack no se sente seguro sobre sua capacidade de escrever - algo que ele sabe que me apaixona. Por isso, perguntou
se eu escreveria esta histria, a histria dele "para as crianas e para a Nan". Queria uma narrativa que o ajudasse a expressar para eles a profundidade de seu
amor e que os ajudasse a entender o que havia se passado em seu mundo interior. Voc conhece o lugar:  onde voc est sozinho - e talvez com Deus, se acredita Nele.
 claro que Deus pode estar l, mesmo que voc no acredite. Isso seria bem o jeito de Deus. No   toa que ele  chamado de O Grande Intrometido.
A histria que voc vai ler  resultado de uma luta minha e do Mack para, durante muitos meses, colocar em palavras o que ele viveu. Tem um lado um pouco... digamos,
muito fantstico. No vou julgar se algumas partes so verdadeiras ou no. Prefiro dizer que, mesmo que algumas coisas no possam ser cientificamente provadas, talvez
sejam verdadeiras. Mas preciso afirmar honestamente que fazer parte desta histria me afetou de modo profundo, desvendando detalhes meus que eu desconhecia. Confesso
que desejo desesperadamente que tudo o que Mack me contou seja verdade. Na maioria das vezes eu me sinto prximo dele, mas em outras - quando o mundo visvel de
concreto e computadores parece ser o real - perco o contato e tenho dvidas.
Algumas observaes finais. Mack gostaria que eu lhe transmitisse o seguinte recado: "Se voc odiar esta histria, desculpe, ela no foi escrita para voc." Mas
eu quero acrescentar: afinal, talvez tenha sido. O que voc vai ler  o mximo que Mack consegue recordar daquilo que aconteceu. Esta  a histria dele, no a minha.
Por isso, nas poucas vezes em que apareo, vou me referir a mim mesmo na terceira pessoa - e do ponto de vista de Mack.
s vezes a memria pode ser uma companheira enganosa, em especial com relao ao acidente, e eu no ficarei surpreso se, apesar de nosso esforo conjunto para contar
a histria com exatido, alguns fatos e lembranas aparecerem distorcidos nestas pginas. No  intencional. Garanto que as conversas e eventos foram registrados
do modo mais fiel possvel, de acordo com as lembranas de Mack. Portanto, por favor, tente no se aborrecer com ele. Como voc ver, essas coisas no so fceis
de contar.

                                                                          - Willie


 UMA CONFLUNCIA DE CAMINHOS
Duas estradas se bifurcaram no meio da minha vida,
Ouvi um sbio dizer.
Peguei a estrada menos usada.
E isso fez toda a diferena cada noite e cada dia.
                     Larry Norman (pedindo desculpas a Robert Frost)

Maro desatou uma torrente de chuvas depois de um inverno de secura anormal. Uma frente fria desceu do Canad e foi contida por rajadas de vento que rugiam pelo
desfiladeiro, vindas do Leste do Oregon. Ainda que a primavera certamente estivesse logo ali, depois da esquina, o deus do inverno no iria abandonar sem luta seu
domnio conquistado com dificuldade. Havia um cobertor de neve recente nas Cascades, e agora a chuva congelava ao bater no cho do lado de fora da casa. Motivo suficiente
para Mack se enroscar com um livro e uma sidra quente, aconchegando-se no calor do fogo que estalava na lareira.
Mas, em vez disso, ele passou a maior parte da manh no computador. Sentado confortavelmente no escritrio de casa, usando calas de pijama e uma camiseta, ele deu
telefonemas de vendas. Parava com freqncia, ouvindo o som da chuva cristalina tilintar na janela e vendo o acmulo vagaroso mas constante do gelo l fora. Estava
se tornando inexoravelmente prisioneiro do gelo em sua prpria casa - e com muito prazer.
H algo agradvel nas tempestades que interrompem a rotina. A neve ou a chuva glida nos liberam subitamente das expectativas, das exigncias de resultados e da
tirania dos compromissos e dos horrios. Ao contrrio da doena, esta uma experincia mais coletiva do que individual. Quase podemos ouvir um suspiro de alvio
erguer-se em unssono na cidade prxima e no campo, onde a natureza interveio para dar uma folga aos exaustos seres humanos. Todos os afetados pela tempestade so
unidos por uma desculpa mtua. De sbito e inesperadamente o corao fica um pouco mais leve. No sero necessrias desculpas por no comparecer a algum compromisso.
Todos entendem e compartilham a mesma justificativa, e a retirada sbita de qualquer presso alegra a alma.
 claro que as tempestades tambm interrompem negcios, e, embora umas poucas empresas tenham um ganho extra, outras perdem dinheiro o que significa que existem
os que no sentem jbilo quando tudo fecha temporariamente. Mas  impossvel culpar algum pela perda de produo ou por no conseguir chegar ao escritrio. Mesmo
que a situao s dure um ou dois dias, de algum modo cada pessoa se sente dona do seu mundo simplesmente porque aquelas gotinhas de gua congelam ao bater no cho.
At as atividades comuns se tornam extraordinrias. Aes rotineiras se transformam em aventuras e freqentemente so vivenciadas com maior clareza. No fim da tarde,
Mack se encheu de agasalhos e saiu para lutar com os quase 100 metros da comprida entrada de veculos que vai at a caixa de correio. O gelo havia convertido magicamente
essa tarefa simples do dia-a-dia numa batalha contra os elementos: levantou o punho em contestao  fora bruta da natureza e, num ato de desafio, riu na cara dela.
O fato de que ningum notaria nem se incomodaria com seu gesto pouco importava para ele - s o pensamento o fez rir por dentro.
As pelotas de chuva gelada ardiam no rosto e nas mos enquanto ele subia e descia com cuidado as pequenas ondulaes do caminho. Mack se divertia pensando que parecia
um marinheiro bbado indo com cuidado para o prximo boteco. Quando voc enfrenta a fora de uma tempestade de gelo, no caminha exatamente com ousadia, demonstrando
uma confiana incontida. Mack teve de se levantar duas vezes antes de finalmente conseguir abraar a caixa de correio como se fosse um amigo desaparecido h muito.
Parou para apreciar a beleza de um mundo engolfado em cristal. Tudo refletia luz e colaborava para o brilho crescente do fim de tarde. As rvores no campo do vizinho
tinham-se coberto com mantos translcidos, e agora cada uma parecia nica ao seu olhar. Era um mundo radiante e, por um momento, seu esplendor luzidio retirou, ainda
que por apenas alguns segundos, a Grande Tristeza dos ombros de Mack.
Demorou quase um minuto para arrancar o gelo que havia lacrado a tampa da caixa de correio. A recompensa por seus esforos foi um nico envelope onde havia apenas
seu primeiro nome escrito  mquina do lado de fora; sem selo, sem carimbo e sem remetente. Curioso, ele rasgou a borda do envelope, tarefa que no foi fcil, pois
os dedos comeavam a se enrijecer de frio. Dando as costas para o vento que lhe tirava o flego, finalmente conseguiu arrancar do ninho um pequeno retngulo de papel
sem dobra. A mensagem datilografada dizia simplesmente:
Mackenzie
J faz um tempo. Senti sua falta.
Estarei na cabana no fim de semana que vem, se voc quiser me encontrar.
Papai
Mack se enrijeceu enquanto uma onda de nusea percorria seu corpo e, com igual rapidez, se transmutava em ira. Esforava-se para pensar o mnimo possvel na cabana
e, mesmo quando ela lhe vinha  mente, seus pensamentos no eram agradveis nem bons. Se aquilo era uma piada de mau gosto, a pessoa realmente havia se superado.
E assinar "Papai" s tornava a coisa ainda mais horrenda.
- Idiota - resmungou, pensando em Tony, o carteiro: um italiano
exageradamente amigvel, com grande corao mas pouco tato. Por que ele entregaria um envelope to ridculo? Nem estava selado. Mack enfiou com raiva o envelope
e o bilhete no bolso do casaco e virou-se para comear a deslizar na direo de casa. Os sopros fortes do vento, que a princpio haviam diminudo de intensidade,
agora o empurravam, encurtando o tempo necessrio para atravessar a mini geleira que engrossava sob seus ps.
Estava se saindo bem, obrigado, at chegar  entrada de veculos, que se inclinava um pouco para baixo e  esquerda. Sem qualquer esforo ou inteno, comeou a
aumentar a velocidade, deslizando com sapatos que tinham praticamente tanta firmeza quanto um pato pousando num lago gelado. Com os braos balanando loucamente
na esperana de, no sabia como, manter o equilbrio, Mack se viu adernando de encontro  nica rvore de tamanho substancial que ladeava a entrada de veculos -
a nica cujos galhos mais baixos ele havia cortado uns poucos meses antes. Agora ela se erguia ansiosa para abra-lo, semi-nua e aparentemente desejosa de uma pequena
retribuio. Numa frao de segundo, ele escolheu o caminho da covardia e tentou despencar no cho, permitindo que os ps escorregassem - o que eles de qualquer
modo fariam. Melhor ter a bunda dolorida do que arrancar lascas do rosto.
Mas a descarga de adrenalina o fez compensar exageradamente, e em cmara lenta Mack viu os ps se erguerem  sua frente, como se puxados para cima por alguma armadilha
da selva. Bateu com fora, primeiro com a nuca, e escorregou at um monte na base da rvore brilhosa, que pareceu se erguer acima dele com uma expresso de presuno
e nojo, alm de certa decepo.
O mundo pareceu ficar escuro por um instante. Ele permaneceu ali deitado, tonto e olhando o cu, franzindo os olhos enquanto a precipitao gelada esfriava rapidamente
seu rosto vermelho. Durante uma pausa ligeira, tudo pareceu estranhamente quente e pacfico, com sua clera momentaneamente nocauteada pelo impacto.
- Agora, quem  o idiota? - murmurou consigo mesmo, esperando que ningum estivesse olhando.
O frio se entranhava rapidamente pelo casaco e pelo suter, e Mack soube que a chuva gelada que estava ao mesmo tempo se derretendo e se congelando embaixo dele
iria logo se tornar um enorme desconforto. Gemendo e sentindo-se muito velho, rolou apoiando-se nas mos e nos joelhos. Foi ento que viu a marca de um vermelho
forte traando sua jornada desde o ponto de impacto at o destino final. Como se gerado pela sbita percepo do ferimento, um martelar surdo comeou a subir pela
nuca. Instintivamente ele procurou a fonte das batidas de tambor e trouxe de volta a mo ensangentada.
Com o gelo spero e o cascalho afiado cortando as mos e os joelhos, Mack meio engatinhou, meio escorregou, at conseguir chegar a uma parte plana da entrada de
veculos. Com um esforo consideravelmente pde ficar de p e avanar cautelosamente, centmetro a centmetro, em direo a casa, humilhado pelos poderes do gelo
e da gravidade.
Assim que entrou, Mack se livrou metodicamente e do melhor modo que pde das camadas de roupa de frio, com os dedos meio congelados reagindo com quase tanta destreza
quanto se fossem porretes enormes na ponta dos braos. Decidiu largar aquela baguna molhada e manchada de sangue ali mesmo na entrada, onde a deixara cair, e avanou
dolorosamente at o banheiro para examinar os ferimentos. No existia dvida de que o caminho gelado havia vencido. Do talho na nuca escorria sangue ao redor de
algumas pedrinhas ainda encravadas no couro cabeludo. Como havia temido, um galo significativo tinha se formado, emergindo como uma baleia-corcunda rompendo as ondas
de seu cabelo ralo.
Enquanto tentava ver a nuca com um pequeno espelho de mo que refletia uma imagem invertida do espelho do banheiro, Mack achou difcil fazer um curativo. Depois
de uma curta frustrao, desistiu, incapaz de obrigar as mos a irem  direo certa e sem saber qual dos dois espelhos mentia para ele. Tateando com cuidado ao
redor do tal charcado, conseguiu tirar os pedaos maiores de cascalho, at que a dor ficou forte demais para continuar. Pegou um pouco de pomada de primeiros socorros
e tapou o ferimento do melhor modo que pde. Em seguida amarrou uma toalha de rosto na nuca usando um pouco de gaze que encontrou numa gaveta do banheiro. Olhando-se
no espelho, pensou que se parecia um pouco com um marinheiro rude sado do romance Moby Dick. Isso o fez rir, depois se encolher.
Teria de esperar at que Nan chegasse a casa para receber qualquer atendimento mdico verdadeiro, uma das muitas vantagens de ser casado com uma enfermeira. De qualquer
modo, sabia que quanto pior fosse  aparncia, mais solidariedade iria receber. Se prestarmos bastante ateno, sempre conseguiremos descobrir alguma compensao
no sofrimento. Engoliu dois analgsicos para diminuir a dor e mancou at a porta da frente.
Nem por um instante Mack se esqueceu do bilhete. Remexendo na pilha de roupas molhadas e ensangentadas, finalmente o encontrou no bolso do casaco. Olhou, voltou
para o escritrio, achou o nmero da agncia de correio e ligou. Como esperava, Annie, a matronal chefe do correio e guardi dos segredos da populao local, atendeu.
- Oi, por acaso o Tony est a?
- Oi, Mack,  voc? Reconheci sua voz. - Claro que reconheceu.
- Desculpe, mas o Tony ainda no voltou. Na verdade, acabo de falar com ele pelo rdio. Est na metade da Wildcat, nem chegou  sua casa ainda. O que voc quer que
eu diga a ele, se conseguir voltar vivo?
-        Na verdade voc j respondeu  minha pergunta.
Houve uma pausa do outro lado.
- O que h de errado, Mack? Ainda est fumando muito bagulho, ou s faz isso nas manhs de domingo para conseguir suportar o culto na igreja? - Ela comeou a rir,
encantada com o brilho de seu prprio senso de humor.
- Bom, Annie, voc sabe que eu no fumo bagulho. Nunca fumei e nem quero. - Claro que Annie sabia disso, mas Mack no podia se arriscar. No seria a primeira vez
em que o senso de humor de Annie se transformaria numa boa histria que logo se tornaria um "fato". Ele podia ver seu nome sendo acrescentado  corrente de oraes
da igreja.
- Tudo bem, eu falo com o Tony outra hora, no  importante.
-         Ento est certo, e fique dentro de casa, que  mais seguro. Voc sabe, um cara velho como voc pode perder o senso de equilbrio com o passar dos anos.
Do jeito que as coisas andam, talvez Tony nem consiga chegar  sua casa.
- Obrigado, Annie. Tentarei lembrar do seu conselho. Falo com voc mais tarde. Tchau. - Sua cabea latejava cada vez mais, pequenos martelos de forja batendo no
ritmo do corao. "Estranho", pensou, "quem ousaria colocar algo assim na nossa caixa de correio?" Os analgsicos ainda no haviam surtido o efeito desejado, mas
eram suficientes para embotar o incio de preocupao que ele estava sentindo, e de repente Mack ficou muito cansado. Pousou a cabea na mesa e pensou que havia
acabado de cair no sono quando o telefone o acordo um susto.
- Ah... al?
- Oi, amor. Parece que voc estava dormindo. - Ele sentiu na voz de Nan uma animao incomum, mesmo percebendo a tristeza encoberta que espreitava logo abaixo da
superfcie de cada conversa. Mack ligou a luminria da mesa e olhou o relgio, surpreso ao constatar que dormira por cerca de duas horas.
- Ah, desculpe. Acho que cochilei um pouco.
- , voc parece meio grogue. Tudo bem?
- Tudo. - Mesmo estando quase escuro l fora, Mack podia ver que a tempestade no havia amainado. Tinha at depositado mais uns 5 centmetros de gelo. Os galhos
das rvores pendiam baixos e ele sabia que alguns acabariam se partindo com o peso, principalmente se o vento aumentasse. - Tive um pequeno entrevero na entrada
de veculos quando fui pegar a correspondncia. Mas, fora isso, tudo bem. E voc?
- Ainda estou na casa da Arlene e acho que eu e as crianas vamos passar a noite aqui.  sempre bom para a Kate estar com a famlia... Parece que isso restaura um
pouco o seu equilbrio. - Arlene era a irm de Nan, que morava do outro lado do rio, em Washington. - De qualquer modo, est escorregadio demais para sair. Espero
que melhore de manh. Queria ter chegado a casa antes de o tempo ficar to ruim, mas o que se h de fazer? - Houve uma pausa. - Como est tudo por a?
- Bem, est absolutamente, espantosamente lindo e muitssimo mais seguro de olhar do que de andar, acredite. Eu certamente no quero que voc tente chegar aqui nessa
situao. Nada se mexe. Acho que nem o Tony conseguiu trazer a correspondncia.
- Achei que voc j tinha pegado  correspondncia.
- No, achei que o Tony tinha passado e fui pegar. E - Mack hesitou, olhando o bilhete sobre a mesa - no havia nenhuma correspondncia. Liguei para Annie e ela
disse que o Tony provavelmente no ia conseguir subir a ladeira. De qualquer modo - ele mudou rapidamente de assunto para evitar mais perguntas -, como est a Kate?
Houve uma pausa e depois um longo suspiro. Quando Nan falou, sua voz saiu num sussurro, e Mack percebeu que ela estava tapando o bocal do outro lado.
-        Mack, eu gostaria de saber. Por mais que eu tente, no consigo.  como se eu falasse com uma pedra. Quando tem gente da famlia por perto, ela parece sair
um pouco da casca, mas depois some de novo. Simplesmente no sei o que fazer. Rezei e rezei para que Papai nos auxiliasse a encontrar um modo de ajud-la, mas...
- Nan parou de novo - parece que ele no est ouvindo.
Era assim. Papai era o nome com que Nan se referia a Deus e expressava o deleite que lhe provocava sua amizade ntima com ele.
- Querida, tenho certeza de que Deus sabe o que est fazendo. Tudo vai dar certo. - Essas palavras no lhe trouxeram conforto, mas ele esperava que pudessem aliviar
a preocupao que sentia na voz dela.
- Eu sei - Nan suspirou. - S gostaria que ele andasse mais depressa.
- Eu tambm - foi tudo o que Mack conseguiu dizer. - Bom, voc e as crianas fiquem a, onde  seguro. D lembranas  Arlene e ao Jimmy e agradea a eles por mim.
Espero ver voc amanh.
- Eu tambm. Se cuide e me ligue se precisar de alguma coisa.
- Tchau.
Mack sentou-se e olhou o bilhete. Era confuso e doloroso tentar evitar a cacofonia de emoes perturbadoras e de imagens sombrias que nublava sua mente - um milho
de pensamentos viajando a um milho de quilmetros por hora. Por fim desistiu, dobrou o bilhete, enfiou-o numa pequena lata que ficava sobre a mesa e apagou a luz.
Conseguiu encontrar algo para aquecer no microondas, depois pegou alguns cobertores e travesseiros e foi para a sala de estar. Ao olhar rapidamente para o relgio,
viu que o programa de Bill Moyer tinha acabado de comear; era seu programa predileto, que ele tentava no perder nunca. Moyer era uma das pouqussimas pessoas que
Mack adoraria conhecer: um homem brilhante e franco, capaz de exprimir com clareza incomum uma compaixo intensa pelas pessoas e pela verdade.
Quase sem pensar e sem afastar os olhos da televiso, Mack estendeu a mo para a mesinha de canto, pegou um porta-retrato com a imagem de uma menininha e o apertou
contra o peito. Com a outra mo puxou os cobertores at o queixo e se aninhou mais fundo no sof.
Iogo o som de roncos suaves encheu o ar, enquanto o aparelho exibia um estudante no Zimbbue, que fora espancado por falar contra o governo. Mas Mack j havia sado
da sala para lutar com seus sonhos. Talvez essa noite no houvesse pesadelos, s vises, quem sabe, de arvores e gravidade.



              A ESCURIDO SE APROXIMA
           Nada nos deixa to solitrios quanto nossos segredos.
   - Paul Tournier
Durante a noite um vento sudoeste soprou pelo vale de Villamette, libertando a paisagem do aperto glido da tempestade. Em menos de 24 horas instalou-se um calor
de incio de vero. Mack dormiu at tarde, um daqueles sonos sem sonhos que parecem durar apenas um instante.
Quando finalmente se arrastou do sof, surpreendeu-se ao descobrir que as loucuras do gelo haviam se dissolvido to depressa, mas deliciou-se ao ver Nan e as crianas
aparecerem menos de uma hora depois. Primeiro veio  bronca previsvel por ele no ter posto as roupas sujas de sangue na lavanderia. Em seguida, uma quantidade
adequada de exclamaes que acompanharam o exame que ela fez no ferimento da cabea. O cuidado agradou imensamente a Mack e logo Nan o havia limpado, remendado e
alimentado. Mas no houve meno ao bilhete sempre presente em sua mente. Ele ainda no sabia o que pensar a respeito e no queria envolver Nan em algum tipo de
piada cruel.
As pequenas distraes, como a tempestade de gelo, eram uma trgua bem-vinda que afastava por instantes a presena terrvel de sua companheira constante: a Grande
Tristeza, como ele a chamava. Pouco depois do vero em que Missy desaparecera, a Grande Tristeza havia pousado nos ombros de Mack como uma capa invisvel, mas quase
palpvel. O peso daquela presena embotava seus olhos e curvava seus ombros. At os esforos para afast-la eram exaustivos, como se os braos estivessem costurados
nas dobras escuras do desespero que agora, de algum modo, tinha se tornado parte dele. Comia, trabalhava, amava, sonhava e brincava sempre usando essa vestimenta,
como se fosse um roupo de chumbo. Andava com dificuldade pela melancolia tenebrosa que sugava a cor de tudo.
s vezes ele podia sentir a Grande Tristeza se apertando lentamente ao redor do peito e do corao, como os anis esmagadores de uma jibia, espremendo lquido dos
seus olhos at ele achar que no existia mais nenhuma gota. Em outras ocasies sonhava que seus ps estavam presos em lama pegajosa, enquanto tinha rpidos vislumbres
de Missy correndo pelo caminho que descia pela floresta  frente dele, o vestido vermelho de algodo leve enfeitado pelas flores silvestres que piscavam entre as
rvores. Ela no fazia qualquer idia da sombra escura que a seguia. Ainda que Mack tentasse freneticamente gritar, nenhum som saa e ele sempre chegava tarde demais
e impotente demais para salv-la. Sentava-se empertigado na cama, o suor pingando do corpo torturado, enquanto ondas de nusea, culpa e arrependimento rolavam sobre
ele como um maremoto surreal.
A histria do desaparecimento de Missy infelizmente no  como outras que a gente costuma ouvir. Tudo aconteceu no fim de semana do Dia do Trabalho, o ltimo brado
de alegria do vero antes de outro ano de escola e rotinas de outono. Mack decidiu corajosamente levar as trs crianas menores para um ltimo acampamento no lago
Walowa, no Nordeste do Oregon. Nan j estava inscrita num curso de reciclagem em Seattle, um dos dois garotos mais velhos havia retornado  faculdade e o outro estava
trabalhando como monitor num acampamento de vero. Mas Mack confiava na prpria capacidade de combinar corretamente conhecimentos de sobrevivncia ao ar livre e
habilidades maternas. Afinal, Nan era uma boa professora e ele, um aluno aplicado.
O sentimento de aventura e a euforia do acampamento tomaram conta de todos, e a casa virou um redemoinho de atividades. Num
determinado ponto da confuso, Mack decidiu que precisava de uma trgua e se acomodou na cadeira do papai depois de expulsar Judas, o gato da famlia. J ia ligar
a TV quando Missy entrou correndo, segurando sua caixinha de plstico transparente.
-        Posso levar minha coleo de insetos para acampar com a gente? - perguntou.
-        Quer levar seus bichos? - grunhiu Mack, sem prestar muita
ateno.
-        Pai, eles no so bichos. So insetos. Olha, tenho um monte aqui.
Relutante, Mack deu ateno  filha, que, vendo-o concentrado, comeou a explicar o contedo do seu "ba" do tesouro.
-        Olha, tem dois gafanhotos. E olha aquela folha,  a minha lagarta, e em algum lugar por a... Ali! Est vendo minha joaninha? E tenho uma mosca em algum
lugar e umas formigas.
Enquanto ela fazia o inventrio da coleo, Mack se esforou ao mximo para demonstrar que estava atento, balanando a cabea.
- Ento - terminou Missy. - Voc me deixa levar?
- Claro que sim, querida. Talvez a gente possa solt-los na floresta quando estivermos l.
- No pode, no! - veio uma voz da cozinha. - Missy, voc tem de deixar a coleo em casa, querida. Acredite, eles esto mais seguros aqui. - Nan esticou a cabea
pela quina da parede e franziu a testa amorosamente para Mack, enquanto ele encolhia os ombros.
- Eu tentei, querida - sussurrou ele para Missy.
- Grrr - rosnou Missy. E, sabendo que a batalha estava perdida, pegou a caixa e saiu.
Na noite de quinta-feira a van estava lotada e a carreta-barraca de reboque presa, com luzes e freios testados. Na sexta de manh, depois de um ltimo sermo de
Nan para os filhos sobre segurana, obedincia, escovar os dentes de manh, no pegar gatos com listras brancas nas costas e todo tipo de outras coisas, todos saram:
Nan para o norte e Mack e os trs mosqueteiros para o leste. O plano era voltar na noite de tera-feira, vspera do primeiro dia de aula.
Mack e os filhos pararam na cachoeira Multnomah para comprar um livro de colorir e lpis de cor para Missy e duas mquinas fotogrficas descartveis e  prova de
gua para Kate e Josh. Depois decidiram subir a curta distncia da trilha at a ponte diante da cachoeira. Antigamente havia um caminho rodeando o poo principal
e entrando numa caverna rasa atrs da queda-de-gua, mas infelizmente ele tinha sido bloqueado pelas autoridades do parque por causa da eroso. Missy adorava o lugar
e implorou ao pai para contar a lenda da bela jovem ndia, filha de um chefe da tribo Multnomah. Foi preciso um pouco de insistncia, mas por fim Mack cedeu e recontou
a histria enquanto olhavam para a nvoa que envolvia a cachoeira.
A histria falava de uma princesa, a nica filha que restava ao pai idoso. O chefe adorava a filha e escolheu com cuidado um marido para ela: um jovem chefe guerreiro
da tribo Clatsop que a amava. As duas tribos se juntaram para as comemoraes do casamento. Mas, antes do comeo da festa, uma doena terrvel comeou a matar muitos
homens.
Os ancios e os chefes se reuniram para discutir o que poderiam fazer contra a doena devastadora que dizimava rapidamente seus guerreiros. O curandeiro mais velho
contou que seu pai, perto de morrer, j bem idoso, havia previsto uma doena terrvel que mataria seus homens, uma doena que s poderia ser vencida se a filha de
um chefe, pura e inocente, oferecesse de boa vontade a vida pelo seu povo. Para realizar a profecia, ela deveria subir voluntariamente num penhasco acima do Grande
Rio e pular para a morte nas rochas abaixo.
Uma dzia de jovens, todas as filhas dos vrios chefes, foram trazidas diante do Conselho. Depois de demorados debates, os ancios decidiram que no poderiam pedir
um sacrifcio to precioso, sobretudo porque no sabiam se a lenda era verdadeira.
Mas a doena continuou se espalhando implacvel entre os homens, e finalmente o jovem chefe guerreiro, o futuro esposo, caiu doente. A princesa, que o amava muito,
soube no fundo do corao que algo precisava ser feito e, depois de lhe dar um leve beijo na testa, afastou-se.
Demorou toda a noite e todo o dia seguinte para chegar ao local indicado na lenda, um penhasco altssimo acima do Grande Rio e das terras mais alm. Depois de rezar
e se entregar ao Grande Esprito, ela cumpriu a profecia sem hesitar, pulando para a morte nas rochas abaixo.
Nas aldeias, na manh seguinte, os doentes se levantaram saudveis e fortes. Houve grande jbilo e comemorao, at que o jovem guerreiro descobriu que sua adorada
noiva havia sumido.  medida que a percepo do que acontecera se espalhava rapidamente entre o povo, muitos empreenderam a jornada at o lugar onde sabiam que iria
encontr-la. Enquanto se reuniam em silncio ao redor do corpo destroado na base do penhasco, seu pai, tomado pelo sofrimento, gritou para o Grande Esprito, pedindo
que o sacrifcio dela fosse lembrado para sempre. Nesse momento, do lugar de onde ela havia pulado comece jorrar gua, transformando-se numa nvoa fina que caa
aos ps deles, lentamente formando um lago maravilhoso.
Normalmente, Missy adorava a histria. A narrativa possua todo os elementos de um verdadeiro conto de redeno, no muito diferente histria de Jesus que ela conhecia
to bem. Falava de um pai que amava a filha nica e de um sacrifcio anunciado por um profeta. Por causa do amor, a jovem escolheu dar sua vida para salvar o noivo
e as tribos da morte certa.
Mas, dessa vez, Missy ficou quieta quando a histria terminou. Virou-se imediatamente e dirigiu-se para a van, como se dissesse: "Tudo bem, no tenho mais nada para
fazer aqui. Vamos indo."
Deram uma parada rpida para um lanche junto ao rio Hood, depois voltaram para a auto-estrada que iria lev-los pelos ltimos 115 quilmetros at a cidade de Joseph.
O lago e o local de acampamento ficavam poucos quilmetros depois de Joseph. Quando chegaram, arrumaram tudo - no exatamente como Nan teria preferido, mas do jeito
que lhes pareceu melhor.
Naquele fim de tarde, sentado entre as trs crianas que riam assistindo a um dos maiores espetculos da natureza, o corao de Mack foi subitamente inundado por
uma alegria inesperada. Um pr-do-sol de cor e padres brilhantes destacava as poucas nuvens que haviam esperado nas coxias para se tornarem os atores centrais nessa
apresentao nica. Ele era um homem rico, pensou, em todos os sentidos que mais importavam.
Quando acabaram de limpar os restos do jantar, a noite havia cado. Os cervos tinham ido para o lugar onde dormem. Seu turno foi substitudo pelos encrenqueiros
noturnos: guaxinins, esquilos e tmias, que perambulavam em bandos procurando qualquer recipiente ligeiramente aberto. Os Phillips sabiam disso por experincia prpria.
A primeira noite que tinham passado nesses locais de acampamento lhes custara quatro dzias de barras de cereal, uma caixa de chocolate e todos os biscoitos de creme
de amendoim.
Antes que ficasse muito tarde, os quatro deram uma pequena caminhada para longe das fogueiras e das lanternas do acampamento, at um lugar escuro e quieto onde pudessem
se deitar e olhar maravilhados a Via-Lctea, espantosa e intensa sem a poluio das luzes da cidade. Mack era capaz de ficar horas deitado olhando aquela vastido.
Sentia-se incrivelmente pequeno, mas em paz. De todos os lugares em que a presena de Deus se fazia sentir, era ali, rodeado pela natureza e sob as estrelas, um
dos mais tocantes. Quase podia ouvir o hino de adorao que os astros faziam ao Criador, e em seu corao relutante ele participava do melhor modo possvel.
Ento voltaram ao acampamento e, depois de vrias viagens aos banheiros, Mack enfiou os trs na segurana de seus sacos de dormir. Rezou brevemente com Josh antes
de ir at onde Kate e Missy estavam esperando. Quando chegou a vez de Missy rezar, ela quis conversar com o pai.
-        Papai, por que ela teve de morrer?
Mack demorou um momento para descobrir do que Missy estava falando. Percebeu subitamente que a princesa ndia devia estar na cabea da menina desde cedo, quando
ele contara a histria.
-        Querida, ela no teve de morrer. Ela escolheu morrer para salvar seu povo. Eles estavam doentes e ela queria que se curassem.
Houve um silncio e Mack soube que outra pergunta estava se formando no escuro.
-        Isso aconteceu mesmo? - A pergunta agora vinha de Kate, obviamente interessada na conversa.
Mack pensou antes de falar.
- No sei, Kate.  uma lenda, e s vezes as lendas so historias que ensinam uma lio.
- Ento no aconteceu de verdade? - perguntou Missy.
- Pode ter acontecido, querida. s vezes as lendas nascem de histrias verdadeiras, coisas que aconteceram de fato.
 De novo silncio, e depois:
-        Ento a morte de Jesus  uma lenda?
Mack podia ouvir as engrenagens girando na mente de Kate. -     No, querida, a histria de Jesus  verdadeira. E sabe de uma coisa? Acho que a histria da princesa
ndia provavelmente tambm .
Mack esperou enquanto suas filhas processavam os pensamentos. Missy foi  prxima a perguntar:
- O Grande Esprito  outro nome para Deus? Voc sabe, o pai de Jesus?
Mack sorriu no escuro. Obviamente as oraes noturnas de Nan estavam surtindo efeito.
- Acho que sim.  um bom nome para Deus, porque ele  um esprito e  grande.
- Ento por que ele  to mau?
Ah, ali estava  pergunta que viera crescendo na cabecinha da filha !
- Como assim, Missy?
- Bom, o Grande Esprito fez a princesa pular do penhasco e fez Jesus morrer numa cruz. Isso parece muito mal.
Mack ficou travado. No sabia como responder. Com seis anos e meio, Missy estava fazendo perguntas com as quais pessoas sbias haviam lutado durante sculos.
-        Querida, Jesus no achava que o pai dele era mau. Achava que
era cheio de amor e que o amava muito. O pai dele no o fez morrer. Jesus escolheu morrer porque ele e o pai amavam muito voc, eu e todas as pessoas. Ele nos salvou
da doena, como a princesa.
Agora veio o silncio mais longo e Mack comeou a imaginar que a menina teria cado no sono. Quando ia se inclinar para lhes dar um beijo, uma vozinha com um tremor
perceptvel rompeu a quietude.
-        Papai?
- Sim, querida?
- Algum dia eu vou ter de pular de um penhasco?
O corao de Mack doeu quando ele entendeu a verdadeira questo. Abraou a menininha e a apertou. Com h voz um pouco mais rouca do que o usual, respondeu gentilmente:
- No, querida. Nunca vou pedir para voc pular de um penhasco, nunca, nunca, jamais.
- Ento Deus vai me pedir para pular de um penhasco?
- No, Missy. Ele nunca pediria que voc fizesse uma coisa dessas.
Ela se aninhou mais fundo em seus braos.
-        Est bem! D-me um abrao apertado. Boa noite, papai. Eu te amo.
E apagou, caindo num sono profundo embalado por sonhos bons
e doces.
Depois de alguns minutos, Mack a colocou suavemente no saco de dormir.
- Voc est bem, Kate? - sussurrou enquanto lhe dava um beijo.
- Estou - veio a resposta murmurada. - Pai?
- O que , querida?
- A Missy faz perguntas boas, no ?
- Com certeza.  uma menininha especial. Voc tambm , s que no  mais to pequenininha. Agora durma, temos um grande dia pela frente. Lindos sonhos, querida.
- Voc tambm, pai. Te amo demais!
- Te amo tambm, de todo o corao. Boa noite.
Mack fechou o zper do reboque ao sair, assuou o nariz e enxugou as lgrimas que desciam pelo rosto. Fez uma orao silenciosa de agradecimento a Deus e foi coar
um pouco de caf.


                                 O MERGULHO
                  A alma  curada ao estar com crianas.
                                    - Fedor Dostoievski

O Parque Estadual do Lago Wallowa, no Oregon, e a rea ao redor tm sido chamados, com propriedade, de Pequena Sua da Amrica. Montanhas escarpadas e agrestes
erguem-se at quase 3 mil metros, no meio delas, h inmeros vales escondidos cheios de riachos, trilhas de caminhada e altas campinas cobertas de flores silvestres.
O lago Wallowa  a passagem para a rea de Recreao Nacional de Hells Canyon, onde est o maior desfiladeiro da Amrica do Norte. Esculpido no decorrer de sculos
pelo rio Snake, em alguns lugares tem mais de 3 quilmetros do topo  base, e s vezes 16 quilmetros de uma borda  outra.
Na rea de Recreao h mais de 1.400 quilmetros de trilhas de caminhada. Os vestgios da presena da tribo Nez Perce, que antes dominava a regio, esto espalhados
por essa vastido, junto com os dos colonos brancos que passavam a caminho do Oeste. A cidade de Joseph, ali perto,  assim chamada por causa de um poderoso chefe
tribal cujo nome indgena significava Trovo Rolando Montanha Abaixo.
A rea oferece abundante flora e vida selvagem, incluindo alces, ursos, corvos e cabritos monteses.
O lago Wallowa mede 8 quilmetros de comprimento e um e meio de largura e foi formado, segundo alguns, por geleiras que ali se encontravam h 9 milhes de anos.
Fica a cerca de um quilmetro e meio da cidade de Joseph, a uma altitude de 1.340 metros. A temperatura da gua  de tirar o flego durante a maior parte do ano,
mas fica agradvel no fim do vero para um nado rpido perto da margem.
Mack e as crianas preencheram os trs dias seguintes com diverso e lazer. Missy, aparentemente satisfeita com as respostas do pai, no voltou ao assunto da princesa,
mesmo quando uma caminhada diurna os levou perto de penhascos altssimos. Passaram algumas horas andando de pedalinho junto  margem do lago, esforaram-se ao mximo
para ganhar um prmio no minigolfe, cavalgaram nas trilhas e visitaram as lojinhas da cidade de Joseph.
Ao longo do fim de semana, duas outras famlias juntaram-se magicamente ao mundo dos Phillips. Como acontece freqentemente, as crianas deram incio  amizade.
Josh gostou especialmente de conhecer os Ducette, pois a filha mais velha, Amber, era uma linda mocinha mais ou menos da sua idade. Kate adorou implicar com o irmo
mais velho por causa disso, e ele reagiu indo irritado para a carreta-barraca, vociferando e resmungando. Amber tinha uma irm, Emmy, apenas um ano mais nova do
que Kate, e as duas passaram a brincar juntas. Vicky e Emil Ducette tinham viajado de sua casa no Colorado, onde Emil trabalhava como agente policial do Servio
de Pesca e Vida Selvagem e Vicky cuidava do lar e do filho caula, J. J., que agora tinha quase um ano.
Os Ducette apresentaram Mack e os filhos a um casal canadense que haviam conhecido antes, Jesse e Sarah Madison. Pareciam tranqilos, despretensiosos, e Mack gostou
deles  primeira vista. Os dois trabalhavam como consultores independentes, Jesse na rea de recursos humanos e Sarah na de administrao. Missy ligou-se logo a
Sarah e as duas costumavam ir ao acampamento dos Ducette para ajudar Vicky com J. J.
O domingo nasceu radioso e todo o grupo se empolgou com a idia de pegar o telefrico do lago Wallowa at o topo do monte Howard - 2.484 metros acima do nvel do
mar. Jesse e Sarah convidaram todos para almoar em um restaurante no topo da montanha. Depois passariam o resto do dia caminhando at os cinco pontos de observao
e os mirantes, Armados de mquinas fotogrficas, culos escuros, garrafas de gua e protetor solar, partiram no meio da manh. Como j imaginavam, fizeram uma verdadeira
festa com hambrgueres, batatas fritas e milk-shakes no restaurante. A altitude estimulou o apetite - at Missy conseguiu devorar um hambrguer inteiro e a maior
parte das outras guloseimas.
Depois do almoo, caminharam pelas trilhas at os mirantes prximos. Dali se divisava um panorama deslumbrante que ia at o horizonte, semeado de pequenas cidades.
No fim da tarde estavam todos cansados e felizes. Missy, que Jesse havia carregado nos ombros at dois ltimos mirantes, dormia no colo do pai enquanto chacoalhavam
no telefrico de descida.
"Este  um daqueles momentos raros e preciosos", pensou Mack, "que pegam  gente de surpresa e quase tiram o flego. Se Nan estive aqui, seria realmente perfeito."
Ajeitou o peso de Missy numa posio mais confortvel para ela e tirou o cabelo do rosto da menina para olh-la. A sujeira e o suor do dia s faziam, estranhamente,
aumentar seu ar de inocncia e sua beleza. "Por que eles tm de crescer?" pensou ao dar um beijo na testa da filha.
Naquela noite, as trs famlias se reuniram para um ltimo jantar juntos. Mais tarde, os adultos sentaram-se bebericando caf ao redor uma fogueira, enquanto Emil
contava suas aventuras em operaes contra quadrilhas de contrabando de animais em extino. Era um narrador hbil e sua profisso oferecia um enorme elenco de histrias
hilariantes. Tudo era fascnio e Mack voltou a ser inundado por um imenso bem-estar.
Como acontece freqentemente quando uma fogueira de acampamento arde por muito tempo,  conversa passou do humorstico para o mais pessoal. Sarah parecia ansiosa
para conhecer melhor o resto da famlia de Mack, especialmente Nan.
-        Como ela , Mackenzie?
Mack adorava exaltar as maravilhas de sua Nan.
-        Modstia  parte, Nan  linda por dentro e por fora. - Sorriu encabulado e viu os dois olhando afetuosamente para ele. Estava realmente com saudade de sua
mulher. - O nome completo dela  Nannette, mas quase todo mundo s a chama de Nan. Tem uma tremenda reputao na comunidade mdica, pelo menos no Noroeste.  enfermeira
e trabalha com pacientes terminais de cncer.  um trabalho duro, mas ela adora. Bom, Nan escreveu alguns textos e tem feito palestras em congressos.
- Verdade? - perguntou Sarah. - Sobre o que ela fala?
- Ela ajuda as pessoas que esto diante da morte a pensarem no relacionamento com Deus.
- Eu adoraria ouvir mais sobre isso - encorajou Jesse enquanto atiava o fogo com um graveto, fazendo-o avivar-se com vigor renovado.
Mack hesitou. Por mais que se sentisse  vontade com aqueles dois, no os conhecia de fato e a forma como a conversa se aprofundara o deixava meio inquieto. Procurou
responder de maneira sucinta.
- Nan  muito melhor nisso do que eu. Acho que ela pensa em Deus de modo diferente da maioria das pessoas. Ela at o chama de Papai, porque se sente muito ntima
dele, se  que isso faz sentido para vocs.
- Claro que faz - exclamou Sarah, enquanto Jesse confirmava com a cabea. - Toda a sua famlia chama Deus de Papai?
- No - respondeu Mack rindo. - As crianas s vezes chamam, mas eu no me sinto confortvel com isso. Parece um pouco familiar demais para mim. De qualquer modo,
Nan tem um pai maravilhoso e, por isso, acho que  mais fcil para ela.
A coisa havia escapado e Mack estremeceu por dentro esperando que ningum tivesse percebido; mas Jesse o olhava com interesse.
- Seu pai no era maravilhoso? - perguntou com gentileza.
- . - Mack fez uma pausa. - Acho que se pode dizer que ele no era maravilhoso. Morreu quando eu era criana, de causas naturais. - Riu, mas o som foi oco. Olhou
para os dois. - Bebeu at morrer.
- Lamentamos muito - disse Sarah afetuosamente.
- Bom - ele observou, forando outro riso -, s vezes a vida  dura, mas eu tenho muita coisa para agradecer.
Seguiu-se um silncio incmodo e Mack se perguntou por que estava falando sobre essas coisas com aqueles dois. Segundos depois foi resgatado por um jorro de crianas
que se derramaram do trailer para o meio deles. Para alegria de Kate, ela e Emmy haviam surpreendido Josh e Amber de mos dadas no escuro e queriam que todos soubessem.
Josh estava to fascinado que nem chegou a protestar.
Quando os Madison se despediram de Mack e de seus filhos, Sarah bateu carinhosamente no ombro do novo amigo. Depois foram andando peIa escurido at o acampamento
dos Ducette. Mack ficou olhando-os at no conseguir mais escutar seus sussurros e a luz oscilante da lanterna deles desaparecer. Sorriu e virou-se para arrebanhar
sua turma na direo dos sacos de dormir.
As oraes foram feitas, seguidas por beijos de boa noite e risinho de Kate conversando baixo com o irmo mais velho.
E, finalmente, silncio.
Mack arrumou o que pde usando a luz das lanternas e decidiu deixar o resto para o dia seguinte. De qualquer modo, s planejavam partir no incio da tarde. Encheu
seu ltimo copo de caf e sentou-se bebendo-o diante da fogueira que havia se consumido at s restar uma massa faiscante de carves incandescentes. Estava sozinho,
mas no solitrio. Esse no era o verso de uma msica conhecida? No tinha certeza, mas, se conseguisse lembrar, procuraria o CD quando chegasse a casa.
Hipnotizado pelo fogo e envolvido por seu calor, rezou, principalmente oraes de agradecimento. Tinha conscincia dos privilgios que recebera. Bnos provavelmente
era a palavra certa. Estava contente descansado e em paz. Mack no sabia, mas em menos de 24 horas suas oraes mudariam. Drasticamente.
A manh seguinte, apesar de ensolarada e quente, no comeou to bem. Mack acordou cedo para surpreender as crianas com um caf manh especial, mas queimou dois
dedos quando tentava soltar as panquecas que haviam grudado na frigideira. Reagindo  dor lancinante, derrubou o fogo, a frigideira e a tigela de massa no cho
arenoso. As crianas, acordadas pelo barulho e pelos palavres ditos em voz baixa, vieram ver o que estava acontecendo. Comearam a rir quando descobriram o que
era, mas bastou um "Ei, isso no  engraado!" de Mack para voltarem para dentro da barraca, rindo escondidas enquanto olhavam pelas janelas de tela.
Assim, em vez do planejado, o caf da manh se resumiu a cereal frio com creme de leite diludo, j que o resto do leite fora usado na massa de panqueca. Mack passou
a hora seguinte tentando arrumar o acampamento com dois dedos enfiados num copo de gua gelada. A notcia devia ter se espalhado, porque Sarah Madison apareceu com
material de primeiros socorros para queimaduras. Minutos depois de ter seus dedos cobertos por um lquido esbranquiado, Mack sentiu a ardncia diminuir.
Mais ou menos nessa hora, tendo terminado suas tarefas, Josh e Kate vieram perguntar se poderiam dar um ltimo passeio na canoa dos Ducette, prometendo usar coletes
salva-vidas. Depois do inevitvel "no" inicial e da insistncia dos filhos, Mack finalmente cedeu. No estava muito preocupado. O acampamento ficava pertinho do
lago e eles prometeram no se afastar da margem. Mack poderia vigi-los enquanto continuava a guardar as coisas.
Missy estava ocupada colorindo o livro da cachoeira Multnomah.
Ela  linda demais, pensou Mack, olhando embevecido a filha enquanto limpava a sujeira. A menina vestia a nica roupa limpa que lhe restara, um vestidinho vermelho
de vero, com flores-do-campo bordadas, comprado em Joseph quando foram  cidade no primeiro dia.
Cerca de 15 minutos depois, Mack levantou os olhos ao ouvir uma voz familiar chamando do lago:
- Papai!
Era Kate. Ela e o irmo acenaram do bote. Ambos usavam os coletes salva-vidas e Mack acenou de volta.
 estranho como um ato ou acontecimento aparentemente insignificante pode mudar vidas inteiras. Levantando o remo para acenar, Kate perdeu o equilbrio e emborcou
a canoa. Surgiu uma expresso congelada de terror em seu rosto enquanto, quase em silncio e em cmara lenta, o barco virava. Josh se inclinou freneticamente para
tentar equilibr-lo, mas era tarde demais e ele desapareceu na gua. Mack j corria para a beira do lago, no pretendendo entrar, mas para estar perto quando eles
sassem. Kate emergiu primeiro, tossindo e gritando, porm no havia sinal de Josh. E de repente Mack viu uma erupo de gua e perna e soube naquele momento que
algo estava terrivelmente errado.
Para seu espanto, todos os instintos que havia desenvolvido como salva-vidas na adolescncia voltaram instantaneamente. Em questo de segundos ele caiu na gua,
tirando os sapatos e a camisa. Nem se deu conta do choque gelado ao disparar na direo da canoa virada, ignorando os soluos aterrorizados da filha. Ela estava
em segurana. Seu foco principal era Josh.
Respirando fundo, mergulhou. Apesar de toda a agitao, a gua continuava razoavelmente lmpida. Encontrou Josh rapidamente e logo descobriu a razo de seu problema.
Uma das tiras do colete salva-vidas prendera na amarra da canoa. Por mais que tentasse, Mack no conseguiu solt-la e por isso fez sinal para Josh entrar mais fundo
sob a canoa, onde havia um bolso de ar. Mas o pobre garoto estava em pnico, tentando livrar-se da tira que o prendia embaixo da gua sob a borda da canoa.
Mack veio  superfcie, gritou para Kate nadar at a margem, sugou todo o ar que pde e mergulhou pela segunda vez. No terceiro mergulho, sabendo que o tempo estava
acabando, percebeu que tinha duas alternativas: tentar livrar Josh do colete ou virar a canoa. Escolheu a segunda opo. Se foram Deus e os anjos, ou Deus e a adrenalina,
ele jamais teve certeza, mas na segunda tentativa conseguiu virar a canoa libertando Josh da amarra.
O colete manteve o rosto do garoto acima da gua. Mack emergiu atrs de Josh, agora frouxo e inconsciente, com sangue escorrendo de um talho na cabea, que a canoa
acertara quando Mack a virar de volta. Comeou imediatamente a fazer respirao boca a boca no filho, do melhor modo que podia, enquanto outras pessoas o ajudavam
a pux-lo em direo  parte rasa.
Sem perceber os gritos ao redor, Mack se concentrou na tarefa, com o pnico borbulhando no peito. Quando os ps de Josh tocaram terreno firme, o garoto comeou a
tossir e a vomitar gua e o caf da manh. Aplausos empolgados irromperam ao redor, porm Mack no deu  mnima. Dominado pelo alvio e pela descarga de adrenalina
resultante do esforo, comeou a chorar e, de repente, Kate estava soluando com os braos em volta de seu pescoo, enquanto todos riam, choravam e se abraavam.
Dentre os que haviam sido atrados pelo barulho estavam Jesse Madison e Emil Ducette. Em meio  confuso de gritos de alegria e de alvio, Mack escutou a voz de
Emil sussurrando:
-        Desculpe... Desculpe... Desculpe.
A canoa era dele, poderiam ter sido seus filhos. Mack o abraou e disse quase gritando em seu ouvido:
-        Pare com isso! No foi culpa sua e esto todos bem.
Emil comeou a soluar, com as emoes subitamente liberadas de uma represa de culpa e medo contidos.
Uma tragdia fora evitada. Pelo menos era o que Mack pensava.


                               A GRANDE TRISTEZA
                      A tristeza  um muro entre dois jardins.
                                                                        - Khalil Gibran


Mack continuava parado junto  margem, ainda tentando recuper o flego. Demorou alguns minutos antes de pensar em Missy. Lembrando-se que ela ficara colorindo o
livro, subiu pela margem at onde podia ver seu acampamento, mas no havia sinal da menina. Apressou o passo, correndo at a barraca, chamando seu nome com o mximo
de calma que conseguiu. No houve resposta. Ela no estava ali. Mesmo com o corao disparado, ele racionalizou, pensando que na confuso algum havia cuidado dela,
provavelmente Sarah Madison ou Vicky Ducette. Procurando controlar a ansiedade e o pnico, foi ao encontro dos novos amigos e perguntou se podiam ajud-lo a procurar
Missy. Os dois dirigiram-se rapidamente para seus acampamentos. Jesse retorno primeiro, anunciando que Sarah no tinha visto Missy naquela manh. Acompanhou Mack
ao acampamento dos Ducette, mas, antes de chegarem l, Emil veio correndo em sua direo com uma expresso claramente apreensiva no rosto.
- Ningum viu Missy hoje e tambm no encontramos Amber. Ser que esto juntas? - Havia uma sugesto de pnico na pergunta de Emil.
- Tenho certeza de que  isso - disse Mack, tentando se tranqilizar e acalmar Emil ao mesmo tempo. - Aonde voc acha que elas podem ter ido?
- Por que no verificamos os banheiros e chuveiros? - sugeriu Jesse.
- Boa idia - falou Mack. - Vou olhar no que fica mais prximo da nossarea, o que meus filhos usam. Por que voc e Emil no verificam o que fica entre as duas
reas?
Eles concordaram e Mack foi numa corrida lenta para os chuveiros mais prximos, notando pela primeira vez que estava descalo e sem camisa.
"Que figura devo estar", pensou, e provavelmente teria achado graa se sua mente no estivesse to concentrada em Missy.
Quando chegou aos banheiros, perguntou a uma adolescente que saa da parte feminina se tinha visto uma garotinha de vestido vermelho l dentro, ou talvez duas garotas.
Ela disse que no havia notado, mas que olharia de novo. Em menos de um minuto estava de volta balanando a cabea.
-        Obrigado mesmo assim - disse Mack, e foi para a parte de trs da construo, onde ficavam os chuveiros. Enquanto virava a esquina, comeou a chamar Missy
em voz alta. Mack podia ouvir a gua correndo, mas ningum respondeu. Imaginando se Missy estaria em um dos chuveiros, comeou a bater na porta de cada um at obter
resposta. Seis cubculos de chuveiro e nada de Missy. Verificou os do banheiro masculino, mas ela no se encontrava em lugar nenhum. Correu de volta na direo do
acampamento de Emil, incapaz de rezar qualquer coisa, a
no ser repetir "Ah, meu Deus, me ajude a ach-la... Ah, meu Deus, por favor, me ajude a ach-la".
Quando o viu, Vicky correu ao seu encontro. Estivera tentando conter o choro, mas no conseguiu quando se abraaram. De repente, Mack desejou desesperadamente que
Nan estivesse ali. Ela saberia o que fazer, pelo menos qual seria a coisa certa. Ele se sentia totalmente perdido.
-        Sarah levou Josh e Kate para o seu acampamento, portanto no se preocupe com eles - disse Vicky em meio aos soluos.
"Ah, meu Deus", pensou Mack, percebendo que tinha esquecido completamente de seus outros dois filhos. "Que tipo de pai eu sou?"
Mesmo sentindo-se aliviado porque Sarah estava cuidando deles, desejou ainda mais intensamente que Nan estivesse ali.
Nesse momento, Emil e Jesse apareceram, Emil aparentando alvio e Jess parecendo tenso como uma corda esticada.
- Ns a encontramos - exclamou Emil, o rosto se iluminando e depois ficando sombrio ao perceber o que estava dizendo. - Quer dizer, encontramos Amber. Ela voltou
do banho que foi tomar em outro lugar, onde havia gua quente. Disse que tinha falado com a me, mas Vicky provavelmente no escutou... - Sua voz parou no ar.
- Mas no encontramos Missy - acrescentou Jesse rapidamente, respondendo a pergunta mais importante. - Amber tambm no a viu hoje.
Emil, no auge da eficincia, assumiu o controle. Mack, temos de contatar as autoridades do camping imediatamente e botar todo mundo procurando Missy. Talvez, no
meio da agitao, ela tenha se assustado e se confundido e simplesmente saiu andando e se perdeu, ou talvez estivesse tentando nos encontrar e caminhou na direo
errada. Voc tem uma foto dela? Talvez haja uma copiadora no escritrio e poderamos fazer algumas cpias para economizar tempo.
- , tenho uma foto na carteira. - Mack enfiou a mo no bolso de trs e por um segundo entrou em pnico ao no encontrar nada ali. Achou que poderia estar no fundo
do lago Wallowa, mas ento lembrou que a deixara no carro depois da viagem de telefrico no dia anterior.
Os trs voltaram ao acampamento de Mack. Jesse correu na frente para avisar Sarah que Amber estava em segurana, mas que Missy no fora encontrada. Chegando ao acampamento,
Mack abraou Josh e Kate, tentando parecer calmo. Tirando a roupa molhada, vestiu uma camiseta e jeans, meias secas e um par de tnis. Sarah prometeu que ela e Vicky
ficariam com seus filhos mais velhos e sussurrou que estava rezando por ele e Missy. Mack agradeceu dando-lhe um abrao rpido e, depois de beijar os filhos, juntou-se
aos outros dois homens que corriam para o escritrio do camping.
A notcia do resgate na gua havia chegado  pequena sede e todos se mostravam animados. O clima mudou rapidamente quando souberam do desaparecimento de Missy. No
escritrio havia uma copiadora e Mack, depois de tirar vrias cpias do retrato da filha, as distribuiu.
O jovem subgerente, Jeremy Bellamy, ofereceu-se para ajudar na busca. Ento eles dividiram o camping em quatro reas e cada um saiu levando um mapa, a foto de Missy
e um walkie-talkie.
Era um trabalho lento e metdico, lento demais para Mack, mas ele sabia que esse era o modo mais lgico de encontr-la se... Se ainda estivesse no camping. Enquanto
andava entre barracas e trailers, rezava e fazia promessas. Tinha conscincia de que prometer coisas a Deus era idiota e irracional, mas no conseguia evitar. Estava
desesperado para ter Missy de volta e sem dvida Deus sabia onde ela se encontrava.
Muitos campistas estavam acabando de arrumar suas bagagens para irem embora. Ningum tinha visto Missy ou uma menina parecida com ela. A pequenos intervalos, cada
grupo de busca entrava em contato com o escritrio para saber se havia alguma novidade. Mas no houve qualquer notcia at quase duas da tarde.
Mack estava terminando de vasculhar sua rea quando veio o chamado pelo walkie-talkie. Jeremy, que cobria a rea mais perto da entrada, achou que encontrara algum
indcio. Foram todos ao seu encontro. Mack chegou por ltimo e viu Emil e Jeremy ouvindo atentamente um rapaz desconhecido.
Emil disse a Mack rapidamente o que ouvira e o apresentou ao rapaz. Seu nome era Virgil Thomas e ele estava acampado na rea com alguns colegas desde o incio do
vero. Os outros dormiam pesadamente quando Virgil viu uma velha picape verde-oliva saindo do camping e descendo na direo de Joseph.
- Mais ou menos a que horas? - perguntou Mack.
- Foi antes do meio-dia, mas no tenho certeza, porque estava de ressaca.
Mostrando a foto de Missy para o rapaz, Mack perguntou de modo spero:
- Voc acha que viu essa menina?
- Quando o outro cara me mostrou essa foto antes, ela no me pareceu familiar - respondeu Virgil, olhando de novo. - Mas ento, quando ele disse que ela estava usando
um vestido vermelho-vivo, lembrei que a menininha na picape verde estava com um vestido dessa cor. Vi que ela estava rindo ou berrando, no dava para saber. E ento
tive a impresso de que o motorista lhe deu um tapa ou a empurrou para baixo, mas acho que ele tambm podia estar s brincando.
Mack ficou paralisado. Apesar de assustadora, infelizmente essa informao era a nica que at ento fazia sentido. Explicava por que no haviam encontrado nenhum
trao de Missy. Mas tudo dentro dele no queria que fosse verdade. Virou-se e comeou a correr para o escritrio, mas foi contido pela voz de Emil.
- Mack, pra! Ns j falamos com o escritrio pelo rdio e avisamos o xerife de Joseph. Eles vo mandar algum para c agora mesmo e esto emitindo um boletim de
busca para a picape.
Nesse momento duas radiopatrulhas entraram no camping. A primeira foi direto para o escritrio e a outra para a rea onde os homens se encontravam. Mack correu ao
encontro do policial, um rapaz de cerca de 30 anos, que se apresentou como Dalton e comeou a ouvir as pessoas.
Nas horas seguintes houve um movimento crescente de reao ao desaparecimento de Missy. Expediram uma ordem de busca, bloquearam a auto-estrada e os guardas florestais
da rea foram avisados para ficarem atentos.
Isolaram o acampamento dos Phillips com fitas, caracterizando-o como uma cena de crime, e todos nas imediaes foram interrogados. Virgil forneceu o mximo de detalhes
que pde sobre a picape e os seus ocupantes e a descrio foi enviada a todos os rgos policiais mais importantes.
Os oficiais de campo do FBI em Portland, Seattle e Denver foram alertados. Nan estava a caminho, trazida de carro por sua melhor amiga Maryanne. Trouxeram ces rastreadores,
mas as pistas de Missy terminavam no estacionamento prximo, aumentando a probabilidade de que a histria de Virgil fosse verdadeira.
Depois que os peritos examinaram minuciosamente o acampamento, o policial Dalton pediu que Mack entrasse de novo na rea e observasse tudo com cuidado, em busca
de algo diferente. Mack sentia-se to desesperado para ajudar de alguma forma que, mesmo exausto, concentrou a mente na tentativa de lembrar-se de qualquer detalhe.
Com cautela, refez seus passos. O que no daria em troca para ter a chance de recomear o dia desde o incio! Mesmo queimando os dedos e derrubando de novo a massa
de panqueca!
Voltou-se novamente para a tarefa designada, mas nada parecia diferente do que recordava. Nada havia mudado. Chegou  mesa onde Missy estivera ocupada colorindo.
O livro estava aberto na mesma pgina, com uma imagem inacabada da princesa ndia da tribo Multnomah. Os lpis de cera tambm se encontravam l, se bem que o vermelho,
a cor predileta de Missy, estivesse faltando. Mack comeou a procurar no cho, onde ele poderia ter cado.
- Se est procurando o lpis de cera vermelho, ns o encontramos ali, perto da rvore - disse Dalton, apontando para o estacionamento. - Ela provavelmente o largou
enquanto estava lutando com... - Sua voz se perdeu no ar.
- Como voc sabe que ela estava lutando?
O policial hesitou, mas depois falou, relutante:
-        Encontramos um dos sapatos dela nos arbustos, para onde provavelmente foi chutado. Voc no estava aqui na hora, por isso pedimos ao seu filho para identific-lo.
A imagem de sua filha lutando com algum monstro pervertido foi como um soco no estmago. Quase sucumbindo ao negrume sbito que ameaava esmag-lo, Mack se apoiou
na mesa para no desmaiar ou vomitar. Foi ento que notou um broche de joaninha cravado no livro de colorir. Retornou  conscincia como se algum tivesse aberto
um vidro de sais sob seu nariz.
- De quem  isso? - perguntou a Dalton, apontando para o broche.
- De quem  o qu?
- Esse broche de joaninha! Quem ps isso a?
- Ns achamos que fosse de Missy. O broche no estava a de manh?
- Tenho certeza - afirmou Mack, enftico. - Ela no tem nada assim. Tenho absoluta certeza de que no estava a de manh!
O policial se comunicou pelo rdio e em minutos os peritos retornaram e levaram o broche.
Dalton puxou Mack para um canto e explicou:
-        Se o que o senhor diz  correto, temos de presumir que o agressor de Missy deixou isso a de propsito. - Fez uma pausa e acrescentou:
- Sr. Phillips, isso pode ser uma notcia boa ou m.
-        No entendo.
O policial hesitou, tentando decidir se deveria contar a Mack o que estava pensando. Procurou as palavras certas.
- A boa notcia  que podemos conseguir alguma pista a partir do broche.  a nica prova que temos at agora de que havia algum aqui.
- E a m notcia? - Mack prendeu o flego.
- Bom, a m notcia, e no estou dizendo que este seja o caso,  que quem deixa algo assim geralmente tem um objetivo, e isso pode significar que j fez a mesma
coisa antes.
- O qu? - reagiu Mack bruscamente. - Isso significa que esse cara  uma espcie de manaco? Esse  algum tipo de sinal que ele deixa par se identificar, como se
estivesse marcando o territrio ou algo assim? A raiva de Mack foi crescendo, mas, antes que explodisse, o rdio de Dalton tocou, conectando-o ao escritrio de campo
do FBI em Portland. Mack ficou atento e ouviu a voz de uma mulher que se identificava como agente especial. Ela pediu que Dalton descrevesse o broche em detalhes.
Mack acompanhou o policial at o lugar onde a equipe de percia havia estabelecido sua base de operaes. O broche estava dentro de um saco transparente, e de p,
atrs do grupo, ele ficou entreouvindo Dalton descrev-lo.
-         um alfinete com uma joaninha que foi cravado atravessando algumas pginas de um livro de colorir.
- Por favor, descreva as cores e o nmero de pontos na joaninha - orientou a voz pelo rdio.
- Vejamos - disse Dalton, com os olhos quase grudados no saco. - A joaninha tem uma cabea preta. E o corpo  vermelho, com bordas e divises pretas. H dois pontos
pretos no lado esquerdo do corpo. Faz sentido?
-        Perfeitamente. Por favor, continue - disse a voz com pacincia.
- E do lado direito da joaninha h trs pontos, de modo que so cinco ao todo.
Houve uma pausa.
- Tem certeza de que so cinco pontos?
- Sim, senhora, so cinco pontos.
- Certo. Agora, policial Dalton, poderia virar o broche e dizer o que h na parte de baixo da joaninha?
Dalton virou o saco plstico e olhou com cuidado.
-        H algo gravado embaixo, agente. Deixe-me ver. Parece uma espcie de nmero de modelo. Humm... C... K... 1-4-6, acho que  isso.  difcil ver atravs do
saquinho.
Houve silncio do outro lado. Mack sussurrou para Dalton:
- Pergunte a ela o que isso significa. - O policial hesitou e depois obedeceu.
- Agente? Voc est a?
- Sim, estou. - De repente a voz pareceu cansada e oca. - Ei, Dalton, h algum lugar isolado onde voc e eu possamos conversar?
Mack assentiu com nfase e Dalton captou a mensagem.
- Espere um segundo. - Pousou o saco com o broche e saiu da rea, permitindo que Mack o seguisse.
- Pronto, agora estou sozinho. Pode me dizer o que .
- Estamos tentando pegar esse cara h quase quatro anos, perseguindo-o em mais de nove estados. Recebeu o apelido de Matador de Meninas, mas nunca repassamos o detalhe
da joaninha para ningum, portanto mantenha isso em segredo. Acreditamos que ele seja responsvel pelo seqestro e morte de pelo menos quatro crianas at agora,
todas meninas, todas com menos de 10 anos. A cada vez ele acrescenta um ponto  joaninha, de modo que esta seria a de nmero cinco. Ele sempre deixa os broches em
algum lugar da rea do seqestro, todos tm o mesmo nmero de modelo, mas no conseguimos descobrir de onde eles vieram originalmente nem encontrar o corpo de nenhuma
das quatro meninas, mas temos bons motivos para acreditar que nenhuma delas sobreviveu. Todos os crimes aconteceram em camping ou prximo de camping, perto de um
parque estadual ou uma reserva. O criminoso parece se mover com habilidade em florestas e montanhas. No nos deixou, em todos os casos, absolutamente nada alm do
broche.
- E o carro? Temos uma descrio bastante boa da picape verde em que ele fugiu.
- Ah, vocs provavelmente vo encontr-la. Se for o nosso cara deve t-la roubado h um ou dois dias, repintado, enchido de equipamento para caminhadas, e ela vai
estar totalmente limpa.
Enquanto ouvia a conversa de Dalton com a agente especial, Mack sentiu o resto de esperana se esvair. Sentou-se frouxo no cho e enterrou o rosto nas mos. Pela
primeira vez desde o desaparecimento de Missy permitiu-se considerar o alcance das possibilidades mais horrendas e, assim que isso comeou, no parou mais: imagens
de coisas boas e coisas terrveis misturadas num desfile apavorante. Algumas eram instantneos abominveis de tortura e dor, de monstros e demnios da escurido
mais profunda, com dedos de arame farpado e toques de navalha, de Missy gritando pelo pai e ningum respondendo. Misturados com esses horrores havia lampejos de
outras lembranas: a menina aprendendo a andar, com o rosto lambuzado de bolo de chocolate, fazendo caretinhas engraadas. Sobrepunha-se a todas a imagem to recente
de Missy caindo no sono, aninhada no colo do pai. Imagens implacveis. O que ele diria a Nan? Como isso podia ter acontecido? Deus, como isso podia ter acontecido?
Algumas horas depois, Mack e seus dois filhos foram de carro para o hotel, em Joseph. Os proprietrios haviam lhe oferecido um quarto e, enquanto ele arrumava sua
bagagem, a exausto e o desespero comearam a domin-lo. O policial Dalton levara seus filhos a uma lanchonete. Agora, sentado na beira da cama, Mack dava vazo
a todo o seu sofrimento. Soluos e gemidos de rasgar a alma saam do mago de seu ser, e foi assim que Nan o encontrou. Dois seres feridos que se abraaram e choraram
desconsoladamente.
Naquela noite, Mack dormiu aos sobressaltos, pois as imagens continuavam a golpe-lo como ondas implacveis contra um litoral rochoso. Pouco antes do nascer do sol,
por fim desistiu. Vivera em s dia anos de emoes e agora sentia-se entorpecido,  deriva num mundo subitamente sem significado.
Depois de protestos considerveis de Nan, concordaram que seria melhor ela ir para casa com Josh e Kate. Mack ficaria para ajudar como pudesse. Simplesmente no
conseguiria ir embora, pensando que Missy talvez estivesse por perto, precisando dele. A notcia se espalhara rapidamente e amigos comearam a chegar para ajud-lo.
Criou-se uma forte rede de solidariedade, todos os conhecidos rezando para que Missy fosse encontrada. Jesse e Sarah, Emil e Vicky permaneceram o tempo todo, desdobrando-se
em cuidados.
Reprteres com seus fotgrafos comearam a aparecer durante a manh. Mack no queria enfrent-los, mas acabou respondendo s perguntas na esperana de que a divulgao
pudesse ajudar na busca.
Quando ficou evidente que a necessidade de ajuda estava diminuindo, os Madison desmontaram seu acampamento e vieram despedir-se. Choraram muito, abraaram-se longamente
e colocaram-se  disposio para o que fosse necessrio. Vicky Ducette tambm partiu, mas Emil permaneceu para dar apoio a Mack. Em meio a toda a tristeza, Kate
manteve-se firme, enviando e recebendo e-mails para que se mantivessem em comunicao permanente.
Ao meio-dia todas as famlias estavam na estrada. Maryanne levou Nan e as crianas para casa, onde os parentes estariam esperando. Mack e Emil foram com o policial
Dalton, que passaram a chamar de Tommy, para Joseph, onde se dirigiram  delegacia.
Agora vinha a parte mais difcil: a espera. Mack sentia que estava andando em cmara lenta dentro do olho de um furaco o grupo do FBI chegou ao meio da tarde e
logo ficou claro que a pessoa encarregada era a agente especial Wikowsky, uma mulher pequena e magra cheia de energia, de quem Mack gostou no mesmo instante. Ela
permitiu que ele participasse de todas as providncias e informes.
Depois de estabelecer o centro de comando no hotel, o FBI pediu a Mack uma entrevista formal. A agente Wikowsky levantou-se de trs da mesa onde estava trabalhando
e estendeu a mo. Quando Mack ia apert-la, a agente envolveu as mos dele com as suas e sorriu afetuosamente.

- Senhor Phillips, peo desculpas por no lhe ter dado at agora a ateno que merece. Estamos vivendo uma turbulncia, estabelecendo comunicaes com todas as agncias
policiais envolvidas na tentativa de resgatar Missy. Lamento muito que tenhamos nos conhecido nessas circunstncias.
Mack suspirou fundo.
- Por favor, me chame de Mack.
- Bem, ento me chame de Sam, que  a forma abreviada de Samantha.
Mack relaxou um pouco na cadeira, vendo-a examinar rapidamente algumas pastas cheias de papis.
- Mack, est disposto a responder a algumas perguntas? - ela perguntou sem levantar a cabea.
- Farei o mximo possvel - ele afirmou, aliviado pela oportunidade de fazer alguma coisa.
- Bom! No vou obrig-lo a repassar todos os detalhes. Estou com os relatrios sobre tudo o que voc j contou, mas tenho umas coisas importantes para examinarmos
juntos. - Ela o olhou nos olhos.
- Qualquer coisa que eu possa fazer para ajudar - concordou Mack. - No momento estou me sentindo bastante impotente.
- Mack, entendo como voc se sente, mas sua presena  importante. E, acredite, todos aqui esto dispostos a fazer o mximo possvel para resgatar Missy.
- Obrigado - foi tudo que Mack conseguiu dizer, olhando para o cho. As emoes pareciam  flor da pele e qualquer gesto de gentileza abria as comportas para as
lgrimas sarem.
- Mack - ela continuou -, voc notou alguma coisa estranha ao redor de sua famlia nestes ltimos dias?
 Mack ficou surpreso e se recostou na cadeira.
- Quer dizer que ele estava nos rondando?
- No, ele parece escolher as vtimas ao acaso, mas todas eram mais ou menos da idade da sua filha, com cor de cabelo semelhante. Achamos que ele as descobre um
ou dois dias antes e espera, vigiando de perto at encontrar o momento oportuno. Voc viu algum estranho prximo do lago? Talvez junto aos banheiros? - Mack se
encolheu ao pensar que seus filhos estariam sendo vigiados. Esquadrinhou a mente, mas no descobriu nada.
- Desculpe, no consigo lembrar...
- Voc parou em algum lugar enquanto ia para o camping ou notou algum estranho quando estava fazendo caminhadas?
- Ns paramos na cachoeira Multnomah, vindo para c, e estivemos em toda a regio nos ltimos trs dias, mas no me lembro de ter visto ningum que parecesse estranho.
Quem pensaria...
- Exatamente, Mack, tenha pacincia. Algo pode voltar  sua mente mais tarde. Mesmo que parea pequeno ou irrelevante, por favor, nos conte. - Ela olhou outro papel
na mesa. - Que tal uma picape verde-oliva? Voc notou algo assim enquanto estava por aqui?
Mack revirou a memria.
-        Realmente no me lembro de ter visto nada do tipo.
A agente especial Wikowsky continuou a interrogar Mack durante os 15 minutos seguintes, mas no conseguiu despertar a memria dele o suficiente para descobrir algo
til. Por fim, fechou o caderno e se levantou estendendo a mo.
-        Mack, mais uma vez, lamento o que aconteceu com Missy. Se
descobrirmos alguma coisa, eu o informarei imediatamente.
s cinco da tarde finalmente chegou o primeiro informe promissor e a agente Wikowsky colocou Mack imediatamente a par. Dois casais haviam passado por uma picape
verde-oliva que correspondia  descrio do veculo que estavam procurando. Eles estavam em um trecho estreito da estrada e tiveram que dar marcha  r at um lugar
mais largo para permitir a passagem da picape. Notaram que na carroceria havia vrias latas de gasolina, alm de uma boa quantidade de material de acampamento. Estranharam
que o motorista tivesse se curvado na direo do carona, como se procurasse alguma coisa no cho, e estivesse usando um casaco pesado num dia to quente. Acharam
graa daquilo e seguiram em frente.
Quando essa notcia chegou, a tenso aumentou na delegacia. Tudo que haviam descoberto at agora se encaixava no modo de agir do Matador de Meninas, e Mack foi informado.
Com a noite se aproximando rapidamente, iniciou-se uma discusso sobre a melhor alternativa: fazer uma perseguio imediata ou esperar at a manh seguinte logo
ao nascer do dia. Todos pareciam profundamente afetados com a situao.
De p nos fundos da sala, Mack ouvia com impacincia a discusso, aflito para que se tomasse logo uma providncia. Seu desejo era chamar Tommy e ir pessoalmente
atrs do assassino. Era como se cada minuto contasse.
Depois de um tempo que pareceu excessivamente longo para Mack, todos concordaram em dar incio  perseguio. Mack ligou rapidamente para falar com Nan e partiu
com Tommy.
Agora s lhe restava rezar: Santo Deus, por favor, por favor, por favor, cuide da minha Missy, proteja-a, no deixe que nada de mal lhe acontea.
Lgrimas desciam por seu rosto e molhavam a camisa.
Por volta das 7 horas, o comboio de radiopatrulhas, utilitrios do FBI, picapes com ces e alguns veculos da Guarda Florestal seguiu pela auto-estrada at entrar
na Reserva.
Mack ficou satisfeito por viajar com algum que conhecia a rea. As estradas, com freqentes curvas estreitas beirando precipcios, ficavam ainda mais traioeiras
na escurido da noite. A velocidade foi diminuindo at parecer que estavam se arrastando. Por fim, passaram pelo ponto onde a picape verde tinha sido vista pela
ltima vez e um quilmetro e meio depois chegaram a uma bifurcao. Ali, como fora planejado, a caravana se dividiu em duas, com um pequeno grupo indo para o norte
com a agente especial Wikowsky e os demais, inclusive Mack, Emil e Tommy, indo na direo sudeste. Alguns quilmetros difceis mais tarde esse grupo se dividiu outra
vez, e nesse ponto os esforos de busca ficaram ainda mais lentos. Agora os rastreadores estavam a p, apoiados por luzes fortes, enquanto procuravam sinais de atividade
recente nas estradas.
Quase duas horas mais tarde, Tommy recebeu um chamado de Wikowsky. A cerca de 15 quilmetros da bifurcao onde tinham se separado, uma estrada antiga e sem nome
saa da principal. Era praticamente impossvel de se ver no escuro e cheia de buracos. Eles a teriam ignorado se a luz de um dos rastreadores no tivesse se refletido
numa calota de veculo. Debaixo do p da estrada havia manchas de tinta verde. A calota provavelmente fora perdida quando a picape passou por um dos muitos buracos
enormes do caminho.
O grupo de Tommy voltou imediatamente. O corao de Mack batia aceleradamente com um comeo de esperana. Talvez, por algum milagre, Missy ainda estivesse viva.
Vinte minutos depois, outra ligao de Wikowsky informava que haviam encontrado a picape debaixo de uma engenhosa armao de galhos e arbustos.
A equipe de Mack levou quase trs horas para alcanar a primeira equipe e, nesse ponto, tudo estava acabado. Os ces haviam descoberto uma trilha de caa que descia
por cerca de um quilmetro e meio at um pequeno vale oculto. Ali encontraram uma cabana em runas  beira de um lago lmpido alimentado por um riacho cascateante.
Cerca de um sculo antes aquilo fora provavelmente  casa de um colono, mas desde ento provavelmente servia s como abrigo para algum caador ocasional.
Quando Mack e seus amigos chegaram, o cu estava comeando a clarear. Um acampamento-base fora montado a certa distncia da pequena cabana para preservar a cena
do crime. Todos se reuniram e comearam a planejar a estratgia do dia.
A agente especial Samantha Wikowsky estava sentada diante de uma mesa dobrvel examinando mapas quando Mack apareceu. Seus olhos expressavam tristeza e ternura,
mas suas palavras foram totalmente profissionais.
- Mack, ns encontramos uma coisa, mas no  boa.
Ele procurou as palavras certas.
- Encontraram Missy? - Ele temia terrivelmente a resposta, mas estava desesperado para ouvi-la.
- No, no encontramos. - Sam parou e comeou a se levantar. - Mas preciso que voc identifique uma coisa que encontramos na cabana. Preciso saber se era... - ela
se conteve, mas j falara no passado. - Quero dizer, se  dela.
Mack sentiu que sua represa interna estava prestes a arrebentar. - Vamos ver isso agora - murmurou baixinho. - Quero resolver logo.
Mack sentiu Emil e Tommy segurando seus braos enquanto seguiam a agente especial pelo curto caminho at a cabana. Trs homens adultos, de braos dados numa solidariedade
especial, andando juntos em direo ao seu pior pesadelo.
Um membro da equipe de percia abriu a porta da cabana para deix-los entrar. Refletores alimentados por um gerador iluminavam cada parte da sala. Havia prateleiras
nas paredes, uma mesa velha, algumas cadeiras e um sof. Mack viu imediatamente o que viera identificar. Virando-se, desmoronou nos braos dos dois amigos e comeou
a chorar incontrolavelmente. No cho, perto da lareira, estava o vestido vermelho de Missy, rasgado e encharcado de sangue.
Para Mack, os dias e semanas seguintes se tornaram um borro de entrevistas que entorpeciam as emoes. Por fim, um funeral dedicado a Missy, com um pequeno caixo
vazio e um desfile interminvel de rostos tristes, ningum sabendo o que dizer. Em algum momento, nas semanas que se seguiram, Mack iniciou o lento e doloroso reencontro
com a vida cotidiana.
Aparentemente o Matador de Meninas recebera o crdito pela quinta vtima, Melissa Anne Phillips. Assim como nos outros quatro casos, as autoridades no encontraram
o corpo da vtima, embora grupos de busca tivessem revirado a floresta durante dias. Como em todas as outras situaes, o matador no deixara nenhuma pista que pudesse
ser seguida, s o broche. Era como se estivessem lidando com um fantasma.
Em algum ponto do processo, Mack procurou emergir da dor e do sofrimento, pelo menos com sua famlia. Eles haviam perdido uma irm e uma filha e seria terrvel tambm
perderem um pai e um marido. Ainda que todos tivessem sido profundamente golpeados pela tragdia, Kate parecia a mais afetada, escondendo-se numa casca como uma
tartaruga para se proteger de algo potencialmente perigoso. Mack e Nan preocupavam-se cada vez mais com ela, mas no conseguiam encontrar as palavras adequadas para
penetrar na fortaleza que a garota estava construindo ao redor de si. As tentativas de conversa se transformavam em monlogos, como se algo tivesse morrido dentro
dela e agora a estivesse corroendo lentamente por dentro, derramando-se s vezes em palavras amargas ou num silncio deprimido.
Josh se comunicava freqentemente com Amber, o que o ajudava a extravasar a dor. Alm disso, estava bastante ocupado preparando-se para a formatura no ensino mdio.
A Grande Tristeza havia baixado como uma nuvem e, em graus diferentes, cobria todos os que tinham conhecido Missy. Mack e Nan enfrentavam juntos o tormento da perda,
sentindo-se mais prximos do que nunca. Nan repetia seguidamente que no culpava de modo algum Mack pelo que acontecera.
Mack, porm, levou muito mais tempo para se livrar de todos os "se" que o levavam ao desespero. Se ele tivesse decidido no levar as crianas naquela viagem; se
tivesse recusado quando elas pediram para usar a canoa; se tivesse ido embora  vspera; se, se, se. No ter podido enterrar o corpo de Missy ampliava seu fracasso
como pai. O fato de ela ainda estar em algum lugar, sozinha na floresta, assombrava-o todos os dias. Agora, trs anos e meio depois, Missy era considerada oficialmente
vtima de assassinato. A vida nunca mais seria a mesma. A ausncia de Missy criava um vazio absurdo.
A tragdia tambm havia aumentado a fenda no relacionamento de Mack com Deus, mas ele no se dava conta dessa separao crescente. Em vez disso, tentava abraar
uma f estica e desprovida de sentimentos que lhe trazia algum conforto e paz, porm no eliminava os pesadelos em que se via com os ps presos na lama e sem voz
para dar os gritos que salvariam sua preciosa Missy. Aos poucos os pesadelos foram se tornando menos freqentes e os momentos de alegria comearam a despontar, fazendo
Mack sentir-se culpado.
Assim, receber o bilhete assinado Papai, dizendo para encontr-lo na cabana, causou-lhe um profundo impacto. Ser que Deus escreve bilhetes? E por que na cabana
- o cone de sua dor mais profunda? Certamente Deus teria lugares melhores onde se encontrar com ele. Um pensamento sombrio chegou a atravessar sua mente: o assassino
o estaria provocando ou atraindo para longe com a inteno de deixar sua famlia desprotegida. Talvez fosse somente uma brincadeira cruel. Mas por que estava assinado
"Papai"?
Por mais irracional que parecesse, Mack no conseguia deixar de pensar que talvez o bilhete viesse mesmo de Deus. Quanto mais pensava, mais confuso e irritado ia
ficando. Quem havia mandado a porcaria do bilhete? Fosse quem fosse, Mack tinha a sensao de que estavam brincando com ele. E, de qualquer modo, de que adiantava?
Mas, apesar da raiva e da depresso, Mack sabia que precisava de respostas. Percebeu que estava travado e que as oraes e os hinos dos domingos no serviam mais,
se  que j haviam servido. A espiritualidade do claustro no parecia mudar nada na vida das pessoas que ele conhecia, a no ser, talvez, na de Nan. Mas ela era
especial. Mack estava farto de Deus e da religio, farto de todos os pequenos clubes sociais religiosos que no pareciam fazer nenhuma diferena expressiva nem provocar
qualquer mudana real. Mack certamente desejava mais. Porm no sabia que estava a ponto de conseguir muito mais do que havia pedido.


      ADIVINHE QUEM VEM PARA JANTAR
Rotineiramente desqualificamos testemunhos e exigimos comprovao. Isto, estamos to convencidos da justeza de nosso julgamento que invalidamos provas que no
se ajustem a ele.
Nada que merea ser chamado de verdade pode ser alcanado por esses meios.
                                                 - Marilynne Robinson, The Death of Adam
H ocasies em que optamos por acreditar em algo que normalmente seria considerado absolutamente irracional. Isso no significa que seja mesmo irracional, mas certamente
no  racional. Talvez exista a supra-racionalidade: a razo alm das definies normais dos fatos ou da lgica baseada em dados. Algo que s faz sentido se voc
puder ver uma imagem maior da realidade. Talvez seja a que a f se encaixe.
Mack no tinha certeza de um monte de coisas, mas em algum momento em seu corao e em sua mente, nos dias que se seguiram  nevasca, ele se convenceu de que havia
trs explicaes plausveis para o bilhete. Podia ser de Deus, por mais absurdo que isso parecesse, podia ser uma piada cruel ou algo mais sinistro vindo do assassino
de Missy. Independentemente de qualquer coisa, o bilhete dominava seus pensamentos dia e noite.
Secretamente comeou a fazer planos para viajar at a cabana no fim de semana seguinte. A princpio no falou com ningum, nem mesmo com Nan, achando que uma conversa
assim s traria mais dor. "Estou mantendo segredo por causa de Nan", dizia a si mesmo. Alm disso, falar do bilhete seria admitir que guardasse segredos. Algumas
vezes a honestidade pode ser incrivelmente complicada.
Decidido a empreender a viagem, Mack comeou a pensar em modos de afastar a famlia de casa durante o fim de semana sem levantar suspeitas. Felizmente foi a prpria
Nan quem ofereceu a soluo. Ela estivera pensando em visitar a famlia da irm nas ilhas Sam Juan, no litoral de Washington. Seu cunhado era psiclogo infantil
e Nan achava que poderia ser til conversar com ele sobre o comportamento cada vez mais fechado de Kate. Quando ela levantou a possibilidade da viagem, Mack reagiu
quase ansioso demais.
-        Claro que vocs vo - ele afirmou imediatamente. No era a
resposta que ela havia previsto e Nan lhe lanou um olhar interrogativo. - Quero dizer - consertou ele, sem jeito -,  uma idia fantstica. Vou sentir falta de
vocs, claro, mas acho que posso sobreviver sozinho uns dois dias e, de qualquer modo, tenho um monte de coisas para fazer. - Ela deu de ombros, talvez grata porque
o caminho para a viagem tivesse se aberto com tanta facilidade.
Bastou um rpido telefonema  irm de Nan e a viagem foi acertada. Logo a casa virou um turbilho de atividades. Josh e Kate ficaram deliciados com a perspectiva
de visitar os primos e compraram fcil a idia.
Disfaradamente, Mack telefonou para seu amigo Willie pedindo seu jipe emprestado. O pedido estranho, como era de se prever, provocou um tiroteio de perguntas que
Mack tentou responder do modo mais evasivo possvel. Terminou dizendo que explicaria tudo quando Willie aparecesse para trocar os veculos.
No fim da tarde de quinta-feira, depois de despedir-se de Nan, Kate e Josh, Mack comeou a preparar-se para a longa viagem ao Nordeste do Oregon - o local de seus
pesadelos. Sem dvida havia a possibilidade de ter se transformado num idiota completo ou de estar sendo vtima de uma brincadeira de mau gosto, mas nesse caso ficaria
livre para simplesmente ir embora. Uma batida na porta arrancou-o de sua concentrao e ele viu que era Willie.
-        Estou aqui na cozinha - gritou.
Um instante depois Willie apontou a cabea pela porta do corredor.
-        Bom, eu trouxe o jipe e o tanque est cheio, mas s vou entregar a chave quando voc contar exatamente o que est acontecendo.
Mack continuou enfiando coisas em dois sacos de viagem. Sabia que no adiantava mentir para o amigo.
- Vou voltar  cabana, Willie.
- Bom, eu j tinha imaginado. O que quero saber  por que voc pretende voltar l. No sei se o meu velho jipe vai dar conta do recado, mas, como garantia, coloquei
umas correntes atrs para o caso de precisarmos.
Sem olhar para ele, Mack foi at o escritrio, tirou a tampa de uma lata pequena e pegou o bilhete. Voltando  cozinha, entregou-o ao amigo. Willie desdobrou o papel
e leu em silncio.
-        Nossa, que tipo de maluco escreveria uma coisa assim? E quem  esse tal de Papai?
- Bom, voc sabe, Papai  o nome que Nan usa para Deus. Mack pegou o bilhete de volta e o enfiou no bolso da camisa.
- Espera, voc est achando mesmo que isso veio de Deus?
- Willie, no sei o que pensar disso. Quer dizer, a princpio achei que era apenas uma brincadeira de mau gosto e fiquei com raiva. Sei que parece loucura, mas de
algum modo me sinto estranhamente tentado a descobrir. Tenho de ir, Willie, ou isso vai me deixar maluco para sempre.
- J pensou na possibilidade de ser o assassino? E se ele estiver atraindo voc para l por algum motivo?
- Claro que pensei. Parte de mim no ficaria desapontada com isso. Tenho contas a acertar com ele - disse srio e fez uma pausa. - Mas tambm no faz muito sentido.
No acho que o assassino saiba que "Papai"  um termo usado em nossa famlia.
Willie ficou perplexo e Mack prosseguiu:
- E nenhum amigo nosso mandaria um bilhete desses. Estou pensando que s Deus faria isso... Talvez.
- Mas Deus no faz coisas assim. Pelo menos nunca ouvi falar que ele tivesse mandado um bilhete a algum. E por que ele desejaria que voc retornasse  cabana? No
consigo pensar num lugar pior...
Pairou um silncio incmodo entre os dois. Mack falou:
-        No sei, Willie. Acho que parte de mim gostaria de acreditar que Deus se importa o suficiente comigo para me mandar um bilhete. Continuo muito confuso,
mesmo depois de tanto tempo. Simplesmente no sei o que pensar, e a coisa no melhora. Sinto que estou perdendo Kate e isso me mata. Talvez o que aconteceu com Missy
seja uma espcie de castigo de Deus pelo que fiz com meu pai. Realmente no sei.
- Mack olhou o rosto de seu melhor amigo, mais do que um irmo.
- S sei que preciso voltar.
O silncio se prolongou entre os dois at que Willie falasse de novo.
-        Ento, quando partimos?
Mack ficou tocado com a disposio do amigo.
- Obrigado, meu chapa, mas realmente preciso fazer isso sozinho.
- Imaginei que voc diria isso - respondeu Willie, virando-se e saindo do cmodo. Retornou alguns instantes depois com uma pistola e uma caixa de balas. - Achei
que no conseguiria convenc-lo a deixar de ir e pensei que poderia precisar disso. Acho que voc sabe usar.
Mack olhou a arma. Sabia que Willie estava tentando ajud-lo.
- Willie, no posso. Faz 30 anos que toquei pela ltima vez numa arma e no pretendo fazer isso agora. Se aprendi uma coisa na vida, foi que usar a violncia para
resolver um problema sempre cria um problema ainda maior.
- Mas e se for o assassino de Missy? E se ele estiver esperando l em cima? O que voc vai fazer?
Mack deu de ombros.
- Honestamente no sei, Willie. Vou correr o risco, acho.
- Mas voc vai estar indefeso. No d para saber o que ele tem em mente. Leve, Mack. - Willie empurrou a pistola e as balas na direo dele. - Voc no precisa usar.
Mack olhou a arma e depois de pensar um pouco estendeu lentamente a mo para ela e as balas, colocando-as com cuidado no bolso.
- Certo, s para garantir. - Em seguida pegou parte do equipamento e, com os braos carregados, saiu na direo do jipe. Willie levou a grande sacola de lona que
restava.
- Nossa, Mack, se voc acha que Deus vai estar l em cima, para que tudo isso?
Mack lhe deu um sorriso carregado tristeza.
-         S pensei em cobrir as vrias opes. Voc sabe, estar preparado para o que acontecer...
Quando chegaram ao jipe, Willie entregou as chaves a Mack.
- E o que  que Nan acha disso? - perguntou.
- Nan e as crianas foram visitar a irm dela e... Eu no contei -confessou Mack.
Willie ficou obviamente surpreso.
-        O qu!? Voc nunca guarda segredos de sua mulher. No acredito que tenha mentido para ela!
Mack ignorou a exploso do amigo, voltou a casa e entrou no e escritrio. Ali encontrou as chaves de reserva de seu carro e da casa e, hesitando apenas um instante,
pegou a pequena lata. Willie foi atrs dele.
- Como voc acha que ele ? - perguntou rindo.
- Quem?
-        Deus, claro. Como voc acha que ele ?
Mack pensou um instante.
-        No sei. Talvez ele tenha uma luz muito forte ou aparea no meio de uma sara ardente. Sempre o visualizei assim como um av, com uma barba longa flutuando.
Deu de ombros, entregou as chaves de seu carro a Willie e os dois trocaram um abrao rpido.
- Bom, se ele aparecer, d lembranas minhas - disse Willie com um sorriso afetuoso. - Estou preocupado com voc, meu chapa. Gostaria de ir junto. Vou fazer uma
ou duas oraes por voc.
- Obrigado, Willie. Voc  um amigo e tanto. - Acenou enquanto Willie dava marcha a r pela entrada de veculos. Mack sabia que ele manteria a promessa. Provavelmente
ele iria precisar de todas as oraes que conseguisse.
Ficou olhando at Willie virar a esquina e sumir, depois tirou o bilhete do bolso da camisa, leu mais uma vez e colocou-o na lata, que depositou no banco do carona
em meio a outros equipamentos. Trancando as portas do jipe, voltou para casa e para uma noite sem sonhos.
Bem antes do amanhecer da sexta-feira, Mack j estava fora da cidade. Nan havia telefonado na noite anterior dizendo que chegaram  segurana e que voltaria a ligar
no domingo. At l provavelmente ele j teria voltado.
Refez o mesmo caminho que haviam tomado trs anos e meio antes, mas passou pela cachoeira Multnomah sem olhar. No longo trecho subindo o desfiladeiro sentiu o pnico
se esgueirando e invadindo sua conscincia. Tentara no pensar no que estava fazendo e simplesmente ir colocando um p na frente do outro, mas os sentimentos e temores
represados comearam a surgir. Seus olhos ficaram sombrios e as mos apertavam com fora o volante enquanto ele lutava contra a tentao de voltar para casa. Sabia
que estava indo direto para o centro de sua dor, o vrtice da Grande Tristeza que havia minado sua alegria de viver.
Finalmente pegou a auto-estrada para Joseph. Pensou em procurar Tommy, mas decidiu no fazer isso. Quanto menos pessoas pensassem que ele era um luntico desvairado,
melhor.
O trnsito era tranqilo e as estradas estavam notavelmente limpas e secas para essa poca do ano, mas parecia que quanto mais avanava mais lentamente viajava,
como se de algum modo  cabana repelisse sua aproximao. O jipe atravessou a faixa de neve enquanto ele subia os ltimos 3 quilmetros at a trilha que iria descer
para a cabana. Era apenas o incio da tarde quando Mack finalmente parou e estacionou no comeo da trilha praticamente invisvel.
Ficou ali sentado por cerca de cinco minutos, repreendendo-se por ser to idiota. A cada quilmetro percorrido desde Joseph as lembranas voltavam com uma clareza
que o empurrava para trs. Mas a compulso interna de prosseguir era irresistvel.
Levantou-se, olhou o caminho e decidiu deixar tudo no carro e descer a p o trecho de cerca de um quilmetro e meio at o lago. Pelo menos no teria de carregar
nada morro acima quando retornasse para ir embora, o que esperava que acontecesse logo.
Estava suficientemente frio para sua respirao pairar no ar em volta dele, e parecia que ia nevar. A dor que estivera crescendo no estmago finalmente o empurrou
para o pnico. Depois de apenas cinco passos ele parou e teve nsias de vmito to fortes que o deixaram de joelhos.
- Por favor, me ajude! - gemeu. Em seguida levantou-se com as pernas trmulas e virou-se. Abriu a porta do carona e enfiou a mo, remexendo at sentir a pequena
lata. Abriu a tampa e encontrou o que estava procurando: sua foto predileta de Missy, que tirou junto com o bilhete. Recolocou a tampa e deixou a lata no banco.
Parou um momento olhando o porta-luvas. Por fim abriu-o e pegou a arma de Willie, verificando que estava carregada e com a trava de segurana acionada. De p, fechou
a porta, enfiou a mo embaixo do casaco e ps a arma no cinto, s costas. Virou-se e encarou o caminho de novo, olhando uma ltima vez a foto de Missy antes de enfi-la
no bolso da camisa com o bilhete. Se o encontrassem morto, pelo menos saberiam qual tinha sido seu ltimo pensamento.
A trilha era traioeira; as pedras, geladas e escorregadias. Cada passo exigia concentrao enquanto ele descia para a floresta cada vez densa. O silncio era fantasmagrico.
Os nicos sons que podia ouvir eram os de seus passos esmagando a neve e o da sua respirao pesada. Mack comeou a sentir que estava sendo observado e uma vez chegou
a girar rapidamente para ver se havia algum ali. Por mais que quisesse dar a volta e correr para o jipe, seus ps pareciam ter vontade prpria, determinados a continuar
pelo caminho e entrar mais fundo na floresta mal iluminada e cada vez mais fechada.
De repente algo se mexeu ali perto. Assustado, ele se imobilizou em silncio e alerta. Com o corao martelando nos ouvidos e a boca subitamente seca, levou devagar
a mo s costas e tirou a pistola do cinto. Depois de soltar a trava, olhou fixamente para o mato baixo e escuro tentando ver ou ouvir algo que pudesse explicar
o barulho e diminuir o jorro de adrenalina. Mas o que quer que tenha se mexido havia parado agora. Estaria esperando por ele? S para garantir, ficou imvel por
alguns minutos antes de comear de novo a descer lentamente a trilha tentando ser o mais silencioso possvel.
A floresta parecia se fechar ao seu redor e ele comeou a se perguntar seriamente se havia tomado o caminho errado. Com o canto do olho viu movimento outra vez e
se agachou instantaneamente, espiando entre os galhos baixos de uma rvore prxima. Algo fantasmagrico, como uma sombra, entrou nos arbustos. Ou seria imaginao?
Esperou de novo, sem mexer um msculo. Seria Deus? Duvidava. Talvez um animal. Ento o pensamento que estivera evitando: "E se for algo pior? E se ele tivesse sido
atrado aqui para cima? Mas para qu?"
Levantando-se devagar do esconderijo, com a arma ainda na mo, deu um passo adiante, e foi quando de repente o arbusto atrs dele pareceu explodir. Mack girou, apavorado
e pronto para lutar pela vida, mas, antes que pudesse apertar o gatilho, reconheceu um texugo correndo de volta pela trilha. Exalou aos poucos o ar que estivera
prendendo, baixou a arma e balanou a cabea. Mack, o corajoso, parecia um menino apavorado na floresta. Depois de travar a arma de novo, guardou-a. "Algum poderia
se machucar", pensou com um suspiro de alvio.
Respirando fundo outra vez e soltando o ar lentamente, acalmou-se. Decidiu que estava farto de sentir medo e continuou a descer o caminho, tentando parecer mais
confiante do que se sentia. Esperava no ter vindo to longe  toa. Se Deus realmente aparecesse, Mack estava mais do que pronto para dizer-lhe umas tantas verdades.
Algumas voltas depois, saiu da floresta para uma clareira. Do outro lado, abaixo da encosta, viu-a de novo: a cabana. Ficou parado olhando-a, com o estmago transformado
numa bola em movimento e tumulto. Na superfcie nada parecia ter mudado, afora o inverno ter despido as rvores e o manto branco de neve que cobria o lugar. A cabana
parecia morta e vazia, mas de repente transformou-se num monstro de rosto maligno, retorcido numa careta demonaca, olhando-o diretamente e desafiando-o a se aproximar.
Ignorando o pnico crescente, Mack desceu com deciso os ltimos 100 metros e subiu os degraus da varanda.
As lembranas e o horror da ltima vez em que estivera ali voltaram num rompante e ele hesitou antes de empurrar a porta.
- Ol? - chamou, no muito alto. Pigarreando, chamou de novo, dessa vez mais alto. - Ol? Tem algum a? - Sua voz ecoou no vazio. Sentindo-se mais seguro, entrou
na sala e parou.
Enquanto seus olhos se ajustavam  semi-escurido, comeou a perceber os detalhes da sala com a luz da tarde se filtrando pelas janelas quebradas. Reconheceu as
cadeiras velhas e a mesa. No conseguiu evitar que seus olhos fossem atrados para o nico local que no suportaria olhar. Mesmo depois de alguns anos, a mancha
de sangue desbotada ainda era claramente visvel na madeira perto da lareira, onde havia encontrado o vestido de Missy.
-        Desculpe, querida. - Lgrimas comearam a se juntar nos seus olhos.
E finalmente seu corao explodiu como uma tromba-d'gua, soltando a raiva contida e deixando-a jorrar pelos cnions rochosos de suas emoes. Virando os olhos para
o cu, comeou a gritar suas perguntas angustiadas.
-        Por qu? Por que voc deixou que isso acontecesse? Por que me trouxe aqui? Por que logo aqui? No bastou matar minha filhinha? Tinha de zombar de mim tambm?
- Numa fria cega, Mack pegou a cadeira mais prxima e jogou-a contra a janela, despedaando-a. Com uma das pernas da cadeira, comeou a destruir tudo que podia.
Grunhidos e gemidos de desespero e fria irrompiam de seus lbios enquanto ele soltava a fria naquele lugar terrvel. - Odeio voc! - Num frenesi, liberou a raiva
at ficar exaurido.
Desesperado e derrotado, Mack se deixou cair no cho, perto da mancha de sangue. Tocou-a com cuidado. Era tudo o que restava de sua Missy. Deitado junto dela, os
dedos acompanharam com ternura as bordas descoloridas e ele sussurrou baixinho:
-        Missy, desculpe. Desculpe se no pude proteger voc. Desculpe se no pude encontrar voc.
Mesmo em sua exausto, a raiva fervilhou e de novo ele apontou contra o Deus indiferente que ele imaginava encontrar-se em algum lugar acima do teto da cabana.
-        Deus, voc nem deixou que a encontrssemos e a enterrssemos. Seria pedir demais?
Enquanto a mistura de emoes ia e vinha, com a raiva dando lugar  dor, uma nova onda de tristeza comeou a se misturar com sua confuso.
- Ento, onde est voc? Achei que queria se encontrar comigo. Bom, estou aqui, Deus. E voc? No est em lugar nenhum! Nunca esteve quando precisei, nem quando
eu era pequeno, nem quando perdi Missy. Nem agora! Tremendo "Papai" voc ! - cuspiu as palavras.
Mack ficou ali sentado em silncio, com o vazio do lugar invadindo sua alma. Todas as perguntas sem resposta e as acusaes dolorosas se acomodaram no cho ao lado
dele e lentamente se transformaram num poo de desolao. A Grande Tristeza se apertou ao redor e ele quase gostou da sensao esmagadora. Esta dor ele conhecia.
Estava familiarizado com ela, era quase uma amiga.
Mack podia sentir a arma na cintura, um frio convidativo contra a pele. Pegou-a, sem saber direito o que fazer. Ah, parar de se preocupar, parar de sentir a dor,
nunca mais sentir nada. Suicdio? No momento a opo era quase atraente. "Seria to fcil", pensou. "Chega de lgrimas, chega de dor..." Quase podia ver um abismo
preto abrindo-se no cho atrs da arma para a qual estava olhando, uma escurido que sugava os ltimos vestgios de esperana do corao. Matar-se seria um modo
de contra-atacar Deus, se Deus ao menos existisse.
As nuvens se abriram do lado de fora e de repente um raio de sol derramou-se na sala, rasgando o centro de seu desespero. Mas... E Nan? E Josh, Kate, Tyler e Jon?
Por mais que desejasse interromper a dor, sabia que no poderia aumentar o sofrimento deles.
Uma brisa fria passou por seu rosto e parte de Mack quis simplesmente se deitar e congelar at a morte, de to exausto. Encostou-se na parede e esfregou os olhos
cansados. Deixou-os fecharem-se enquanto murmurava:
-        Eu te amo, Missy. Sinto saudades demais. - Logo penetrou sem
esforo num sono pesado.
Provavelmente haviam se passado apenas alguns minutos quando Mack despertou com um solavanco. Surpreso por ter cochilado, levantou-se depressa. Enfiando a arma de
volta na cintura e a raiva na parte mais funda da alma, foi em direo  porta.
-        Isso  ridculo! Sou to idiota! E pensar que eu esperava que Deus pudesse se importar a ponto de me mandar um bilhete!
Olhou para o espao aberto.
- Estou cheio, Deus - sussurrou. - No posso mais. Estou cansado de tentar encontr-lo em tudo isso. - E saiu pela porta. Decidiu que era a ltima vez que procuraria
Deus. Se Deus o quisesse, teria que encontr-lo.
Enfiou a mo no bolso, pegou o bilhete que havia encontrado na caixa de correio e picou-o em pedacinhos, deixando-os escorrer lentamente entre os dedos para serem
levados pelo vento frio que havia aumentado. Com passos pesados e o corao mais pesado ainda, comeou a caminhar de volta para o jipe.
Mal havia caminhado uns 15 metros pela trilha quando sentiu um jorro sbito de ar quente alcan-lo por trs. O canto de um pssaro rompeu o silncio gelado. O caminho
diante dele perdeu rapidamente o verniz de gelo e neve, como se algum estivesse usando um secador de cabelos. Mack parou e ficou olhando, enquanto ao redor a cobertura
branca se dissolvia e era substituda por uma vegetao radiante. Trs semanas de primavera se desdobraram diante dele em 30 segundos. Esfregou os olhos e firmou-se
naquele redemoinho. At mesmo a neve fina que havia comeado a cair se transformara em minsculas flores descendo preguiosamente para o cho.
O que ele estava vendo, claro, no era possvel. Os montes de neve haviam desaparecido e flores silvestres de vero comearam a colorir as bordas da trilha e a surgir
na floresta at onde a vista alcanava. Tordos, esquilos e tmias atravessavam de vez em quando o caminho, alguns parando para sentar-se e olh-lo por um momento
antes de mergulhar de novo no mato baixo. Como se isso no bastasse, o perfume das flores comeou a encher o ar, no somente o aroma fugaz de flores silvestres da
montanha, mas a intensidade de rosas, orqudeas e outras fragrncias exticas encontradas em climas mais tropicais.
O terror dominou Mack, como se ele tivesse aberto a Caixa de Pandora e fosse varrido para o centro da loucura, perdendo-se para sempre. Inseguro, girou com cuidado,
tentando se agarrar a algum sentimento de sanidade.
Ficou pasmo. Tudo mudara. A cabana dilapidada fora substituda por um chal slido e lindamente construdo com troncos descascados  mo, cada um deles trabalhado
para um encaixe perfeito.
Em vez dos arbustos escuros e agrestes de macegas, urzes e espinheiros, tudo o que Mack via agora era perfeito como num carto-postal. A fumaa subia preguiosa
da chamin para o cu do fim de tarde, sinal de atividade dentro da cabana. Um caminho fora construdo ao redor da varanda da frente, limitado por uma pequena cerca
de ripas brancas. O som de risos vinha de perto - talvez de dentro, mas no dava para ter certeza.
Talvez fosse assim  experincia de um surto psictico total.
- Estou pirando de vez - sussurrou Mack. - Isso no pode estar acontecendo. No  real.
Era um lugar que Mack s poderia ter imaginado em seus melhores sonhos, e isso tornava a coisa ainda mais suspeita. A viso era maravilhosa, os perfumes inebriantes,
e seus ps, como se tivessem vontade prpria, levaram-no de volta descendo o caminho at a varanda da frente. Flores brotavam em toda parte e a mistura de fragrncias
florais provocou lembranas de infncia, esquecidas havia muito. Ele sempre ouvira dizer que o olfato era o melhor elo com o passado, o sentido mais forte para redescobrir
histrias antigas.
Na varanda, parou de novo. Vozes vinham muito claramente de dentro. Mack rejeitou o impulso sbito de sair correndo, como se fosse algum garoto que tivesse jogado
a bola no jardim de um vizinho. "Quem estaria l dentro?" Fechou os olhos e balanou a cabea para ver se conseguia apagar a alucinao e restaurar a realidade.
Mas, quando os abriu, tudo continuava ali. Estendeu a mo, hesitando, e tocou o corrimo de madeira. Certamente parecia real.
Agora enfrentava outro dilema. O que voc faz quando chega  porta de uma casa - ou de um chal, neste caso - onde Deus pode estar? Deve bater? Certamente Deus devia
saber que Mack estava ali. Talvez ele simplesmente devesse entrar e se apresentar, mas isso parecia igualmente absurdo. E como se dirigir a Deus? Deveria cham-lo
de Pai, de Todo-Poderoso ou talvez de Senhor Deus? Seria melhor ajoelhar-se e cair em adorao?
Enquanto tentava estabelecer algum equilbrio interno, a raiva voltou a emergir. Energizado pela ira, Mack foi at a porta. Decidiu bater a fora para ver o que
acontecia, mas, no momento em que levantou o punho, a porta se escancarou e diante dele apareceu uma negra enorme e sorridente.
Mack pulou para trs por instinto, mas foi lento demais. Com uma velocidade surpreendente para o seu tamanho, a mulher atravessou a distncia entre os dois e o engolfou
nos braos, levantando-o do cho e girando-o como se ele fosse uma criana pequena. E o tempo todo gritava o seu nome, Mackenzie Allen Phillips, com o ardor de algum
que reencontrasse um parente amado h muito perdido. Por fim colocou-o de volta no cho e, com as mos nos ombros dele, empurrou para trs, como se quisesse v-lo
bem.
-        Mack, olha s para voc! - ela praticamente explodiu. - A est, e to crescido! Eu estava ansiosa para v-lo cara a cara.  to maravilhoso t-lo aqui
conosco! Minha nossa, como eu amo voc! - E, ao dizer isso, o abraou de novo.
Mack ficou sem fala. Em poucos segundos aquela mulher havia rompido praticamente todas as convenes sociais atrs das quais ele entrincheirava com tanta segurana.
Mas algo no seu olhar e na maneira como ela dizia o seu nome o deixou deliciado, mesmo no tendo a menor idia de quem se tratava.
De repente foi dominado pelo perfume que exalava da mulher, e isso o sacudiu. Era o cheiro de flores, com sugestes de gardnia e jasmim, inconfundivelmente o perfume
de sua me que ele mantivera guardado em um vidro na latinha. O cheiro que jorrava e a lembrana que vinha junto o fizeram cambalear. Podia sentir o calor das lgrimas
em seus olhos, como se estivessem batendo  porta de seu corao. A mulher percebeu.
-        Tudo bem, querido, pode deixar que elas saiam... Sei que voc foi magoado e que est com raiva e confuso. Ento v em frente e ponha para fora.  bom para
a alma deixar que as guas rolem de vez em quando, as guas que curam.
Mack no podia impedir que as lgrimas enchessem seus olhos, mas no estava preparado para solt-las, ainda no, no com essa mulher. Reuniu todas as foras possveis
para evitar cair de volta no buraco negro das emoes. Enquanto isso, a mulher ficou ali com os braos estendidos, como se fossem os da sua me. Ele sentiu a presena
do amor. Era quente, convidativo, derretia tudo.
-        No est pronto? - reagiu ela. - Tudo bem, vamos fazer as coisas no seu devido tempo. Venha comigo. Posso pegar seu casaco? E essa arma? Voc no precisa
mesmo dela, certo? No queremos que algum se machuque, no ?
Mack no sabia direito o que fazer ou dizer. Quem era ela? Enraizado no mesmo lugar, lenta e mecanicamente tirou o casaco.
A negra enorme pegou o casaco e ele lhe entregou a arma, que ela segurou com a ponta de dois dedos, como se aquilo estivesse contaminado. No momento em que ela se
virou para entrar no chal, uma mulher pequena, claramente asitica, emergiu de trs da negra.
-        Aqui, deixe-me pegar isso - cantarolou ela. Obviamente no queria falar do casaco nem da arma e sim de outra coisa, e estava na frente dele num piscar de
olhos. Mack se enrijeceu ao sentir algo passar suavemente em sua face. Sem se mexer, olhou para baixo e viu que a mulher estava usando um frgil frasco de cristal
e um pequeno pincel, como os que vira Nan e Kate usar para maquiagem, e que gentilmente removia algo de seu rosto.
Antes que ele pudesse perguntar, ela sorriu e sussurrou:
-        Mackenzie, todos temos coisas que valorizamos a ponto de colecionar, no ? - A pequena lata relampejou na mente dele. - Eu coleciono lgrimas.
Enquanto a mulher recuava, Mack se pegou franzindo os olhos na direo dela, como se isso lhe permitisse enxergar melhor. Mas, estranhamente, ainda tinha dificuldade
para focaliz-la. Ela parecia quase tremeluzir na luz e seu cabelo voava em todas as direes, apesar de no haver nenhuma brisa. Era quase mais fcil v-la com
o canto do olho do que fixando-a diretamente.
Ento olhou para alm dela e notou que uma terceira pessoa havia sado do chal. Desta vez era um homem. Parecia ser do Oriente Mdio e se vestia como um operrio,
com cinto de ferramentas e luvas. Estava de p, tranqilamente encostado no portal e com os braos cruzados, usando jeans cobertos de serragem e uma camisa xadrez
com mangas enroladas acima dos cotovelos, revelando antebraos musculosos. Suas feies eram bastante agradveis, mas ele no era particularmente bonito - no se
destacaria numa multido. Mas seus olhos e o sorriso iluminavam o rosto e Mack achou difcil desviar o olhar.
Mack recuou de novo, sentindo-se um tanto esmagado.
- H mais de vocs? - perguntou meio rouco.
Os trs se entreolharam e riram. Mack no conseguiu evitar um sorriso.
- No, Mackenzie - riu a negra. - Somos tudo que voc tem e, acredite,  mais do que o bastante.
Mack tentou olhar de novo para a mulher asitica. Pelo que pode ver, ela talvez fosse do Norte da China, ou at mesmo de etnia monglica. Era difcil dizer, porque
seus olhos precisavam se esforar para enxerg-la. Pelas roupas, Mack presumiu que fosse jardineira ou que cuidasse da horta, Tinha luvas dobradas no cinto, no
como as de couro do homem, mas leves, de pano e borracha, como as que o prprio Mack usava para trabalhar no quintal de casa. Vestia jeans simples com desenhos ornamentais
nas barras - joelhos cobertos da terra onde estivera ajoelhada - e uma blusa muito colorida com manchas de amarelo, vermelho e azul. Mack tinha uma impresso de
tudo isso, porque ela parecia entrar e sair de seu campo de viso.
Ento o homem se aproximou, tocou o ombro de Mack, beijou-o nas faces e o abraou com fora. Mack soube instantaneamente que gostava dele. Depois o homem recuou
e a mulher asitica aproximou-se de novo segurando seu rosto com as duas mos. Gradual e intencionalmente, ela aproximou o seu rosto do dele e olhou no fundo de
seus olhos. Mack achou que quase podia ver atravs dela. Ento a mulher sorriu e seu perfume pareceu envolv-lo e tirar um peso enorme de seus ombros.
De repente Mack sentiu-se mais leve do que o ar, quase como se no tocasse mais o cho. Ela estava abraando-o sem abra-lo, ou sem mesmo toc-lo. S quando ela
recuou, o que provavelmente aconteceu apenas alguns segundos depois, ele percebeu que ainda estava de p e que seus ps continuavam tocando o piso da varanda.
- Ah, no se incomode - riu a negra enorme. - Ela causa esse efeito em todo mundo.
- Gosto disso - ele murmurou e os trs irromperam em mais risos. Agora Mack se pegou rindo com eles, sem saber exatamente por que e no se importando com isso.
Quando finalmente parou de rir, a mulher enorme passou o brao por seus ombros, puxou-o e disse:
- Ns sabemos quem voc , mas acho que devemos nos apresentar. Eu - ela balanou as mos com um floreio - sou a governanta e cozinheira. Pode me chamar de Elousia.
- Elousia? - perguntou Mack, sem compreender.
- Certo, voc no precisa me chamar de Elousia.  s um nome de que eu gosto e que tem um significado particular para mim. Ento - ela cruzou os braos e ps a mo
sob o queixo, como se pensasse com intensidade especial - pode me chamar do mesmo modo como Nan me chama.
- O qu? Voc no quer dizer... - Agora Mack ficou surpreso e mais confuso ainda. Sem dvida aquela no era o Papai que havia mandado o bilhete! - ... Quer dizer,
"Papai"?
-  - respondeu ela e sorriu, esperando que ele falasse, mas Mack ficou quieto.
O homem, que parecia ter trinta e poucos anos e era um pouco mais baixo do que Mack, interrompeu:
- Tento manter as coisas consertadas por aqui. Mas gosto de trabalhar com as mos, se bem que, como essas duas vo lhe dizer, sinto prazer em cozinhar e cuidar do
jardim.
- Voc parece ser do Oriente Mdio, talvez seja rabe? - perguntou Mack.
- Na verdade, sou irmo de criao daquela grande famlia. Sou hebreu; para ser exato, da casa de Jud.
- Ento... - De repente Mack ficou abalado com a prpria percepo. - Ento voc ...
-        Jesus? Sou. E pode me chamar assim, se quiser. Afinal de contas, esse se tornou o meu nome comum. Minha me me chamava de Yeshua, mas tambm posso ser conhecido
como Joshua ou at mesmo Jess.
Mack ficou perplexo e mudo. O que ele estava vendo e ouvindo parecia completamente impossvel! De repente sentiu que ia desmaiar. A emoo o varria, enquanto sua
mente tentava em desespero acompanhar todas as informaes. Nesse momento a asitica chegou mais perto e desviou sua ateno.
-        E eu sou Sarayu - disse ela inclinando a cabea numa ligeira reverncia e sorrindo. - Guardi dos jardins, dentre outras coisas.
Pensamentos se embolavam enquanto Mack lutava para ter alguma clareza. Ser que alguma daquelas pessoas era Deus? E se fossem alucinaes? Ou ser que Deus viria
mais tarde? J que eram trs, talvez aquilo fosse uma espcie de Trindade. Mas duas mulheres e um homem? E nenhum deles era branco? Mas por que ele havia presumido
que Deus seria branco? Sabia que sua mente estava divagando, por isso concentrou-se na pergunta que mais queria ver respondida.
- Ento qual de vocs  Deus?
- Eu - responderam os trs em unssono. Mack olhou de um para outro e, mesmo sem entender nada, de algum modo acreditou.


                                          AULA DE VO
.no importa qual seja o poder de Deus, o primeiro aspecto de Deus jamais o do Senhor absoluto, do Todo-Poderoso.  o do Deus que se coloca no nosso nvel humano
e se limita.
                                                - Jacques Ellul, Anarchy and Christianity
- Bem, Mackenzie, no fique a parado de boca aberta - disse a negra enorme enquanto se virava e seguia pela varanda, falando o tempo todo. - Venha conversar comigo
enquanto preparo a janta. Ou, se no quiser, faa o que desejar. Atrs do chal, perto do abrigo de barcos, voc vai encontrar uma vara de pesca que pode usar para
pegar umas trutas.
Ela parou junto  porta para dar um beijo em Jesus.
-        Lembre apenas - e virou-se para olhar Mack - que voc tem de limpar o que pegar. - Depois, com um sorriso rpido, desapareceu no chal, carregando o casaco
de inverno de Mack e segurando a arma pelos dois dedos, com o brao estendido.
Mack ficou parado, de boca aberta e com uma expresso de perplexidade grudada no rosto. Mal notou quando Jesus passou o brao por seu ombro. Sarayu parecia ter simplesmente
evaporado.
-        Ela no  fantstica? - exclamou Jesus, rindo para Mack.
Mack o encarou, balanando a cabea.
-        Estou ficando maluco? Devo acreditar que Deus  uma negra gorda com um senso de humor questionvel?
Jesus riu.
- Ela  uma piada! Adora surpresas e tem uma noo de tempo sempre perfeita.
- Verdade? - disse Mack, ainda balanando a cabea e sem saber se realmente acreditava. - Ento o que devo fazer agora?
- Voc no deve fazer nada. Est livre para o que quiser. - Jesus fez uma pausa e continuou, dando algumas sugestes: - Estou trabalhando num projeto em madeira
no barraco e Sarayu est no jardim. Voc pode ir pescar, andar de canoa ou entrar e conversar com Papai.
- Bem, acho que me sinto obrigado a entrar e falar com ele... Isto , com ela.
- Ah! - Agora Jesus estava srio. - No se sinta obrigado. V se for isso o que voc quer fazer.
Mack pensou um momento e decidiu que entrar no chal era o que realmente desejava. Agradeceu a Jesus, que, sorrindo, foi para a sua oficina. Mack atravessou a varanda
e chegou  porta. Depois de olhar rapidamente em volta, abriu-a. Enfiou a cabea para dentro, hesitou e decidiu mergulhar.
- Deus? - chamou timidamente, sentindo-se bastante idiota.
- Estou na cozinha, Mackenzie. Basta seguir minha voz.
Ele entrou e examinou a sala. Ser que este era o mesmo lugar? Estremeceu diante do sussurro dos pensamentos sombrios  espreita e trancou-os de novo. Olhou para
a sala de estar procurando o local perto da lareira, mas no encontrou nenhuma mancha. Notou que a sala era decorada com figuras que pareciam ter sido desenhadas
ou feitas por crianas. Imaginou se aquela mulher guardava com carinho cada uma daquelas peas, como qualquer pai ou me que ama os filhos. Talvez fosse assim que
ela valorizava as coisas que lhe eram dadas de corao, como as crianas em geral fazem.
Mack foi  direo ao cantarolar baixo e chegou a uma copa-cozinha onde havia uma mesa com quatro lugares e cadeiras de encosto de vime. O interior do chal era
mais espaoso do que ele havia imaginado. Papai estava trabalhando em alguma coisa, de costas para ele, com farinha voando enquanto se balanava ao ritmo da msica
ou do que quer que esteja escutando. A cano obviamente acabou, marcada por duas ltimas sacudidas de ombros e quadris. Virando-se para encar-lo, a negra tirou
os fones de ouvido.
De repente Mack quis fazer mil perguntas ou dizer mil coisas, algumas terrveis. Tinha a certeza de que seu rosto traa as emoes que ele lutava para controlar
e ento enfiou tudo de volta no corao sofrido. Se ela conhecia seu conflito interno, no demonstrou nada pela expresso - ainda aberta, cheia de vida e convidativa.
Ele quis saber:
- Posso perguntar o que voc est escutando?
- Um barato da Costa Oeste.  um disco que ainda nem foi lanado, chamado Viagens do corao, tocado por uma banda chamada Diatribe. Na verdade - ela piscou para
Mack -, esses garotos ainda nem nasceram.
-  mesmo? - reagiu Mack bastante incrdulo. - Um barato da Costa Oeste, hein? No parece muito religioso.
- Ah, acredite: no .  mais tipo funk e blues eurasiano, com uma mensagem fantstica. - Ela veio bamboleando na direo de Mack, como se estivesse danando, e
bateu palmas. Mack recuou.
- Ento Deus ouve funk? - Mack nunca ouvira a palavra "funk" em qualquer contexto religioso. - Achei que voc estaria ouvindo uma msica mais de igreja.
- Ora, veja bem, Mackenzie. Voc no precisa ficar me rotulando. Eu ouo tudo e no somente a msica propriamente dita, mas os coraes que esto por trs dela.
No se lembra de suas aulas na escola dominical? Esses garotos no esto dizendo nada que eu j no tenha ouvido antes. Simplesmente so cheios de vinagre e gs.
Muita raiva, e, devo dizer, com um bocado de razo. So apenas alguns dos meus meninos se mostrando e fazendo beicinho. Gosto especialmente desses garotos. , vou
ficar de olho neles.
Mack lutou para encontrar algum sentido no que acontecia. Nada do que estudara na escola dominical da igreja estava ajudando. Sentia-se subitamente sem palavras
e todas as suas perguntas pareciam t-lo abandonado. Por isso declarou o bvio:
-        Voc deve saber que cham-la de Papai  meio complicado
para mim.
- Ah, verdade? - Ela olhou-o fingindo surpresa. - Claro que sei. Sempre sei. - Ela deu um risinho. - Mas diga, por que voc acha que  difcil? Porque  uma palavra
familiar demais ou talvez porque estou me mostrando como mulher, me ou...
- Tudo isso  complicado - interrompeu Mack com um risinho sem jeito.
- Ou talvez por causa dos fracassos do seu pai?
Mack ofegou involuntariamente. No estava acostumado a ver seus segredos mais profundos virem  superfcie de modo to rpido e explcito. A culpa e a raiva cresceram
instantaneamente, e ele quis reagir com uma resposta sarcstica. Sentia que estava pendurado sobre um abismo sem fundo e teve medo de que, se deixasse algo daquilo
sair, perderia o controle de tudo. Procurou uma base segura, mas finalmente s conseguiu responder com os dentes trincados:
-        Talvez porque nunca conheci ningum a quem pudesse realmente chamar de papai.
Diante disso, ela pousou a tigela que estava aninhada em seu brao e, deixando dentro a colher de pau, virou-se para Mack com olhos gentis. No precisava dizer coisa
alguma. Ele viu imediatamente que ela entendia o que lhe ia  alma e de algum modo soube que ela gostava mais dele do que de qualquer pessoa.
-        Se voc deixar, Mack, serei o pai que voc nunca teve.
A oferta era ao mesmo tempo convidativa e repulsiva. Ele sempre quisera um pai em quem pudesse confiar, mas no sabia se iria encontr-lo ali, logo com algum que
no pudera proteger sua Missy. Um longo silncio pairou entre eles. Mack no sabia direito o que dizer e ela parecia no ter pressa.
-        Se voc no foi capaz de cuidar de Missy, como posso confiar que cuide de mim?
Pronto, havia feito  pergunta que o atormentara em todos os dias da Grande Tristeza. Mack sentiu o rosto se encher de um vermelho de raiva, enquanto olhava para
o que agora considerava uma caracterizao estranha de Deus, e percebeu que fechara os punhos com fora.
-        Mack, sinto muito. - Lgrimas comearam a descer pelo rosto dela.
- Sei o tamanho do abismo que isso abriu entre ns. Sei que voc ainda no entende, mas gosto especialmente de Missy e de voc tambm.
Mack adorou o modo como ela disse o nome de Missy, mas odiou ouvi-lo dito por ela. A palavra rolava na lngua da mulher como o vinho mais doce e, apesar de toda
a fria que ainda rugia em sua mente, de algum modo ele acreditou na sinceridade dela. Mack desejava acreditar, e lentamente parte da raiva comeou a diminuir.
-         por isso que voc est aqui, Mack - continuou ela. - Quero curar a ferida que cresceu dentro de voc e entre ns.
Para ganhar algum controle, ele voltou os olhos para o cho. Passo-se um minuto inteiro antes que tivesse energia suficiente para sussurrar sem levantar a cabea:
- Acho que eu gostaria disso - admitiu -, mas no vejo como.
- Querido, no existe resposta fcil para a sua dor. Acredite, se eu tivesse uma, usaria agora. No tenho varinha mgica para fazer com que tudo fique bem. A vida
custa um bocado de tempo e um monte de relacionamentos.
Mack ficou satisfeito porque estavam se afastando de sua acusao medonha. Ficara apavorado com a intensidade da prpria raiva.
- Acho que seria mais fcil ter esta conversa se voc no estivesse usando um vestido - ele sugeriu, tentando sorrir debilmente.
- Se fosse mais fcil, eu no estaria assim - ela disse com um risinho. - No estou tentando tornar isso mais difcil para nenhum de ns dois. Mas este  um bom
lugar para comear. Acho que comear tirando do caminho as questes que vm da cabea faz com que as do corao fiquem mais fceis de ser trabalhadas... quando voc
estiver pronto.
Ela pegou de novo a colher de pau, de onde pingava algum tipo de massa.
- Mackenzie, eu no sou masculino nem feminina, ainda que os dois gneros derivem da minha natureza. Se eu escolho aparecer para voc como homem ou mulher,  porque
o amo. Para mim, aparecer como mulher e sugerir que voc me chame de Papai  simplesmente para ajud-Io a no sucumbir to facilmente aos seus condicionamentos religiosos.
Ela se inclinou, como se quisesse compartilhar um segredo.
- Se eu me revelasse a voc como uma figura muito grande, branca e com aparncia de av com uma barba comprida, simplesmente reforaria seus esteretipos religiosos.
 importante voc saber que o objetivo deste fim de semana no  reforar esses esteretipos.
Mack quase riu alto, ironizando, mas, em vez disso, concentrou-se no que ela acabara de dizer e recuperou a compostura. Acreditava, pelo menos no corao, que Deus
era um Esprito, nem masculino nem feminino, mas, apesar disso, sentia-se embaraado ao admitir que todas as suas concepes visuais de Deus eram muito brancas e
muito masculinas.
Ela parou de falar enquanto guardava alguns condimentos numa prateleira de temperos e depois virou-se para encar-lo de novo. Olhou para Mack com intensidade.
-        No  verdade que voc sempre teve dificuldade para me ver como um pai? Depois do que passou, no fica nada fcil lidar com um pai, no ?
Ele sabia que ela estava certa e percebeu a gentileza e a compaixo de sua atitude. De algum modo, a maneira como ela havia se aproximado dele diminura sua resistncia
a receber o amor oferecido. Era estranho, doloroso e talvez at um tanto maravilhoso.
- Mas ento - ele parou, esforando-se para se manter racional - por que tanta nfase em voc ser um pai? Quero dizer, este parece o modo como voc mais se revela.
- Bem - respondeu Papai dando-lhe as costas e ocupando-se na cozinha -, h muitos motivos para isso, e alguns so muito profundos. Por enquanto, deixe-me dizer que,
assim que a Criao se degradou, ns soubemos que a verdadeira paternidade faria muito mais falta do que a maternidade. No me entenda mal, as duas coisas so necessrias,
mas  essencial uma nfase na paternidade por causa da enormidade das conseqncias da ausncia da funo paterna.
Mack se virou, meio perplexo, sentindo que aquilo j estava indo longe demais. Enquanto refletia, olhou pela janela para um jardim de aparncia selvagem.
- Voc sabia que eu viria, no ? - disse finalmente, baixinho.
- Claro que sabia. - Ela estava ocupada de novo, de costas para ele.
-        Ento eu no estava livre para deixar de vir? Eu no tinha opo?
Papai se virou de novo para encar-lo, agora com farinha e massa nas mos.
- Boa pergunta; at que profundidade voc gostaria de ir? - Ela esperou resposta, sabendo que Mack no tinha. Em vez disso, perguntou: - Voc acredita que est livre
para ir embora?
- Acho que sim. Estou?
- Claro que est! No gosto de prisioneiros. Voc est livre para sair por essa porta agora mesmo e voltar para a sua casa vazia. Mas eu sei que voc  curioso demais
para ir. Ser que isso reduz sua liberdade de partir?
Ela parou apenas brevemente e depois voltou para sua tarefa, falando com ele por cima do ombro.
-        Se voc quiser ir s um pouquinho mais fundo, poderamos falar sobre a natureza da prpria liberdade. Ser que liberdade significa que voc tem permisso
para fazer o que quer? Ou poderamos falar sobre tudo o que limita a sua liberdade. A herana gentica de sua famlia, seu DNA especfico, seu metabolismo, as questes
qunticas que acontecem num nvel subatmico onde s eu sou a observadora sempre presente.
Existem as doenas de sua alma que o inibem e amarram, as influncias sociais externas, os hbitos que criaram elos e caminhos sinptico no seu crebro. E h os
anncios, as propagandas e os paradigmas. Diante dessa confluncia de inibidores multifacetados - ela suspirou -, o que  de fato a liberdade?
Mack ficou ali parado, sem saber o que dizer.
- S eu posso libert-lo, Mackenzie, mas a liberdade jamais pode ser forada.
-        No entendo. No estou entendendo o que voc acaba de dizer.
Ela se virou e sorriu.
-        Eu sei. No falei para que voc entendesse agora. Falei para mais tarde. No ponto em que estamos, voc ainda no compreende que a liberdade  um processo
de crescimento. - Estendendo gentilmente as mos sujas de farinha, ela segurou as de Mack e, olhando-o direto nos olhos, continuou: - Mackenzie, a Verdade ir libert-lo,
e a Verdade tem nome. Neste momento ele est na carpintaria, coberto de serragem. Tudo tem a ver com ele. E a liberdade  um processo que acontece dentro de um relacionamento
com ele. Ento todas essas coisas que voc sente borbulhando por dentro vo comear a sair.
-        Como voc pode realmente saber como me sinto? - perguntou
Mack, encarando-a de volta.
Papai no respondeu, apenas olhou para as mos dos dois. O olhar de Mack seguiu o dela, e pela primeira vez ele notou as cicatrizes nos punhos da negra, como as
que agora presumia que Jesus tambm tinha nos dele. Ela permitiu que ele tocasse com ternura as cicatrizes, marcas de furos fundos, e finalmente Mack ergueu os olhos
para os dela. Lgrimas desciam lentamente pelo rosto de Papai, pequenos caminhos atravs da farinha que empoava suas faces.
-        Jamais pense que o que meu filho optou por fazer no nos custou caro. O amor sempre deixa uma marca significativa - ela declarou, baixinho e gentilmente.
- Ns estvamos l, juntos.
Mack ficou surpreso.
- Na cruz? Espere a, eu pensei que voc o tinha abandonado. Voc sabe: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?" - Era uma citao das Escrituras que freqentemente
assombrava Mack na Grande Tristeza.
- Voc no entendeu o mistrio naquilo. Independentemente do que ele sentiu no momento, eu nunca o deixei.
- Como pode dizer isso? Voc o abandonou, exatamente como me abandonou!
- Mackenzie, eu nunca o abandonei e nunca deixei voc.
- Isso no faz nenhum sentido - reagiu ele rispidamente.
-Sei que no, pelo menos por enquanto. Mas pense nisto: quando tudo que consegue ver  sua dor, talvez voc perca a viso de mim, no ?
Quando Mack no respondeu, ela retornou ao trabalho na cozinha, como se quisesse lhe oferecer um pouco de um necessrio espao. Parecia estar preparando vrios pratos
ao mesmo tempo, acrescentando temperos e ingredientes. Cantarolando uma musiquinha repetitiva, deu os ltimos retoques na torta que estava fazendo e enfiou-a no
forno.
- No se esquea, a histria no terminou no sentimento de abandono de Jesus. Ele encontrou a sada para se colocar inteiramente nas minhas mos. Ah, que momento
foi aquele!
Mack se encostou-se  bancada um tanto perplexo. Suas emoes e pensamentos estavam todos misturados. Parte dele queria acreditar em tudo que Papai dizia. Seria
timo! Mas outra parte questionava ruidosamente: "Isso no pode ser verdade!"
Papai pegou o cronmetro da cozinha, girou-o de leve e colocou-o na mesa diante deles.
-        No sou quem voc acha, Mackenzie. - As palavras dela no eram raivosas nem defensivas.
Mack olhou para ela, olhou para o cronmetro e suspirou.
- Estou me sentindo totalmente perdido.
- Ento vejamos se podemos encontr-lo no meio dessa confuso. Quase como se tivesse recebido a deixa, um pssaro azul pousou no parapeito da janela e comeou a
pular para trs e para a frente. Papai enfiou a mo numa lata sobre a bancada e, abrindo a janela, ofereceu ao pssaro uma mistura de gros que ela devia guardar
exatamente para isso. Sem qualquer hesitao e com aparente ar de humildade e gratido, o pssaro foi direto para a mo dela e comeou a comer.
-        Considere nosso amiguinho aqui - comeou ela. - A maioria dos pssaros foi criada para voar. Para eles, ficar no solo  uma limitao de sua capacidade
de voar, e no o contrrio. - Ela parou para deixar que Mack pensasse nisso. - Voc, por outro lado, foi criado para ser amado. Assim, para voc, viver como se no
fosse amado  uma limitao, e no o contrrio.
Mack assentiu, no porque concordasse completamente, mas sinalizando que entendia e estava acompanhando. O que ela dizia era bastante simples.
-        Viver sem ser amado  como cortar as asas de um pssaro e tirar sua capacidade de voar. No  algo que eu queira para voc.
A  que estava. No momento ele no se sentia particularmente amado.
-        Mack, a dor tem a capacidade de cortar nossas asas e nos impedir de voar. - Ela esperou um momento, permitindo que suas palavras se assentassem. - E, se
essa situao persistir por muito tempo, voc quase pode esquecer que foi criado originalmente para voar.
Mack ficou quieto. Estranhamente, o silncio no era to desconfortvel assim. Olhou o pssaro. O pssaro olhou de volta para Mack. Ele imaginou se seria possvel
os pssaros sorrirem. Pelo menos aquele parecia capaz.
-        No sou como voc, Mack.
No era uma repreenso, e sim a simples declarao de um fato. Mas para Mack foi como um banho de gua gelada.
- Sou Deus. Sou quem sou. E, ao contrrio de voc, minhas asas no podem ser cortadas.
- Bom,  maravilhoso para voc, mas onde, exatamente, isso me deixa? - reagiu Mack, parecendo mais irritado do que gostaria.
Papai comeou a acariciar o pssaro, aproximou-o do rosto e disse:
- Exatamente no centro do meu amor!
- Estou achando que esse pssaro provavelmente entende isso melhor do que eu - foi o mximo que Mack conseguiu dizer.
- Eu sei, querido. Por isso estamos aqui. Por que voc acha que eu disse que no sou como voc?
- Bom, realmente no fao idia. Quer dizer, voc  Deus e eu no sou. - Ele no conseguiu afastar o sarcasmo da voz, mas ela o ignorou completamente.
- , mas no exatamente. Pelo menos no do modo como voc est pensando. Mackenzie, eu sou o que alguns chamariam de "sagrado e totalmente diferente de voc". O
problema  que muitas pessoas tentam entender um pouco o que eu sou pensando no melhor que elas podem ser, projetando isso ao ensimo grau, multiplicando por toda
a bondade que so capazes de perceber - que freqentemente no  muita -, e depois chamam o resultado de Deus. E, embora possa parecer um esforo nobre, a verdade
 que fica lamentavelmente distante do que realmente sou. Sou muito mais do que isso, sou acima e alm de tudo o que voc possa perguntar ou pensar.
- Lamento, mas para mim isso no passa de palavras. E elas no fazem muito sentido. - Mack deu de ombros.
- Mesmo que voc no consiga finalmente me compreender, sabe de uma coisa? Ainda quero ser conhecido.
- Voc est falando de Jesus, no  verdade? Est me lembrando as aulas de catecismo: "Vamos tentar entender a Trindade"?
Ela deu um risinho.
-        Mais ou menos, mas aqui no  a escola dominical.  uma aula de vo. Mackenzie, como voc pode imaginar, h algumas vantagens em ser Deus. Por natureza,
sou completamente ilimitada, sem amarras. Sempre conheci a plenitude. Minha condio normal de existncia  um estado de satisfao perptua - disse ela, bastante
satisfeita. -  apenas uma das vantagens de Eu ser Eu.
Isso fez Mack sorrir. A mulher estava se divertindo muito com ela mesma e no havia um pingo de arrogncia para estragar aquilo.
-        Ns criamos vocs para compartilhar isso. Mas ento Ado optou por ficar sozinho, como sabamos que iria acontecer, e tudo se estragou. Mas, em vez de varrer
toda a Criao, arregaamos as mangas e entramos no meio da baguna. Foi o que fizemos em Jesus.
Mack estava parado, esforando-se ao mximo para acompanhar o fio dos pensamentos dela.
-        Quando ns trs penetramos na existncia humana sob a forma do Filho de Deus, nos tornamos totalmente humanos. Tambm optamos por abraar todas as limitaes
que isso implicava. Mesmo que tenhamos estado sempre presentes nesse universo criado, ento nos tornamos carne e sangue. Seria como se este pssaro, cuja natureza
 voar, optasse somente por andar e permanecer no cho. Ele no deixa de ser pssaro, mas isso altera significativamente sua experincia de vida.
Ela parou para se certificar de que Mack ainda estava acompanhando seu raciocnio. Embora houvesse uma dor ntida se formando e seu crebro, ele fez um gesto, convidando-a
a continuar.
-         Ainda que por natureza Jesus seja totalmente Deus, ele  totalmente humano e vive como tal. Ainda que jamais tenha perdido sua capacidade inata de voar,
ele opta, momento a momento, por ficar no cho. Por isso seu nome  Emanuel, Deus conosco, ou Deus com vocs, para ser mais exata.
- Mas... E todos os milagres? As curas? Ressuscitar os mortos? Isso no prova que Jesus era Deus... Voc sabe, mais do que humano?
-No, isso prova que Jesus  realmente humano.
- O qu?
- Mackenzie, eu posso voar, mas os humanos, no. Jesus  totalmente humano. Apesar de ele ser tambm totalmente Deus, nunca aproveitou sua natureza divina para fazer
nada. Apenas viveu seu relacionamento comigo do modo como eu desejo que cada ser humano viva. Ele foi simplesmente o primeiro a levar isso at as ltimas instncias:
o primeiro a colocar minha vida dentro dele, o primeiro a acreditar no meu amor e na minha bondade, sem considerar aparncias ou conseqncias.
- E quando ele curava os cegos?
- Fez isso como um ser humano dependente e limitado que confia na minha vida e no meu poder de trabalhar com ele e atravs dele. Jesus, como ser humano, no tinha
poder para curar ningum.
Isso foi um choque para as crenas religiosas de Mack.
-        S enquanto ele repousava em seu relacionamento comigo e em nossa comunho, nossa comum-unio, ele se tornava capaz de expressar meu corao e minha vontade
em qualquer circunstncia determinada. Assim, quando voc olha para Jesus e parece que ele est voando, na verdade ele est... Voando. Mas o que voc est realmente
vendo sou eu, minha vida nele.  assim que ele vive e age como um verdadeiro ser humano, como cada humano est destinado a viver: a partir da minha vida.
E continuou:
-        Um pssaro no  definido por estar preso ao cho, mas por sua capacidade de voar. Lembre-se disso: os seres humanos no so definidos por suas limitaes,
e sim pelas intenes que tenho para eles. No pelo que parecem ser, mas por tudo que significa ser criado  minha imagem.
Mack sentiu necessidade de sentar-se. Percebeu que precisaria de um certo tempo para compreender todas aquelas informaes.
Papai colocou o pssaro sobre a mesa, perto de Mack, virou-se para abrir o forno e deu uma olhadinha na torta que estava assando. Satisfeita porque tudo ia bem,
puxou uma cadeira para perto. Mack olhou o pssaro que, espantosamente, parecia contente em apenas ficar ali com eles. O absurdo daquilo fez Mack dar um risinho.
- Para comear,  bom que voc no consiga entender a maravilha da minha natureza. Quem quer adorar um Deus que pode ser totalmente compreendido, hein? No h muito
mistrio nisso.
- Mas que diferena faz o fato de haver trs de vocs e que todos sejam um s Deus?  isso mesmo?
- , sim. - Ela riu. - Mackenzie, faz toda a diferena do mundo! - Ela parecia estar gostando daquilo. - No somos trs deuses e no estamos falando de um deus com
trs atitudes, como um homem que  marido, pai e trabalhador. Sou um s Deus e sou trs pessoas, e cada uma das trs  total e inteiramente o um.
O "h" que Mack estivera retendo veio finalmente  superfcie com toda a fora.
- No importa - continuou a mulher. - O importante  o seguinte: se eu fosse simplesmente Um Deus e Uma Pessoa, voc iria se encontrar nesta Criao sem algo maravilhoso,
sem algo que  essencial. E eu seria absolutamente diferente do que sou.
- E ns estaramos sem...? - Mack nem sabia como terminar a pergunta.
- Amor e relacionamento. Todo amor e relacionamento s so possveis para vocs porque j existem dentro de Mim, dentro do prprio Deus. O amor no  a limitao.
O amor  o vo. Eu sou o amor.
Como que em resposta  declarao dela, o pssaro partiu voando pela janela. Olh-lo voando causou um intenso deleite. Mack virou-se de volta para Papai e olhou-a
maravilhado. Ela era muito linda e espantosa e, apesar de estar se sentindo meio perdido e de a Grande Tristeza ainda o acompanhar, percebeu crescendo dentro dele
um pouco de segurana por estar perto dela.
-        Entenda o seguinte - continuou Papai. - Para que eu tenha um
objeto para amar ou, mais exatamente, um algum para amar,  preciso que exista esse relacionamento dentro de mim. Caso contrrio, eu no seria capaz de amar. Voc
teria um deus incapaz de amar. Ou, talvez pior, voc teria um deus que, quando escolhesse amar, s poderia faz-lo como uma limitao de sua natureza. Esse tipo
de deus possivelmente poderia agir sem amor e seria um desastre. E isso certamente no sou eu.
Papai se levantou, foi at a porta do forno, tirou  torta recm-assada, colocou-a na bancada e, virando-se como se fosse se apresentar, disse:
-        O Deus que , o "eu sou quem eu sou", no pode agir fora do amor!
Mack soube que, por mais difcil de entender que fosse, o que estava escutando era algo espantoso e incrvel. Como se as palavras dela estivessem se enrolando nele,
envolvendo-o e falando com ele de maneiras que iam alm do que ele poderia ouvir. No que acreditasse de fato em nada daquilo. Se ao menos fosse verdade! Sua experincia
lhe dizia o contrrio.
-        Este fim de semana tem a ver com relacionamento e amor. Bom, eu sei que voc tem um monte de coisas para me dizer, mas neste momento  melhor ir se lavar.
Os outros dois esto vindo para o jantar. - Ela foi andando, mas parou e virou-se. - Mackenzie, sei que seu corao est cheio de dor, de raiva e de muita confuso.
Ns dois vamos falar um pouco disso enquanto voc estiver aqui. Mas tambm quero que saiba que esto acontecendo mais coisas do que voc pode imaginar ou entender.
Procure usar ao mximo a confiana que tiver em mim,
mesmo que ela seja pequena, est bem?
Mack baixara a cabea e olhava para o cho. "Ela sabe", pensou. Pequena? "Pequena" ou praticamente nada? Confirmando com a cabea, olhou para cima e notou novamente
as cicatrizes nos pulsos dela.
- Papai? - disse Mack muito sem jeito.
- O que , querido?
Mack lutou para encontrar as palavras que expressassem o que lhe ia ao corao.
-        Lamento muito que voc, que Jesus tivesse de morrer.
Ela rodeou a mesa e deu outro grande abrao em Mack.
-        Sei que lamenta e agradeo. Mas voc precisa saber que ns no lamentamos nem um pouco. Valeu a pena. No , filho?
Ela se virou para fazer a pergunta a Jesus, que havia acabado de entrar no chal.
- Sem dvida! - Ele fez uma pausa e depois olhou para Mack. - E eu teria feito aquilo mesmo que fosse somente por voc. Mas no foi! - disse com um sorriso acolhedor.
Mack pediu licena e saiu em direo ao banheiro. Lavou as mos o rosto e tentou recuperar a compostura.


                                         DEUS NO CAIS
 Rezemos para que a raa humana jamais escape da Terra para espalhar sua iniqidade em outros lugares.
        - C. S. Lewis

Mack ficou parado no banheiro olhando o espelho enquanto enxugava o rosto com uma toalha. Procurava algum sinal de insanidade naqueles olhos que o espiavam de volta.
Aquilo seria real? Claro que no, era impossvel. Mas ento... Estendeu a mo e tocou lentamente o espelho. Talvez fosse uma alucinao trazida por todo o seu sofrimento
e desespero. Talvez fosse um sonho e ele estivesse dormindo em algum lugar, quem sabe na cabana, morrendo congelado. Talvez... De repente um estrondo terrvel rompeu
seu devaneio. Vinha da direo da cozinha e deixou Mack paralisado. Por um momento houve um silncio mortal e depois, inesperadamente, gargalhadas retumbantes. Curioso,
saiu do banheiro e enfiou a cabea pela porta da cozinha.
Mack ficou chocado diante da cena. Jesus deixara cair uma grande tigela com algum tipo de massa ou molho no cho, e a coisa tinha se espalhado por toda parte. A
barra da saia de Papai e seus ps descalos estavam cobertos pela massa gosmenta. Sarayu disse alguma coisa sobre a falta de jeito dos humanos e os trs caram na
risada. Por fim, Jesus passou por Mack e voltou com toalhas e uma grande bacia de gua. Sarayu j estava comeando a limpar a sujeira do cho e dos armrios, mas
Jesus foi direto at Papai e, ajoelhando-se aos ps dela, comeou a limpar a frente de seu vestido. Gentilmente levantou um p de cada vez e colocou os dois na bacia,
onde os limpou e massageou. - Uuuuuh, isso  to bom! - exclamou Papai.
Encostado no portal, Mack no parava de pensar. Ento Deus era assim no relacionamento? Muito linda e atraente! Ele sabia que ningum estava em busca do culpado
pela sujeira do cho, pela tigela quebrada ou por um prato que no seria compartilhado. Era bvio que o que realmente importava era o amor que eles sentiam uns pelos
outros e a plenitude que esse amor lhes trazia. Balanou a cabea. Como isso era diferente da maneira como ele tratava seus entes queridos!
Embora simples, o jantar foi um banquete. Algum tipo de ave assada com uma espcie de molho de laranja, manga e alguma outra coisa, verduras frescas temperadas com
sabe-se l o qu, com gosto de fruta e de gengibre, e arroz de uma qualidade que Mack jamais havia provado. Por hbito, abaixou a cabea para rezar. Levantou-a e
viu os trs rindo para ele. Meio sem jeito, disse:
- Ah, obrigado a vocs todos... Algum pode me passar o arroz?
- Claro. Ns amos ter um molho japons incrvel, mas o sem jeito ali - Papai acenou na direo de Jesus - decidiu ver se a tigela quicava.
- Ah, qual ? - respondeu Jesus num arremedo de defesa. - Minhas mos estavam escorregadias.
Papai piscou para Mack enquanto lhe passava o arroz.
- No se consegue bons empregados por aqui.
Todo mundo riu.
A conversa parecia quase normal. Pediram que Mack falasse de cada um dos filhos, menos de Missy, e ele contou das vrias lutas e conquistas deles. Quando falou de
suas preocupaes com Kate, os trs apenas assentiram com uma expresso solidria, mas no ofereceram nenhum conselho. Ele tambm respondeu a perguntas sobre os
amigos, e Sarayu pareceu mais interessada em perguntar por Nan. Finalmente Mack conseguiu dizer uma coisa que o incomodara durante toda a conversa.
- Bom, estou aqui falando sobre meus filhos, meus amigos e sobre Nan, mas vocs j sabem tudo o que vou dizer, no ? Vocs esto agindo como se ouvissem pela primeira
vez.
Sarayu estendeu a mo por cima da mesa e segurou a dele.
- Mackenzie, lembra-se da nossa conversa anterior sobre limitao?
- Nossa conversa? - Ele olhou para Papai, que assentiu como quem sabe das coisas.
- Voc no pode compartilhar com um de ns sem que compartilhe com todos - disse Sarayu e sorriu. - Lembre-se das muitas vezes em que escolheu sentar no cho para
facilitar um relacionamento, para honr-Io. Mackenzie, voc faz isso freqentemente. Voc no brinca com uma criana ou colore uma figura com ela para mostrar sua
superioridade. Pelo contrrio, voc escolhe se limitar para facilitar e honrar o relacionamento. Voc  at capaz de perder uma competio como um ato de amor. Isso
no tem nada a ver com ganhar e perder, e sim com amor e respeito.
- Ento o que acontece quando estou falando com vocs sobre meus filhos?
- Ns nos limitamos por respeito a voc. No estamos trazendo  mente, por assim dizer, nosso conhecimento sobre seus filhos. Ouvimos como se fosse  primeira vez
e temos enorme prazer em conhec-lo atravs dos seus olhos.
- Gosto disso - refletiu Mack, recostando-se na cadeira.
Sarayu apertou a mo dele e pareceu se recostar.
- Eu tambm! Os relacionamentos no tm nada a ver com poder. Nunca! E um modo de evitar a vontade de exercer poder  escolher se limitar e servir. Os humanos costumam
fazer isso quando cuidam dos enfermos, quando servem os idosos, quando se relacionam com o pobres, quando amam os muito velhos e os muito novos, ou at mesmo quando
se importam com aqueles que assumiram uma posio de poder sobre eles.
- Bem falado, Sarayu - disse Papai, com o rosto luzindo de orgulho. - Eu cuido dos pratos depois. Mas primeiro gostaria de ter um tempo para as devoes.
Mack teve de conter um risinho diante da idia de Deus fazendo oraes. Imagens de devoes familiares de sua infncia vieram se derramar em seu pensamento. E no
eram exatamente boas lembrana?
Com freqncia consistiam em um exerccio tedioso de dar as respostas certas, ou melhor, as mesmas velhas respostas s mesmas velhas perguntas sobre histrias da
Bblia e depois tentar ficar acordado durante as oraes exaustivamente longas de seu pai. E, quando o pai tinha bebido, as oraes da famlia sempre se tornavam
um terrvel campo minado, onde qualquer resposta errada ou um olhar distrado provocava uma exploso. Ficou esperando que Jesus pegasse uma velha verso da Bblia.
Em vez disso, Jesus estendeu as mos sobre a mesa e segurou as de Papai, com as cicatrizes agora claramente visveis. Mack ficou sentado, em extremo fascnio, vendo
Jesus beijar as mos do Pai, depois olhar fundo nos seus olhos e finalmente dizer:
- Papai, adorei ver como hoje voc se tornou completamente disponvel para assumir a dor de Mack e deixar que ele escolhesse seu prprio ritmo. Voc o honrou e me
honrou. Ouvir voc sussurrar amor e calma no corao dele foi realmente incrvel. Que alegria imensa ver isso! Adoro ser seu filho.
Embora Mack se sentisse um intruso, ningum pareceu se preocupar e, de qualquer modo, ele no tinha idia de para onde ir. Presenciar a expresso de tamanho amor
parecia deslocar qualquer entrave lgico e, ainda que ele no soubesse exatamente o que sentia, era muito bom. Estava testemunhando algo simples, caloroso, ntimo
e verdadeiro. Isso era sagrado. A santidade sempre fora um conceito frio e estril para Mack, mas isso era diferente. Preocupado em no fazer qualquer gesto que
perturbasse aquele momento, simplesmente fechou os olhos e cruzou as mos. Ouvindo atentamente de olhos fechados, sentiu Jesus mexer a cadeira. Houve uma pausa antes
que ele falasse de novo:
- Sarayu - comeou Jesus com suavidade e ternura -, voc lava, eu enxugo.
Os olhos de Mack se abriram rapidamente, a tempo de ver os dois sorrirem afetuosamente um para o outro, pegarem os pratos e desaparecerem na cozinha. Ficou sentado
alguns minutos sem saber o que fazer. Papai tinha ido a algum lugar e os outros dois estavam ocupados com os pratos. A deciso foi fcil. Pegou os talheres e os
copos e levou-os para a cozinha. Assim que entrou, Jesus lhe jogou um pano e, enquanto Sarayu lavava os pratos, os dois comearam a enxugar.
Sarayu comeou a cantarolar uma msica evocativa que ele havia escutado Papai cantar. Mais uma vez a melodia mexeu no fundo de Mack, despertando lembranas e emoes.
Se pudesse permanecer ouvindo aquela cano, aceitaria ficar enxugando os pratos pelo resto da vida.
Cerca de 10 minutos depois haviam acabado. Jesus deu um beijo no rosto de Sarayu e ela desapareceu no corredor. Em seguida ele sorriu para Mack.
- Vamos ao cais olhar as estrelas.
- E os outros? - perguntou Mack.
- Estou aqui - respondeu Jesus. - Sempre estou aqui.
Mack assentiu. Esse negcio da presena de Deus, embora difcil de entender, parecia estar penetrando constantemente em sua mente e em seu corao. Por isso relaxou.
- Vamos - disse Jesus, interrompendo seus pensamentos. - Sei que voc gosta de olhar as estrelas! - Parecia uma criana cheia de ansiedade e expectativa.
- , acho que gosto - respondeu Mack, percebendo que a ltima vez em que fizera isso fora na maldita viagem com as crianas. Talvez tivesse chegado  hora de correr
alguns riscos.
Seguiu Jesus, saindo pela porta dos fundos. Nos momentos finais do crepsculo, Mack podia ver a margem rochosa do lago, no cheia de mato alto como ele recordava,
mas lindamente cuidada e perfeita como uma pintura. O riacho ali perto parecia cantarolar algum tipo de msica. Projetando-se cerca de 15 metros sobre o lago havia
um cais e Mack mal conseguiu vislumbrar trs canoas amarradas nele. A noite ia caindo depressa e a escurido distante j estava cheia dos sons de grilos e sapos.
Jesus pegou-o pelo brao e guiou-o pelo caminho enquanto seus olhos se ajustavam, mas Mack j estava olhando para uma noite sem luar, com o espanto das estrelas
emergindo.
Chegaram ao meio do cais e se deitaram de costas, olhando para cima. A altitude do lugar parecia ampliar o cu e Mack adorou ver a imensido do espao to claramente
estrelada. Jesus sugeriu que fechassem os olhos por alguns minutos, permitindo que os ltimos clares do crepsculo desaparecessem. Mack obedeceu e, quando finalmente
abriu os olhos, a viso foi to poderosa que por alguns segundos ele experimentou uma espcie de vertigem. Era quase como se estivesse caindo no espao, com as estrelas
correndo em sua direo para abra-lo. Levantou as mos imaginando que podia colher diamantes, um a um, de um cu de veludo negro.
- Uau! - exclamou.
- Incrvel! - sussurrou Jesus, com a cabea perto da de Mack no escuro. - Nunca me canso de ver isso.
- Mesmo que voc tenha criado?
- Eu criei quando era o Verbo, antes que o Verbo se tornasse Carne. De modo que, mesmo tendo criado tudo isso, agora vejo como humano. E acho impressionante!
-  mesmo. - Mack no sabia como descrever o que sentia, mas enquanto continuavam deitados em silncio, olhando o espetculo celestial num espanto reverente, observando
e ouvindo, soube em seu corao que isso tambm era sagrado. Estrelas cadentes ocasionais chamejavam numa trilha breve cortando o negrume da noite e fazendo um ou
outro exclamar:
- Viu aquilo? Que maravilha!
Depois de um silncio particularmente longo, Mack falou:
- Eu me sinto mais confortvel perto de voc. Voc parece muito diferente delas.
- Como assim, diferente? - a voz suave de Jesus emergiu da escurido.
- Bom. - Mack fez uma pausa enquanto pensava. - Mais real ou palpvel. No sei. - Lutou com as palavras e Jesus ficou deitado em silncio, esperando. -  como se
eu sempre tivesse conhecido voc. Mas Papai no  nem um pouco o que eu esperava de Deus e Sarayu  muito estranha.
Jesus deu um risinho no escuro.
- Como eu sou humano, ns temos muito mais em comum.
- Mas, mesmo assim, no entendo...
- Eu sou o melhor modo que qualquer humano pode ter de se relacionar com Papai ou com Sarayu. Me ver  v-las. E, acredite, Papai e Sarayu so to reais quanto eu,
embora, como voc viu, de maneira muito diferentes.
- Por falar em Sarayu, ela  o Esprito Santo?
- .  Criatividade,  Ao,  o Sopro da Vida. E  muito mais. Ela  o meu Esprito.
- E o nome dela, Sarayu?
-  um nome simples de uma das nossas lnguas humanas. Significa "Vento", na verdade um vento comum. Ela adora esse nome.
- Humm - resmungou Mack. - No h nada de muito comum nela.
- Isso  verdade.
- E o nome que Papai mencionou, El... Elo...
- Elousia - disse a voz reverentemente no escuro, ao lado dele. - Esse  um nome maravilhoso. El  meu nome como Deus Criador, mas ouia  "ser", ou "aquilo que 
verdadeiramente real", de modo que o nome significa "o Deus Criador que  verdadeiramente real e a base de todo o ser". Isso  que  um nome bonito!
Houve silncio por um minuto enquanto Mack pensava no que Jesus havia dito.
-        Ento onde  que isso nos deixa?
Ele sentia como se estivesse fazendo a pergunta em nome de toda a raa humana.
- Bem, onde vocs sempre se destinaram a estar. No prprio centro do nosso amor e do nosso propsito.
De novo uma pausa e depois:
- Acho que posso viver com isso.
Jesus deu um risinho.
- Fico feliz em saber - e os dois riram. Ningum falou por um tempo. O silncio havia baixado como um cobertor e tudo de que Mack tinha realmente conscincia era
do som da gua batendo no cais. Novamente ele rompeu o silncio.
- Jesus?
- O que , Mackenzie?
- Estou surpreso com uma coisa em voc.
- Verdade? O qu?
- Acho que eu esperava que voc fosse mais... - Cuidado a, Mack. - Ah... Bem, humanamente marcante.
Jesus riu.
- Humanamente marcante? Quer dizer bonito? - Agora ele estava gargalhando.
- Bom, eu estava tentando evitar dizer assim, mas . De algum modo achei que voc seria o homem ideal, voc sabe, atltico e de uma beleza avassaladora.
-         o meu nariz, no ?
Mack no soube o que dizer.
Jesus riu.
- Eu sou judeu, voc sabe. Meu av materno tinha um narigo. Na verdade, a maioria dos homens do meu lado materno tinha nariz grande.
- S pensei que voc teria uma aparncia melhor.
- De acordo com que padro? De qualquer modo, quando voc me conhecer melhor, isso no vai importar.
Mesmo ditas com gentileza, as palavras machucaram. Machucaram o qu, exatamente? Mack ficou deitado por alguns segundos e percebeu que, por mais que pensasse que
conhecia Jesus, talvez no conhecesse... Ou conhecesse mal. Talvez o que conhecesse fosse um cone, um ideal, uma imagem atravs da qual tentava captar um sentimento
de espiritualidade, mas no uma pessoa real.
- Por que isso? - perguntou finalmente. - Voc disse que, se eu o conhecesse de verdade, sua aparncia no importaria...
- Na verdade  bem simples. O ser sempre transcende a aparncia. Assim que voc comea a descobrir o ser que h por trs de um rosto muito bonito ou muito feio,
de acordo com seus conceitos e preconceitos, as aparncias superficiais somem at simplesmente no importarem mais. Por isso Elousia  um nome to maravilhoso. Deus,
que  a base de todo o ser, mora dentro, em volta e atravs de todas as coisas, e emerge em ltima instncia como o real. Qualquer aparncia que mascare essa verdade
est destinada a cair.
Seguiu-se um silncio enquanto Mack refletia sobre o que Jesus havia dito. Desistiu depois de apenas um ou dois minutos e decidiu fazer a pergunta mais arriscada.
- Voc disse que eu no o conheo de verdade. Seria muito mais fcil se pudssemos sempre conversar assim.
- Admito, Mack, que essa conversa  especial. Voc estava realmente travado e ns queramos ajud-lo a se arrastar para fora da dor. Mack no fique achando que porque
no sou visvel nosso relacionamento precise ser menos real. Ser diferente, talvez at mais real.
- Como assim?
- Meu propsito, desde o incio, era viver em voc e voc viver e mim.
- Espere, espere. Espere um minuto. Como isso pode acontecer? Se voc ainda  totalmente humano, como pode estar dentro de mim?
- Espantoso, no ?  o milagre de Papai.  o poder de Sarayu, meu Esprito, o Esprito de Deus que restaura a unio que foi perdida h tanto tempo. Eu? A cada momento
eu escolho viver totalmente humano. Sou totalmente Deus, mas sou humano at o mago. Como eu disse,  o milagre de Papai.
Mack estava deitado no escuro ouvindo com ateno.
- Voc est falando de uma moradia real e no somente de uma questo teolgica?
- Claro - respondeu Jesus com a voz forte e segura. - O humano, formado a partir da criao material e fsica, pode ser totalmente habitado pela vida espiritual,
a minha vida. Isso exige a existncia de uma unio muito real, dinmica e ativa.
-  quase inacreditvel! - exclamou Mack baixinho. - Eu no fazia idia. Preciso pensar mais nisso. Mas talvez eu tenha outro monte de perguntas.
- E temos toda a sua vida para respond-las - riu Jesus. - Mas por enquanto chega disso. Vamos nos perder de novo na noite estrelada.
No silncio que se seguiu, Mack simplesmente ficou parado, permitindo que a enormidade do espao e da luminosidade esparsa o fizesse sentir-se pequeno, deixando
suas percepes serem capturadas pela luz das estrelas e pela idia de que tudo tinha a ver com ele... com a raa humana... que toda aquela magnfica criao era
para a humanidade. Depois do que pareceu um longo tempo, Jesus rompeu o silncio.
- Nunca vou me cansar de olhar para isso. A maravilha de tudo, o esbanjamento da Criao, como disse um dos nossos irmos. To elegante, to cheia de desejo e beleza,
mesmo agora.
- Sabe - reagiu Mack, novamente abalado pelo absurdo da situao, pelo lugar onde estava, pela pessoa ao seu lado -, algumas vezes voc parece to... quero dizer,
aqui estou eu, perto de Deus Todo-Poderoso, e na verdade voc parece to...
- Humano? - sugeriu Jesus. - Mas feio. - E comeou a rir, primeiro baixinho e contido, depois s gargalhadas. Era contagioso e Mack deixou-se levar num riso que
vinha de algum lugar bem no fundo. No ria a partir daquele lugar havia muito tempo. Jesus estendeu a mo e o abraou, sacudido por seus prprios espasmos de riso,
e Mack se sentiu mais limpo, vivo e bem desde... bom, no conseguia se lembrar desde quando.
Os dois acabaram se aquietando e o silncio da noite se imps mais uma vez. Mack ficou parado, se dando conta da culpa por estar se divertindo e rindo. Mesmo no
escuro, sentiu a Grande Tristeza chegar e encobri-lo.
- Jesus? - sussurrou com a voz embargada. - Eu me sinto muito perdido.
Uma mo se estendeu e ficou apertando a sua.
- Eu sei, Mack. Mas no  verdade. Lamento se a sensao  essa, mas oua com clareza: voc no est perdido.
- Espero que voc esteja certo - respondeu Mack, com a tenso afrouxada pelas palavras do amigo recm-encontrado.
- Venha - disse Jesus, levantando-se e estendendo a mo para Mack.
- Voc tem um grande dia pela frente. Vou lev-lo para a cama.
- Passou o brao pelo ombro de Mack e juntos andaram para o chal. De repente, Mack sentiu-se exausto. O dia fora longo. Talvez acordasse em casa, na sua cama, depois
de uma noite de sonhos vividos. Mas em algum lugar dentro de si esperava estar errado.


                  UM CAF DA MANH DE CAMPEES
"Crescer significa mudar e mudar envolve riscos, uma passagem do conhecido para o desconhecido."
                                               - Autor desconhecido
Quando chegou ao quarto, Mack descobriu que as roupas que havia deixado no carro estavam dobradas em cima da cmoda ou penduradas no armrio. Achou engraado encontrar
uma Bblia na mesinha-de-cabeceira. Escancarou a janela para deixar que o ar da noite entrasse livremente, algo que Nan jamais tolerava em casa porque tinha medo
de aranhas e de qualquer coisa rastejante. Aninhado como um criana pequena debaixo do grosso edredom, havia lido apenas dois versculos da Bblia quando o livro
saiu de sua mo, a luz se apagou algum deu-lhe um beijo no rosto e ele foi levantado suavemente do cho, num sonho em que voava.
Quem nunca voou assim talvez no acredite que seja possvel, mas no fundo sente um pouco de inveja. Havia anos que ele no tinha esse tipo de sonho, pelo menos desde
que a Grande Tristeza baixara, mas nessa noite Mack voou alto na noite estrelada, atravs do ar lmpido frio, sem qualquer desconforto. Sobrevoou lagos e rios, atravessou
um litoral ocenico e vrias ilhotas cercadas de recifes.
Por mais estranho que parea, Mack aprendera com seus sonhos a voar erguendo-se do cho sem ser sustentado por nada - sem asas, sem qualquer tipo de aparelho, apenas
ele. Os vos inicialmente o elevavam a alguns centmetros do cho, por causa do medo de cair. Aos poucos ele foi adquirindo confiana e se alando mais alto, descobrindo
que a queda no era dolorosa, apenas um pequeno ricochete em cmara lenta. Com o tempo, aprendeu a ascender at as nuvens, cobrir vastas distncias e pousar suavemente.
Enquanto planava  vontade sobre montanhas escarpadas e praias de um branco cristalino, usufrua a maravilha do sonho de voar. Subitamente, algo o agarrou pelo tornozelo
e o puxou para baixo. Em questo de segundos foi arrastado das alturas e jogado violentamente, de cara, numa estrada lamacenta e muito esburacada. O trovo sacudia
o solo e a chuva o encharcou instantaneamente at os ossos. E tudo veio de novo, raios iluminando o rosto de sua filha enquanto ela gritava "Papai!" sem emitir nenhum
som e se virava e corria para a escurido, o vestido vermelho visvel apenas por alguns clares breves e depois sumindo. Mack lutou com todas as foras para se soltar
da lama e da gua, mas foi sendo sugado para mais fundo. No momento em que estava submergindo, acordou ofegando.
Com o corao disparado e a imaginao presa s imagens do pesadelo, demorou alguns instantes para perceber que fora somente um sonho. Mas, mesmo que o sonho fosse
sumindo da conscincia, as emoes permaneceram. O sonho havia provocado a Grande Tristeza e, antes que ele pudesse sair da cama, estava de novo procurando um caminho
atravs do desespero que viera devorando muitos dos seus dias.
Olhou ao redor do quarto, no cinza opaco de antes do amanhecer que chegava sorrateiramente do outro lado dos postigos da janela. Aquele no era seu quarto, nada
parecia familiar. Onde estava? Pense, Mack, pense! Ento se lembrou. Ainda estava na cabana com aquelas trs figuras interessantes e todas as trs achavam que eram
Deus.
- Isso no pode estar acontecendo de verdade - resmungou, enquanto punha os ps para fora da cama e se sentava na beira com a cabea nas mos. Pensou no dia anterior
e de novo sentiu medo de estar enlouquecendo. Como nunca fora uma pessoa muito chegada a contatos fsicos e a emoes, Papai - ou quem quer que fosse - o deixara
nervoso, e ele no fazia idia do que pensar a respeito de Sarayu. Admitiu que gostasse um bocado de Jesus, mas ele parecia o menos divino dos trs.
Soltou um suspiro fundo e pesado. E, se Deus estava realmente ali, por que no havia afastado seus pesadelos?
Ficar se debatendo com um dilema no iria ajudar. Por isso foi at o banheiro, onde, para sua perplexidade, tudo de que precisava para tomar um banho de chuveiro
fora cuidadosamente arrumado. Demorou um tempo no calor da gua, depois barbeando-se e, de volta ao quarto, vestindo-se.
O aroma penetrante e sedutor do caf o atraiu para a xcara fumegante que o esperava na mesa junto  porta. Tomando um gole, abriu os postios e ficou olhando pela
janela do quarto para o lago que apenas vislumbrara como uma sombra na noite anterior.
Era perfeito, liso como vidro, a no ser pelo salto ocasional de alguma truta, lanando crculos de ondas em miniatura que se irradiavam pela superfcie de um azul
profundo at serem lentamente absorvidas de volta na superfcie maior. Avaliou que a margem mais distante estaria a uns 800 metros. O orvalho brilhava em toda parte
como diamantes refletindo o amor do sol.
As trs canoas que repousavam tranqilas ao longo do cais pareciam convidativas, mas Mack afastou o pensamento. Canoas traziam muitas lembranas dolorosas.
O cais o fez lembrar-se da noite anterior. Ser que realmente havia se deitado ali com Aquele que fizera o universo? Mack balanou a cabea perplexo. O que estava
acontecendo? Quem eram eles e o que queriam? O que quer que fosse, Mack estava certo de que no tinha nada para dar.
O cheiro de ovos e bacon ondulou para dentro do quarto, interrompendo seus pensamentos. Ao entrar na sala, ouviu o som de uma msica conhecida, de Bruce Cockburn,
vindo da cozinha, e uma voz aguda de mulher acompanhando bastante bem: "Ah, amor que incendeia o sol, mantenha-me aceso." Papai surgiu com pratos cheios de panquecas,
batatas fritas e algum tipo de verdura. Vestia uma roupa comprida e larga, de aparncia africana, com uma faixa multicolorida no cabelo, parecia radiante - quase
reluzindo.
- Sabe - exclamou ela -, adoro as msicas dessa criana! Gosto especialmente do Bruce, voc sabe. - Ela olhou para Mack, que estava se sentando  mesa. Mack assentiu,
com o apetite aumentando a cada segundo.
-  - continuou ela -, e sei que voc tambm gosta dele.
Mack sorriu. Era verdade. Cockburn era o favorito de toda a famlia havia anos.
- Ento, querido - perguntou Papai, enquanto se ocupava com alguma coisa. - Como foram seus sonhos esta noite? Algumas vezes os sonhos so importantes, voc sabe.
Podem ser um modo de abrir a janela e deixar que o ar poludo saia.
Mack sabia que isso era um convite para destrancar a porta de seus terrores, mas no momento no estava pronto para convid-la a entrar naquele buraco com ele.
- Dormi bem, obrigado - respondeu e rapidamente mudou de
assunto. - Quer dizer que Bruce  seu predileto?
Ela parou e olhou-o.
- Mackenzie, eu no tenho prediletos; apenas gosto especialmente dele.
- Voc parece gostar especialmente de um monte de pessoas - observou Mack. - E h algum de quem voc no goste especialmente?
Ela ergueu a cabea e revirou os olhos como se estivesse examinando mentalmente o catlogo de cada ser criado.
- No, no consigo encontrar ningum. Acho que sou assim. Mack ficou interessado.
- Nunca fica furiosa com algum?
- Imagina! Que pai no fica? Os filhos se metem em vrias confuses que deixam  gente furiosa. No gosto de muitas das escolhas que eles fazem, mas essa minha raiva
 uma expresso de amor. Eu amo aqueles de quem estou com raiva tanto quanto aqueles de quem no estou.
- Mas... - Mack fez uma pausa. - E a sua ira? Parece que, se voc pretende ser o Deus Todo-Poderoso, precisa ser muito mais irado.
-  mesmo?
-  o que eu acho. Voc no vivia matando gente na Bblia? Voc no parece se encaixar naquele modelo.
- Entendo como tudo isso deve deixar voc desorientado, Mack. Mas o nico que est pretendendo ser alguma coisa aqui  voc. Eu sou o que sou. No estou tentando
me encaixar em modelo nenhum.
- Mas est pedindo que eu acredite que voc  Deus, e simplesmente no vejo... - Mack no sabia como terminar a frase, por isso desistiu.
- No estou pedindo que acredite em nada, mas vou lhe dizer que voc vai achar este dia muito mais fcil se simplesmente aceit-lo como , em vez de tentar encaix-lo
em suas idias preconcebidas.
- Mas o Deus que me ensinaram derramou grandes doses de fria mandou o dilvio e lanou pessoas num lago de fogo. - Mack podia sentir sua raiva profunda emergindo
de novo, fazendo brotar as perguntas, e se chateou um pouco com sua falta de controle. Mas perguntou mesmo assim: - Honestamente, voc no gosta de castigar aquele:
que a desapontam?
Diante disso, Papai interrompeu suas ocupaes e virou-se para Mack. Ele pde ver uma tristeza profunda nos olhos dela.
- No sou quem voc pensa, Mackenzie. No preciso castigar as pessoas pelos pecados. O pecado  o prprio castigo, pois devora as pessoa: por dentro. Meu objetivo
no  castigar. Minha alegria  curar.
- No entendo...
- Est certo. No entende mesmo - disse ela com um sorriso meio triste. - Mas, afinal de contas, voc ainda no terminou.
Nesse momento, Jesus e Sarayu entraram rindo pela porta dos fundos entretidos numa conversa. Jesus chegou vestido praticamente como no dia anterior, com jeans e
uma camisa azul-clara que fazia seus olhos castanhos se destacarem. Sarayu, por outro lado, vestia algo to fino e rendado que praticamente voava a mais tnue brisa.
Padres de arco-ris tremeluziam e se alteravam a cada gesto dela. Mack se perguntou se em algum momento ela parava completamente de se mexer. Duvidou.
Papai inclinou-se para ficar com os olhos na mesma altura dos de Mack.
- Voc faz algumas perguntas interessantes. Chegaremos a elas, prometo. Mas agora vamos aproveitar o caf da manh.
Mack assentiu de novo um pouco sem graa enquanto voltava  ateno para a comida. Estava de fato com fome e havia muita coisa apetitosa.
- Obrigado pelo caf da manh - disse a Papai, enquanto Jesus e Sarayu ocupavam seus lugares.
- O qu? - reagiu ela num horror fingido. - Voc no vai abaixar a cabea e fechar os olhos? - Ela comeou a andar em direo  cozinha, fazendo pequenos muxoxos
de reprovao. - O que est acontecendo com este mundo? Meu bem, no h de qu. - Um instante depois retornou trazendo outra tigela com uma comida fumegante que
desprendia um aroma maravilhoso e convidativo.
Passaram as tigelas uns para os outros e Mack ficou fascinado enquanto olhava e ouvia Papai participar da conversa de Jesus e Sarayu. Estavam falando algo sobre
conciliar uma famlia em crise, mas no foi o que eles falavam que atraiu Mack e sim como eles se relacionavam. Nunca vira trs pessoas compartilharem sentimentos
com tamanha simplicidade e beleza. Cada um parecia mais interessado nos outros do que em si mesmo.
- Ento o que acha, Mack? - perguntou Jesus, fazendo um gesto em sua direo.
- No fao a mnima idia do que vocs esto falando - respondeu Mack com a boca cheia daquelas verduras saborosas. - Mas adoro o modo como falam.
- Uau! - disse Papai, que vinha retornando da cozinha com outro prato. - V com calma nessas verduras, rapaz. Se no tiver cuidado, elas podem dar uma bela dor de
barriga.
- Certo, tentarei me lembrar - disse Mack servindo-se do prato que ela lhe oferecia. Depois, virando-se de novo para Jesus, acrescentou: - Adoro o modo como vocs
se tratam. Certamente eu no esperaria que Deus fosse desse jeito.
- Como assim?
- Bom, sei que vocs so um s e coisa e tal, e que so trs. Mas vocs se tratam de uma forma to amvel! Um no manda mais do que os outros dois?
Os trs se entreolharam como se nunca tivessem pensado nisso.
-        Quero dizer - continuou Mack rapidamente -, sempre pensei em Deus, o Pai, como uma espcie de chefe, e em Jesus como o que seguia as ordens, vocs sabem,
sendo obediente. No sei exatamente como o Esprito Santo se encaixa. Ele... quero dizer, ela... ah... - Mack tentou no olhar para Sarayu enquanto procurava as
palavras. - Tanto faz, Esprito sempre me pareceu meio... ...
- Um Esprito livre? - sugeriu Papai.
-        Exatamente, um Esprito livre, mas ainda assim sob a orientao do Pai. Faz sentido?
Jesus olhou para Papai, tentando com alguma dificuldade manter uma aparncia sria.
-        Faz sentido para voc, Abba? Francamente, no tenho a mnima idia do que este homem est falando.
Papai franziu o rosto, como se estivesse se concentrando.
- No, eu estava tentando entender, mas sinto muito. Para mim isso no tem p nem cabea.
- Vocs sabem do que estou falando. - Mack ficou meio frustrado - Estou falando de quem est no comando. Vocs no tm uma cadeia de comando?
- Cadeia de comando? Isso parece medonho! - disse Jesus.
- No mnimo opressivo - acrescentou Papai, enquanto os outro; dois comeavam a rir. Ento, virando-se para Mack, cantou: - "Mesmo sendo correntes de ouro, ainda
so correntes."
- Ah, no se incomode com esses dois - interrompeu Sarayu, estendendo a mo para confort-lo. - Eles s esto brincando com voc. Na verdade, este  um assunto que
nos interessa.
Mack assentiu, aliviado e meio chateado por ter de novo perdido o controle.
- Mackenzie, no existe conceito de autoridade superior entre ns. apenas de unidade. Estamos num crculo de relacionamento e no numa cadeia de comando. O que voc
est vendo aqui  um relacionamento sem qualquer camada de poder. No precisamos exercer poder um sobre o outro porque sempre estamos procurando o melhor. A hierarquia
no faria sentido entre ns. Na verdade, isso  um problema de vocs, no nosso.
- Verdade? Como assim?
- Os humanos esto to perdidos e estragados que para vocs  quase incompreensvel que as pessoas possam trabalhar ou viver juntas sem que algum esteja no comando.
- Mas qualquer instituio humana, desde as polticas at as empresariais, at mesmo o casamento,  governada por esse tipo de pensamento.  a trama do nosso tecido
social - declarou Mack.
- Que desperdcio! - disse Papai, pegando o prato vazio e indo para a cozinha.
- Esse  um dos motivos pelos quais  to difcil para vocs experimentar o verdadeiro relacionamento - acrescentou Jesus. - Assim que montam uma hierarquia, vocs
precisam de regras para proteg-la e administr-la, e ento precisam de leis e da aplicao das leis, e acabam criando algum tipo de cadeia de comando que destri
o relacionamento, em vez de promov-lo. Raramente vocs vivem o relacionamento fora do poder. A hierarquia impe leis e regras e vocs acabam perdendo a maravilha
do relacionamento que ns pretendemos para vocs.
- Bom - disse Mack com sarcasmo, recostando-se na cadeira. - Certamente parece que nos adaptamos muito bem a isso.
Sarayu foi rpida em responder:
- No confunda adaptao com inteno, ou seduo com realidade.
- Ento... ah, por favor, poderia me passar mais um pouco dessa verdura? ... Ento ns fomos seduzidos por essa preocupao com a autoridade?
- De certo modo, sim! - respondeu Papai, passando o prato de verduras para Mack com uma certa relutncia. - S estou cuidando de voc, filho.
Sarayu continuou:
- Quando vocs escolhem a independncia nos relacionamentos tornam-se perigosos uns para os outros. As pessoas se tornam objetos a serem manipulados ou administrados
para a felicidade de algum. A autoridade, como vocs geralmente pensam nela,  meramente a desculpa que o forte usa para fazer com que os outros se sujeitem ao
que ele quer.
- Ela no  til para impedir que as pessoas lutem interminavelmente ou se machuquem?
- s vezes. Mas num mundo egosta tambm  usada para infligir grandes danos.
- Mas vocs no a usam para conter o mal?
- Ns respeitamos cuidadosamente as suas escolhas e por isso trabalhamos dentro dos seus sistemas, ao mesmo tempo em que procuramos libert-los deles - continuou
Papai. - A Criao foi levada por um caminho muito diferente daquele que desejvamos. Em seu mundo, o valor do indivduo  constantemente medido em comparao com
sobrevivncia do sistema, seja ele poltico, econmico, social ou religioso; na verdade, de qualquer sistema. Primeiro uma pessoa, depois umas poucas e finalmente
muitas so facilmente sacrificadas pelo bem e pela permanncia do sistema. De uma forma ou de outra, isso est por trs de cada luta pelo poder, de cada preconceito,
de cada guerra e de cada abuso de relacionamento. A "vontade de poder e independncia" se tornou to disseminada que agora  considerada normal.
- E no ?
-  o paradigma humano - acrescentou Papai, aps retornar com mais comida. -  como gua para os peixes, to natural que permanece sem ser vista e questionada. 
a matriz, uma trama diablica em que vocs esto presos sem esperana, mesmo que completamente inconscientes da sua existncia.
Jesus continuou:
-        Como glria mxima da Criao, vocs foram feitos  nossa
imagem. Se realmente tivessem aprendido a considerar que as preocupaes dos outros tm tanto valor quanto as suas, no haveria necessidade de hierarquia.
Mack se recostou na cadeira, perplexo com as implicaes do que ouvia.
- Ento vocs esto me dizendo que sempre que ns, humanos usamos o poder para nos proteger...
- Esto cedendo  matriz e no a ns - terminou Jesus.
- E agora - exclamou Sarayu - completamos o crculo, voltando a uma das minhas declaraes iniciais: vocs, humanos, esto to perdidos e estragados que no conseguem
compreender um relacionamento sem hierarquia. Por isso acham que Deus se relaciona dentro de uma hierarquia, tal como vocs. Mas no somos assim.
- E como podemos mudar isso? Se abrirmos mo do poder e da hierarquia, as pessoas simplesmente vo nos usar.
- Provavelmente sim. Mas no estamos pedindo que faa isso com os outros, Mack. Pedimos que faa conosco. Este  o nico lugar onde isso pode comear. No vamos
usar voc.
- Mack - disse Papai com uma intensidade que o fez escutar com muita ateno -, queremos compartilhar com voc o amor, a alegria, a liberdade e a luz que j conhecemos
em ns. Criamos vocs, os humanos, para estarem num relacionamento de igual para igual conosco e para se juntarem ao nosso crculo de amor. Por mais difcil que
seja entender isso, tudo que aconteceu est ocorrendo exatamente segundo esse propsito, sem violar qualquer escolha ou vontade.
- Como voc pode dizer isso diante de toda a dor deste mundo, de todas as guerras e desastres que destroem milhares? - A voz de Mack baixou at um sussurro. - E
qual  o valor de uma menininha ser assassinada por um tarado? - Ali estava de novo a pergunta que abria um buraco a fogo em sua alma. - Vocs podem no causar as
coisas, mas certamente no as impedem.
- Mackenzie - respondeu Papai com ternura, aparentemente no se ofendendo com a acusao -, h milhes de motivos para permitir a dor, a mgoa e o sofrimento, em
vez de erradic-los, mas a maioria desses motivos s pode ser entendida dentro da histria de cada pessoa. Eu no sou m. Vocs  que abraam o medo, a dor, o poder
e os direitos em seus relacionamentos. Mas suas escolhas tambm no so mais fortes do que os meus propsitos, e eu usarei cada escolha que vocs fizerem para o
bem final e para o resultado mais amoroso.
- Veja s - interveio Sarayu -, os humanos feridos centram sua vida ao redor de coisas que parecem boas para eles, procurando compensao. Mas isso no ir preench-los
nem libert-los. Eles so viciados em poder, ou na iluso de segurana que o poder oferece. Quando acontece um desastre, essas mesmas pessoas vo se voltar contra
os falsos poderes nos quais confiavam. Em seu desapontamento, se suavizam com relao a mim ou se tornam mais ousados em sua independncia. Se voc ao menos pudesse
ver como tudo isso terminar e o que alcanaremos sem violar qualquer vontade humana, entenderia. Um dia entender.
- Mas o custo! - Mack estava aparvalhado. - Vejam o custo, toda a dor, todo o sofrimento, tudo que  to terrvel e mau. - Ele parou e olhou para a mesa. - E vejam
o que custou para vocs. Valeu a pena?
- Sim! - foi  resposta unnime e jubilosa dos trs.
- Mas como podem dizer isso? Desse jeito parece que o fim justifica os meios, que para obter o que querem vocs so capazes de qualquer coisa, mesmo que isso custe
 vida de bilhes de pessoas.
- Mackenzie. - Era a voz de Papai outra vez, especialmente gentil terna. - Voc realmente ainda no entende. Tenta dar sentido ao mundo em que vive baseado numa
viso pequena e incompleta da realidade.  como olhar um desfile pelo buraco minsculo da dor, da mgoa, do egocentrismo e do poder e acreditar que voc est sozinho
e  insignificante. Tudo isso contm mentiras poderosas. Voc v a dor e a morte como males definitivos, e Deus como o traidor definitivo, ou talvez, na melhor das
hipteses, como fundamentalmente indigno de confiana. Voc dita os termos, julga meus atos e me declara culpado.
Parou um instante e depois prosseguiu:
- A verdadeira falha implcita de sua vida, Mackenzie,  que voc no acha que eu sou bom. Se soubesse que eu sou bom e que tudo - os meios, os fins e todos os processos
das vidas individuais -  coberto por minha bondade, mesmo que nem sempre entenda o que estou fazendo confiaria em mim. Mas no confia.
- No? - perguntou Mack, mas no era realmente uma pergunta. Era uma declarao, e ele sabia disso. Os outros pareciam saber tambm a mesa permaneceu em silncio.
Sarayu disse:
-        Mackenzie, voc no pode "produzir" confiana, assim como no pode "fazer" humildade. Ela existe ou no. A confiana  fruto de um relacionamento em que
voc sabe que  amado. Como no sabe que eu o amo, no pode confiar em mim.
De novo se fez silncio. Por fim Mack olhou para Papai e disse:
- No sei como mudar isso.
- Voc no pode mudar, pelo menos sozinho, mas juntos vamos ver essa mudana acontecer. Por enquanto s quero que voc esteja comigo e descubra que nosso relacionamento
no tem a ver com seu desempenho nem com qualquer obrigao de me agradar. No sou um valento nem uma divindade egocntrica e exigente que insiste que as coisas
sejam feitas do jeito que eu quero. Sou boa e s desejo o que  melhor para voc. No  pela culpa, pela condenao ou pela coero que voc vai encontrar isso.
 apenas praticando um relacionamento de amor. E eu amo voc.
Sarayu se levantou da mesa e olhou diretamente para Mack.
- Mackenzie, se voc quiser, eu gostaria que viesse me ajudar no jardim. H coisas que preciso fazer l antes da celebrao de amanh. Podemos continuar nossa conversa
l fora, por favor?
- Claro - respondeu Mack, levantando-se. - Um ltimo comentrio - ele acrescentou. - Simplesmente no consigo imaginar um resultado final que justifique tudo isso.
- Mackenzie. - Papai se levantou da cadeira e rodeou a mesa para lhe dar um abrao apertado. - No estamos justificando. Estamos libertando.




H MUITO TEMPO, NUM JARDIM MUITO, MUITO DISTANTE
Mesmo que encontrssemos outro den, no teramos condio de desfrut-lo perfeitamente nem de ficar l para sempre.
                                                                  - Henry Van Dyke



Mack acompanhou Sarayu pela porta dos fundos do melhor modo que pde e seguiu pelo caminho, passando pela alia de pinheiros. Andar atrs de um ser daqueles era
como seguir um raio de sol. A luz parecia se irradiar dela e refletir sua presena numa infinidade de lugares ao mesmo tempo.
Mack concentrou-se no caminho. Enquanto rodeava as rvores, viu pela primeira vez um magnfico jardim e pomar, contido num terreno que no teria mais de 4 mil metros
quadrados. Mack imaginara um jardim em estilo ingls, perfeitamente cuidado e organizado. No era assim!
Era um caos de cores. Jorros ofuscantes de flores se espalhavam em meio a legumes, verduras e ervas plantados aleatoriamente, um tipo de vegetao que Mack nunca
vira. Era confuso, espantoso e incrivelmente lindo.
- Para mim parece uma confuso - murmurou Mack baixinho.
Sarayu parou e se virou para Mack, com o rosto glorioso.
- Mack! Obrigada! Que elogio maravilhoso! - Ela olhou o jardim ao redor. -  exatamente isso, uma confuso.
Sarayu se aproximou de uma erva, arrancou alguns brotos e virou-se para Mack.
- Papai no estava brincando no caf da manh - disse, a voz parecendo mais msica do que qualquer outra coisa. -  melhor voc mastigar essa erva por alguns minutos.
Vai se contrapor ao "movimento" natural daquelas verduras que voc comeu demais, se  que me entende.
Mack deu um risinho enquanto aceitava e com algum cuidado, comeou a mastigar.
- , mas o gosto daquelas verduras era bom demais! - Seu estmago havia comeado a se revirar um pouco. O gosto da erva no era desagradvel: uma sugesto de hortel
e alguns outros temperos que ele provavelmente j havia cheirado antes, mas que no podia identificar.
Enquanto andavam, seu estmago foi se aplacando e ele relaxou.
Sem dizer uma palavra, tentou seguir Sarayu de um lugar a outro no jardim, mas acabou se distraindo com as incrveis misturas de cores. Era tudo maravilhosamente
espantoso e inebriante.
Sarayu parecia muito concentrada numa tarefa especfica. Oscilava como um vento brincalho e ele jamais sabia exatamente para onde ela estava soprando. Achava bastante
difcil acompanh-la.
Ela se movia pelo jardim cortando vrias flores e ervas e entregando para Mack carregar. O buqu improvisado ficou bastante grande, uma linda massa aromtica diferente
de qualquer coisa que ele j havia cheirado e to forte que quase dava para sentir o gosto.
Depositaram o buqu final dentro de uma pequena oficina que Mack no havia notado antes, como se estivesse enterrada num adensamento de mato selvagem.
- Uma tarefa terminada - anunciou Sarayu - e outra pela frente.
Entregou a Mack uma p, um ancinho, uma foice e um par de luvas e flutuou por uma trilha coberta de mato que parecia ir  direo  extremidade mais distante do
jardim. Pelo caminho, s vezes diminua a velocidade para tocar uma planta ou uma flor, sempre cantarolando a msica repetitiva que havia cativado Mack na tarde
anterior. Ele seguia, obediente, levando as ferramentas.
Quando Sarayu parou, Mack quase chocou-se com ela. De algum modo Sarayu havia mudado; agora vestia roupas de trabalho: jeans com estampados loucos, uma camisa de
trabalho e luvas. Estavam num local aberto, rodeado por pereiras e cerejeiras, no meio do qual havia uma cascata de arbustos com flores roxas e amarelas de tirar
o flego.
- Mackenzie - ela apontou diretamente para o incrvel trecho florido -, gostaria que voc me ajudasse a limpar todo esse terreno. H uma coisa muito especial que
quero plantar aqui amanh, e temos de deixar tudo pronto. - Olhou para Mack e estendeu a mo para a foice.
- Voc no pode estar falando srio! Isso  to maravilhoso!
Mas Sarayu pareceu no notar. Sem mais explicaes, virou-se comeou a destruir o espetculo artstico das flores. Fazia cortes limpos, aparentemente sem esforo.
Mack deu de ombros, calou luvas e comeou a amontoar em pilhas o estrago que ela estava fazendo. Lutava para acompanhar o ritmo. Para ela talvez no fosse um esforo,
mas para ele era um trabalho estafante. Vinte minutos depois todas as plantas estavam cortadas junto s razes e o terreno parecia uma ferida no jardim. Os antebraos
de Mack estavam riscados com marcas de arranhes dos galhos que havia empilhado. Estava sem flego e suando, feliz por terminar. Sarayu parou, examinando o trabalho.
- No  empolgante? - perguntou.
- J me empolguei com coisas melhores - retrucou Mack, sarcstico.
- Ah, Mackenzie, se voc soubesse. No  o trabalho, e sim o propsito que o torna especial. E - ela sorriu -  o nico tipo que eu fao.
Mack se apoiou no ancinho, olhou o jardim ao redor e os verges vermelhos nos braos.
- Sarayu, sei que voc  o Criador. Mas voc fez as plantas venenosas, as urtigas e os mosquitos tambm?
- Mackenzie - respondeu Sarayu, parecendo se mover junto com brisa. - Para fazer algo diferente, um ser criado tem que partir do que j existe.
- Ento voc est dizendo que...
- ... Criei tudo que existe, inclusive as coisas que voc considera ruins - completou Sarayu. - Mas, quando as criei, elas eram boas, porque assim que eu sou. -
Ela pareceu quase se dobrar numa reverncia antes de retomar sua tarefa.
- Mas - continuou Mack, insatisfeito - ento por que tantas coisas boas ficaram ruins ?
Agora Sarayu parou antes de responder.
- Vocs, humanos, so verdadeiramente cegos em relao ao seu lugar na Criao. Escolheram o caminho devastado da independncia e no compreendem que esto arrastando
toda a Criao com vocs.
Ela balanou a cabea e o vento sussurrou pelas rvores prximas.
-  muito triste, mas no ser assim para sempre.
Os dois desfrutaram alguns instantes de silncio, enquanto Mack contemplava as vrias plantas ao alcance de sua vista.
- Ento existem plantas venenosas neste jardim? - perguntou.
- Ah, sim - exclamou Sarayu. - So algumas das minhas prediletas. H certas plantas perigosas ao toque, como esta aqui.  Ela estendeu a mo para um arbusto prximo
e arrancou algo que parecia um graveto morto com apenas algumas folhas minsculas que brotavam da haste. Entregou a Mack, que levantou as duas mos evitando toc-lo.
Sarayu riu.
- Eu estou aqui, Mack. H ocasies em que  seguro tocar e ocasies em que  preciso tomar precaues. Esta  a maravilha e a aventura da explorao, uma parte do
que vocs chamam de cincia: discernir e descobrir o que ns escondemos.
- Ento por que esconderam?
- Por que as crianas adoram brincar de esconde-esconde? Pergunte a qualquer pessoa que tenha paixo por explorar, descobrir e criar. Escolhemos esconder tantas
maravilhas de vocs como um ato de amor, um verdadeiro presente dentro do processo da vida.
Mack estendeu a mo cautelosamente e pegou o galho venenoso.
- Se voc no tivesse me dito que era seguro tocar, ele teria me envenenado?
- Claro! Mas, se eu o der para voc tocar,  diferente.
- Ento por que criar plantas venenosas? - perguntou Mack, devolvendo o galho.
-         Sua pergunta parte do princpio de que o veneno  algo ruim, uma coisa sem propsito. Muitas das supostas plantas ruins, como esta, contm propriedades
incrveis de curar ou so necessrias para criar maravilhas magnficas quando combinadas com outros elementos. Os humanos apressam-se em declarar que algo  bom
ou ruim sem saber de fato.
Sarayu estendeu uma p pequena para Mack e pegou o ancinho.
- Para preparar este terreno, devemos arrancar as razes de todas as plantas maravilhosas que estavam aqui.  trabalho duro, mas vale a pena. Se as razes estiverem
a, prejudicaro as sementes que iremos plantar.
- Certo - grunhiu Mack, enquanto os dois se ajoelhavam no terreno recm-limpo. De algum modo Sarayu conseguia enfiar as mos mais fundo no cho e encontrar as pontas
das razes, trazendo-as sem esforo  superfcie. Deixou as mais curtas para Mack, que usava a pazinha para arranc-las. Depois jogavam as razes numa das pilhas
que Mack havia juntado antes.
- Mais tarde vou queimar isso - disse ela.
- Antes voc estava falando que os humanos declaram que as coisas so boas ou ruins sem conhecer? - perguntou Mack, sacudindo a terra de uma raiz.
- . Estava falando especificamente da rvore do conhecimento do bem e do mal.
- A rvore do conhecimento do bem e do mal?
- Exato! - declarou ela. - E agora, Mackenzie, voc est comeando a entender por que comer o fruto mortal daquela rvore foi to devastador para a sua raa.
- Na verdade eu nunca havia pensado muito nisso - disse Mack intrigado. - Ento houve um jardim de verdade? Quer dizer, o den?
- Claro. Eu lhe disse que tenho uma queda por jardins.
- Isso vai incomodar algumas pessoas. Tenho alguns amigos que no vo gostar disso - observou Mack, enquanto lutava com uma raiz teimosa.
- No faz mal. Eu gosto muito deles.
- Estou surpreso - disse Mack com um certo sarcasmo e sorriu para ela. Cravou a p na terra, pegando com a mo a raiz que estava por cima. - Ento fale da rvore
do conhecimento do bem e do mal.
-  disso que estvamos falando no caf da manh. Primeiro quero fazer uma pergunta a voc. Quando algo lhe acontece, como voc determina se  uma coisa boa ou ruim?
Mack pensou um momento antes de responder.
- Bom, na verdade nunca pensei nisso. Acho que eu diria que algo  bom quando eu gosto, quando faz com que eu me sinta bem ou me d um sentimento de segurana. Por
outro lado, eu diria que uma coisa  ruim se me causa dor ou custa algo que eu quero.
- Ento  bastante subjetivo?
- Acho que sim.
- E at que ponto voc confia em sua capacidade de discernir o que  bom ou o que  ruim para voc?
- Para ser honesto, acho que tenho razo de ficar com raiva quando algum ameaa o que eu considero "bom", o que eu acho que mereo. Mas no sei realmente se existe
algum fundamento lgico para decidir o que  bom ou ruim, a no ser o modo como algo ou algum me afeta. - Ele parou para descansar e recuperar o flego. - Tudo
parece relacionado comigo e com meus interesses, acho. E minha ficha tambm no  das melhores. Algumas coisas que eu inicialmente achava boas acabaram sendo terrivelmente
destrutivas, e outras que eu achava ruins, bem, acabaram sendo...
Ele hesitou antes de finalizar o pensamento, mas Sarayu o interrompeu.
-        Ento  voc que determina o que  bom e o que  ruim. Voc se torna o juiz. E, para tornar as coisas ainda mais confusas, aquilo que voc determina que
seja bom acaba mudando com o tempo e as circunstncias. E, pior ainda, h bilhes de vocs, cada um determinando o que  bom e o que  ruim. Assim, quando o seu
bom e o seu ruim se chocam com os do vizinho, seguem-se brigas, discusses e at guerras.
As cores que se moviam dentro de Sarayu estavam escurecendo enquanto ela falava, pretos e cinzas se misturando e sombreando os tons de arco-ris.
-        E, se no h uma realidade do bem que seja absoluta, voc perde qualquer base para avaliar.  apenas linguagem e podemos muito bem trocar a palavra bem
pela palavra mal.
- D para perceber que isso pode ser um problema - concordou Mack
- Um problema? - disse Sarayu, quase com rispidez, enquanto se levantava e o encarava. Ela estava perturbada, mas Mack sabia que isso no era contra ele. - De fato!
A escolha de comer daquela rvore rasgou o universo, divorciando o espiritual do fsico. Eles morreram expelindo no hlito de sua escolha o prprio hlito de Deus.
Eu diria que isso  um problema!
Na intensidade de sua fala, Sarayu havia se alado lentamente do cho. Mas agora, enquanto baixava ao solo, sua voz chegou mais ntida.
-        Aquele foi um dia de grande tristeza.
Nenhum dos dois falou durante quase 10 minutos enquanto trabalhavam.  medida que continuava arrancando razes e jogando-as na pilha, a mente de Mack trabalhava
para entender as implicaes do que Sarayu havia dito. Por fim ele rompeu o silncio.
- Agora posso ver - confessou - que gastei a maior parte do meu tempo e da minha energia tentando adquirir o que eu achava que era bom, como a segurana financeira,
a sade, a aposentadoria, ou sei l o qu. E gastei uma quantidade gigantesca de energia e preocupao temendo o que determinei que fosse mau. - Mack deu um suspiro
fundo
- Quanta verdade h nisso! - disse Sarayu com gentileza. - Lembre se. Isso permite que vocs brinquem de Deus em sua independncia. Por essa razo, uma parte de
vocs prefere no me ver. E vocs no precisam de mim para criar sua lista do que  bom e ruim. Mas precisam de mim se tiverem qualquer desejo de parar com essa
nsia to insana de independncia.
- Ento h algum modo de consertar?
- Voc deve desistir de seu direito de decidir o que  bom e ruim e escolher viver apenas em mim.  um comprimido difcil de engolir. Para isso voc deve me conhecer
o bastante, a ponto de confiar em min e aprender a se entregar  minha bondade inerente.
Mack teve a impresso de que Sarayu se virou para ele.
-        Mackenzie, o mal  uma palavra que usamos para descrever a ausncia de Deus, assim como usamos a palavra escurido para descrever a ausncia de Luz, ou
morte para descrever a ausncia de Vida. Tanto o mal quanto a escurido s podem ser entendidos em relao  Luz e ao Bem. Eles no tm existncia real. Eu sou a
Luz e eu sou o Bem. Sou Amor e no h escurido em mim. A Luz e o Bem existem realmente. Assim, afastar-se de mim ir mergulhar voc na escurido. Declarar independncia
resultar no mal, porque, separado de mim, voc s pode contar consigo mesmo. Isso  morte, porque voc se separou de mim, que sou a Vida.
- Uau! - exclamou Mack, sentando-se por um momento. - Isso realmente ajuda. Mas tambm posso ver que abrir mo dos meus direitos de independncia no ser um processo
fcil. Poderia significar que...
Sarayu interrompeu a frase dele outra vez.
- ... que de alguma forma o bem pode ser a presena do cncer ou a perda de ganhos financeiros, ou mesmo de uma vida.
- , mas diga isso  pessoa com cncer ou ao pai cuja filha morreu - reagiu Mack, um pouco mais sarcasticamente do que havia pretendido.
- Ah, Mackenzie. Voc acha que ns no pensamos neles? Cada um deles era o centro de outra histria que no  contada.
- Mas - Mack podia sentir seu controle se esvaindo enquanto cravava a p com fora - Missy no tinha o direito de ser protegida?
- No, Mack. Uma criana  protegida porque  amada e no porque tem o direito de ser protegida.
Isso o fez parar. De algum modo, o que Sarayu acabara de dizer pareceu virar o mundo de cabea para baixo e ele lutou para encontrar um ponto de apoio. Sem dvida
devia haver alguns direitos aos quais ele poderia legitimamente se agarrar.
- Mas e...
- Os direitos so o que os sobreviventes procuram para no terem de trabalhar os relacionamentos - interveio ela.
- Mas, se eu abrir mo...
- Ento comear a entender a maravilha e a aventura de viver em mim - interrompeu ela de novo.
Mack estava ficando frustrado. Falou mais alto:
- Mas eu no tenho o direito de...
- De terminar uma frase sem ser interrompido? No, no tem. Na realidade, no. Mas, enquanto voc achar que tem, certamente ficar irritado quando algum o interromper,
mesmo que seja Deus.
Ele ficou perplexo e se levantou, encarando-a, sem saber se tinha um ataque de fria ou se ria. Sarayu sorriu para ele.
-        Mackenzie, Jesus no se agarrou a nenhum direito. Tornou-se um servo por livre vontade e vive seu relacionamento com Papai. Abriu mo de tudo, de modo que
ao longo de sua vida independente deixou uma porta aberta que permitiria a voc viver suficientemente livre para abdicar de seus direitos.
Nesse momento, Papai desceu pelo caminho carregando duas sacoIas de papel. Sorria enquanto se aproximava.
- Bem, pelo que vejo, vocs dois esto tendo uma conversa. - Ela piscou para Mack.
- A melhor! - exclamou Sarayu. - E adivinhe s! Ele disse que nosso jardim era uma confuso. No  perfeito?
As duas deram um largo sorriso para Mack, que ainda no tinha certeza absoluta de que no estavam brincando com ele. Sua raiva comeou a diminuir, mas ainda podia
sentir o rosto ardendo. As duas pareceram no notar.
Sarayu estendeu a mo e deu um beijo no rosto de Papai.
- Como sempre, sua noo de tempo  perfeita. Tudo que eu precisava que Mack fizesse aqui est terminado. - Virou-se para ele - Mackenzie, voc  um deleite! Obrigada
por seu trabalho duro.
- Na verdade, no fiz grande coisa - ele respondeu em tom de desculpa. - Quero dizer, olhe essa baguna. - Seu olhar passou pelo jardim que os rodeava. - Mas  realmente
lindo e pleno de voc, Sarayu. Mesmo que parea que ainda resta um monte de trabalho a ser feito sinto-me estranhamente  vontade e tranqilo aqui.
As duas se entreolharam e riram.
Sarayu foi  direo dele at invadir seu espao pessoal.
-        E no  de espantar, Mackenzie, porque este jardim  a sua alma. Esta confuso  voc! Juntos, voc e eu estivemos trabalhando com um propsito no seu corao.
E ele  selvagem, lindo e perfeitamente em evoluo. Para voc parece uma confuso, mas eu vejo um padro perfeito emergindo, crescente e vivo.
O impacto das palavras de Sarayu quase fez desmoronar todas as reservas de Mack. Ele olhou de novo o jardim das duas - seu jardim -, e era mesmo uma confuso, mas
ao mesmo tempo incrvel e maravilhoso. E, alm disso, Papai estava aqui e Sarayu adorava a confuso. Era quase demais para compreender e de novo suas emoes cuidadosamente
guardadas ameaaram se derramar.
- Mackenzie, Jesus gostaria de lev-lo num passeio, se voc quiser ir. Preparei um lanche para o caso de ficarem com fome. Deixo-o livre at a hora do ch.
Enquanto se virava para pegar as sacolas do lanche, Mack sentiu Sarayu passar, beijando seu rosto, mas no a viu ir embora. Sentiu que podia v-la avanar, como
se fosse o vento, as plantas se dobrando, uma de cada vez, parecendo cultu-la. Quando se virou de volta, Papai tambm havia sumido e por isso foi na direo da
carpintaria para ver se conseguia encontrar Jesus. Parecia que os dois tinham um compromisso.





                   ANDANDO SOBRE A GUA
Novo mundo - grande horizonte.
Abra os olhos e veja que  verdade.
Novo mundo - do outro lado das assustadoras ondas azuis.
        - David Wilcox
Jesus terminou de lixar o ltimo canto do que parecia um pequeno ba que estava numa bancada da carpintaria. Passou os dedos pela borda lisa, sorriu satisfeito e
pousou a lixa. Saiu pela porta espanando o p do jeans e da camiseta enquanto Mack se aproximava.
- Ol, Mack! Eu estava dando os ltimos retoques no meu projeto para amanh. Gostaria de dar uma volta?
Mack pensou no tempo que haviam passado juntos na vspera sob as estrelas.
 -Se voc vai, eu gostaria, sim - respondeu. - Por que vocs vivem falando sobre amanh?
-  um grande dia para voc, um dos motivos pelos quais est aqui. Vamos. H um lugar especial que quero lhe mostrar, do outro lado do lago, e o panorama  indescritvel.
De l se podem ver alguns dos pico mais altos.
- Deve ser fantstico! - respondeu Mack entusiasmado.
- Parece que voc pegou o lanche, ento podemos ir.
Em vez de se desviar para algum lado do lago, onde devia haver um trilha, Jesus foi direto ao cais. O dia estava luminoso e lindo. O sol esquentava a pele, mas no
demais, e uma brisa fresca e perfumada acariciava o rosto dos dois, suave e amorosamente.
Mack imaginou que pegariam uma das canoas presas s estacas do cais e ficou surpreso quando Jesus no hesitou ao passar pela ltima, indo diretamente para o fim
do per. Ao chegar ao final, ele se virou para Mack e riu.
- Primeiro voc - disse com um floreio e uma reverncia.
- Est brincando, no ? - reagiu Mack. - Achei que amos andar e no nadar.
- E vamos. S pensei que atravessando o lago levaria menos tempo do que rodeando.
- No sou um nadador fantstico e, alm disso, a gua parece muito fria - reclamou Mack.
- Bom - Jesus cruzou os braos -, ns dois sabemos que voc  um nadador muito capaz e que j foi salva-vidas. A gua est fria e o lago  fundo. Mas no estou falando
em nadar. Quero atravessar andando com voc.
Mack finalmente se deu conta do que Jesus estava sugerindo. Tratava-se de andar sobre a gua. Antecipando sua hesitao, Jesus afirmou:
-        Vamos, Mack. Se Pedro conseguiu...
Mack riu nervosamente. Para ter certeza, perguntou de novo: -Voc quer que eu ande sobre a gua at o outro lado.  isso que est dizendo, no ?
-        Voc entende rpido, Mack. Tenho certeza de que ningum consegue engan-lo. Venha,  divertido! - Ele riu.
Mack foi at a borda do cais e olhou para baixo. A gua batia suavemente apenas uns 30 centmetros abaixo de onde ele estava, mas era como se fossem 30 metros. A
distncia parecia enorme. Mergulhar seria fcil, ele fizera isso mil vezes, mas como se desce de um cais para a superfcie da gua? Olhou para Jesus, que ainda estava
rindo.
-        Pedro teve o mesmo problema: como sair do barco?  como descer de um degrau de escada. Nada de mais.
De novo Mack olhou para a gua e de volta para Jesus.
-        Ento por que  to difcil para mim?
- Diga do que voc tem medo, Mack.
- Bem, vejamos. Do que tenho medo? Bem, tenho medo de parecer idiota. Tenho medo de voc estar se divertindo s minhas custas e de afundar como uma pedra. Imagino
que...
- Exatamente - interrompeu Jesus. - Voc imagina. A imaginao uma capacidade poderosa!  um poder que o torna muito parecido conosco. Mas, sem sabedoria, a imaginao
 uma professora cruel. Quero lhe fazer uma pergunta: voc acha que os humanos foram criados para viver no presente, no passado ou no futuro?
- Bom - disse Mack, hesitando. - Acho que a resposta mais bvia que fomos criados para viver no presente. Estou errado?
Jesus deu um risinho.
-        Relaxe, Mack, isso no  um teste,  uma conversa. Voc est corretssimo, por sinal. Mas agora me diga onde voc passa a maior parte do tempo em sua imaginao:
no presente, no passado ou no futuro?
Mack pensou um momento antes de responder.
- Acho que eu passo muito pouco tempo no presente. Passo grande parte dele no passado, mas na maior parte do tempo estou tentando adivinhar o futuro.
- Voc no  diferente da maioria das pessoas. Quando estou com vocs, vivo no presente. No no passado, se bem que muita coisa pode ser lembrada e aprendida ao
se olhar para trs, mas somente para um visita, no para uma estada demorada. E certamente no vivo no futuro que voc visualiza ou imagina. Mack, voc percebe que
sua imaginao do futuro, que  quase sempre ditada por algum tipo de medo, raramente me coloca l com voc, se  que me coloca?
De novo Mack parou e pensou. Era verdade. Ele passava um bocado de tempo se aborrecendo e se preocupando com o futuro, e em sua imaginao o futuro geralmente era
muito sombrio, deprimente e mesmo horrvel. E Jesus tambm estava correto ao dizer que, do modo como Mack imaginava o futuro, Deus estava sempre ausente.
- Por que fao isso? - perguntou Mack.
-  sua tentativa desesperada de conseguir algum controle sobre algo que voc no pode controlar.  impossvel ter poder sobre o futuro, porque ele no  real, e
jamais ser. Voc tenta brincar de Deus imaginando que o mal que teme pode se tornar realidade e depois tenta fazer planos para evitar aquilo que teme.
-  basicamente o que Sarayu esteve dizendo. Ento por que tenho tanto medo da vida?
- Porque no acredita. No sabe que ns o amamos. A pessoa que vive dominada pelos medos no encontra liberdade no meu amor. No estou falando de medos racionais,
ligados a perigos reais, e sim de medos imaginrios, e especialmente da projeo desses medos no futuro.  medida que d lugar a esses medos, voc no acredita que
eu sou bom, nem sabe, no fundo do seu corao, que eu o amo. Voc pode at falar disso, mas no sabe.
Mack olhou de novo para a gua e soltou um suspiro enorme, que saiu do fundo da alma.
- H um longo espao para eu percorrer.
- S uns 30 centmetros,  o que me parece - riu Jesus, pondo a mo no ombro de Mack. Ele s precisava disso para descer do cais. Para tentar ver a gua como slida
e no se atrapalhar com o movimento dela, olhou para a margem distante e levantou os sacos do lanche.
O pouso foi mais suave do que ele havia pensado. Seus sapatos ficaram molhados no mesmo instante, mas a gua no subiu nem mesmo at os tornozelos. O lago ainda
se movia ao seu redor e ele quase perdeu o equilbrio por causa disso. Era estranho. Olhando para baixo, parecia que seus ps estavam sobre algo slido, mas invisvel.
Virou-se e viu Jesus ao seu lado segurando os sapatos e as meias numa das mos e sorrindo.
-        Ns sempre tiramos os sapatos e as meias antes - disse ele rindo.
Mack balanou a cabea rindo tambm enquanto se sentava de novo na beira do cais.
- Acho que vou fazer isso.
Tirou os sapatos, espremeu as meias e enrolou as pernas da cala.
Partiram levando os calados e as sacolas e caminharam para a margem oposta, a cerca de 800 metros de distncia. A gua era fresca e revigorante e fazia subir arrepios
pela coluna. Caminhar sobre a gua com Jesus parecia o modo mais natural de atravessar um lago, e Mack ria de orelha a orelha s de pensar no que estava fazendo.
-Isso  absolutamente ridculo e impossvel, voc sabe - exclame finalmente.
- Claro - confirmou Jesus, rindo tambm.
Chegaram rapidamente  outra margem e Mack parou pouco antes de atingi-la.  esquerda viu uma linda cachoeira se derramando pela borda de um penhasco e caindo at
o lago. Ao lado da cachoeira havia uma campina cheia de flores selvagens que se espalhavam ao acaso semeadas pelo vento. Tudo era espantoso e Mack ficou um momento
absorto. Uma imagem de Missy relampejou em sua mente, mas no se fixou.
Uma praia de pedrinhas esperava-os e, atrs dela, uma floresta densa e rica erguia-se at a base de uma montanha encimada pela brancura da neve recm-cada. Mack
saiu da gua para as pedras pequenas, indo cautelosamente em direo a um tronco tombado. Ali sentou-se, torceu as meias de novo e colocou-as ao lado dos sapatos
para secar ao sol de quase meio-dia.
S ento olhou para o outro lado do lago. A beleza era estonteante. Podia ver a cabana, com a fumaa subindo preguiosamente da chamin de tijolos vermelhos delineada
contra os verdes do pomar e da floresta. Fazendo tudo parecer minsculo, uma enorme cordilheira pairava acima e atrs, como sentinela montando guarda. Mack sentou-se
a lado de Jesus e impregnou-se da sinfonia visual.
- Voc faz um grande trabalho! - disse baixinho.
- Obrigado, Mack, e voc viu muito pouco. Por enquanto, a maior parte das coisas que existem no universo s ser vista e desfrutada por mim como telas especiais
guardadas nos fundos do ateli de um pintor. Mas um dia... E voc pode imaginar o que seria se a Terra no estivesse em guerra, lutando tanto para simplesmente sobreviver?
- O que voc quer dizer exatamente?
- Nossa Terra  como uma criana que cresceu sem pais, no tendo ningum para gui-la e orient-la. - Enquanto Jesus falava, sua voz se intensificava numa angstia
contida. - Alguns tentaram ajud-la, mas a maioria procurou simplesmente us-la. Os seres humanos, que receberam a tarefa de guiar amorosamente o mundo, em vez disso
o saquearam sem qualquer considerao. E pensaram pouco nos prprios filhos, que vo herdar sua falta de amor. Por isso usam e abusam da Terra e, quando ela estremece
ou reage, se ofendem e levantam os punhos contra Deus.
- Voc  ecologista? - perguntou Mack, com um certo tom de acusao.
- Esta imensa bola verde-azulada no espao negro, cheia de beleza mesmo agora, espancada, abusada e linda.
- Conheo esta msica. Voc deve se importar muito com a Criao.
- Bom, essa bola verde-azulada no espao negro pertence a mim - declarou Jesus enfaticamente.
Depois de um momento eles abriram as sacolas do lanche. Papai as enchera de sanduches e guloseimas e os dois comeram com grande apetite.
- Ento por que vocs no consertam? - perguntou Mack, mastigando o sanduche. - Quero dizer, a Terra.
- Por que ns a demos para vocs.
- No podem peg-la de volta?
- Claro que poderamos, mas ento a histria acabaria antes de ser consumada.
Mack deu um olhar vazio para Jesus.
-        J notou que, mesmo que me chamem de Senhor e Rei, eu realmente nunca agi desse modo com vocs? Nunca assumi o controle de suas escolhas nem os obriguei
a fazer nada, mesmo quando o que estavam fazendo era destrutivo para vocs mesmos e para os outros?
Mack olhou de volta para o lago antes de responder.
- Eu preferiria que s vezes voc assumisse o controle. Teria economizado um bocado de dor para mim e para as pessoas de quem eu gosto.
- Forar minha vontade sobre a de vocs  exatamente o que o amor no faz. Os relacionamentos verdadeiros so marcados pela aceitao, mesmo quando suas escolhas
no so teis nem saudveis. Esta  a beleza que voc v no meu relacionamento com Abba e Sarayu. Ns somos de fato submetidos uns aos outros, sempre fomos e sempre
s remos. Papai  to submetida a mim quanto eu a ela, ou Sarayu a mim, ou Papai a ela. Submisso no tem a ver com autoridade e no  obedincia. Tem a ver com relacionamentos
de amor e respeito. Na verdade somos igualmente submetidos a voc. Mack ficou surpreso.
- Como pode ser? Por que o Deus do universo quereria se submeter a mim?
- Porque queremos que voc se junte a ns em nosso crculo de relacionamento. No quero escravos, quero irmos e irms que compartilhem a vida comigo.
- E  assim que voc quer que ns amemos uns aos outros, no ? Quero dizer, entre maridos e esposas, pais e filhos. Em qualquer relacionamento.
- Exato! Quando sou sua vida, a submisso  a expresso mais natural do meu carter e da minha natureza, e ser a expresso mais natural de sua nova natureza dentro
dos relacionamentos.
- E o que eu mais queria era um Deus que simplesmente consertasse tudo para que ningum se ferisse. - Mack balanou a cabea ao se d conta disso. - Mas no sou bom
no campo dos relacionamentos, no sou como Nan.
Jesus terminou de comer o sanduche, fechou o saco do lanche e colocou-o ao lado, no tronco. Limpou algumas migalhas presas ao bigode e  barba curta. Depois, pegando
um pedao de pau ali perto comeou a desenhar na areia, enquanto continuava:
- Isso  porque, como a maioria dos seres humanos, voc procura realizar-se pelos seus feitos, e Nan, como a maioria das mulheres, pelos relacionamentos.  mais
naturalmente a linguagem dela. - Jesus parou para contemplar uma guia-pescadora mergulhar no lago a menos de 20 metros deles e, a seguir, lentamente elevar-se com
as garras segurando uma grande truta que ainda lutava para escapar.
- Isso significa que eu no tenho sada? Realmente quero o que vocs trs compartilham, mas no fao idia de como chegar l. - H muita coisa obstruindo o seu caminho
agora, Mack, mas voc no precisa continuar vivendo assim.
- Sei que isso  mais verdadeiro agora que Missy se foi, mas nunca foi fcil para mim.
- Voc no est simplesmente lidando com o assassinato de Missy. H uma reviravolta maior que torna difcil compartilhar da nossa vida. O mundo est partido porque
no den vocs abandonaram o relacionamento conosco para afirmar a prpria independncia. A maioria dos humanos expressou isso voltando-se para o trabalho das mos
e para o suor do rosto em busca da identidade, do valor e da segurana. Ao optar por definir o que  bom e o que  mau, vocs buscam determinar seu prprio destino.
Foi essa reviravolta que causou tanta dor.
Jesus se firmou no pedao de madeira para se levantar e parou enquanto Mack terminava de comer o sanduche e se levantava tambm. Juntos, comearam a andar pela
margem do lago.
- Mas isso no  tudo. O desejo da mulher... na verdade a palavra  a "virada". Assim, a virada da mulher no foi para a obra de suas mos e sim para o homem, e
a reao dele foi "domin-la", assumir o poder sobre ela, tornar-se o governante. Antes dessa escolha, a mulher encontrava sua identidade, sua segurana e sua compreenso
do bem e do mal apenas em mim, da mesma forma que o homem.
- No  de espantar que eu me sinta um fracasso to grande com Nan. No consigo ser isso para ela.
- Voc no foi feito para ser. E, ao tentar, estar brincando de Deus.
Mack se abaixou, pegou uma pedra chata e atirou-a ricocheteando sobre o lago.
-        H alguma sada para isso?
-         simples demais, mas nunca  fcil para vocs. A sada  voltar-se para mim. Abrir mo de seus hbitos de poder e manipulao e simplesmente voltar-se
para mim. - Jesus parecia estar implorando. - As mulheres, em geral, acham difcil dar as costas para um homem e parar de exigir que ele atenda s suas necessidades,
que proporcione segurana e proteja a identidade delas. Acham difcil retornar para mim. Os homens, por sua vez, acham muito difcil dar as costas para as obras
de suas mos, para sua busca de poder, segurana e importncia. Tambm acham difcil retornar para mim.
- Sempre me perguntei por que os homens esto no comando - ponderou Mack. - Os homens parecem ser a causa de muita dor no mundo. Cometem a maior parte dos crimes
e muitos so contra mulheres e - ele fez uma pausa - crianas.
- As mulheres - continuou Jesus enquanto pegava uma pedra e tambm a fazia ricochetear na gua - nos deram as costas em busca de outro relacionamento, ao passo que
os homens viraram-se para eles mesmos e para o cho. O mundo, em vrios sentidos, seria um lugar muito mais tranqilo e gentil se as mulheres governassem. Haveria
muito menos crianas sacrificadas aos deuses da cobia e do poder.
- Ento elas teriam realizado melhor esse papel.
- Melhor, talvez, mas ainda assim no seria suficiente. O poder nas mos dos seres humanos independentes, sejam homens ou mulheres, corrompe. Mack, voc no v que
representar papis  o contrrio do relacionamento? Queremos que homens e mulheres sejam parceiros, iguais face a face, cada qual nico e diferente, distintos em
gnero mas complementares, e cada um recebendo o poder unicamente de Sarayu, de quem se origina todo o poder e autoridade verdadeiros. Lembre-se, minha identidade
no se baseia em desempenho e eu no preciso me encaixar nas estruturas feitas pelos humanos. Eu tenho a ver com ser.  medida que voc cresce no relacionamento
comigo, o que fizer simplesmente refletir quem voc realmente .
-Mas voc veio na forma de homem. Isso no significa alguma coisa?
- Sim, mas no o que muitos imaginam. Vim como homem para completar a imagem maravilhosa de como fizemos vocs. Desde o primeiro dia escondemos a mulher no homem,
de modo que na hora certa pudssemos retir-la de dentro dele. No criamos o homem para viver sozinho. A mulher foi projetada desde o incio. Ao tir-la de dentro
dele, de certa forma ele a deu  luz. Criamos um crculo de relacionamento como o nosso, mas para os humanos. Ela saindo dele e agora todos os homens, inclusive
eu, nascidos dela, e tudo se originando ou nascendo de Deus.
- Ah, entendi - exclamou Mack, interrompendo o gesto de atirar outra pedra. - Se a mulher fosse criada primeiro, no haveria um crculo de relacionamento e no se
tornaria possvel um relacionamento totalmente igual, cara a cara, entre o homem e a mulher. Certo?
- Certssimo, Mack. - Jesus olhou-o e riu. - Nosso desejo foi criar um ser que tivesse uma contrapartida totalmente igual e poderosa: o homem e a mulher. Mas sua
independncia, com a busca de poder e de realizao, na verdade destri o relacionamento que seu corao deseja.
- A est de novo - disse Mack, procurando uma pedra mais chata. - A questo sempre volta ao poder e a como ele  oposto ao relacionamento que vocs tm entre si.
Eu adoraria experimentar isso com vocs e com Nan.
- E por essa razo est aqui.
- Gostaria que ela estivesse tambm.
- Ah, o que poderia ter sido! - meditou Jesus. Mack no teve idia do que ele queria dizer.
O silncio se instalou por alguns minutos, interrompido pelo som leve das pedras ricocheteando na gua. Jesus parou antes de jogar mais uma pedra.
-        Uma ltima coisa que eu quero que voc lembre desta conversa, Mack, antes de voc ir.
Ele jogou a pedra. Mack levantou os olhos, surpreso.
-        Antes de eu ir?
Jesus ignorou a pergunta.
- Mack, assim como o amor, a submisso no  algo que voc pode praticar, especialmente sozinho. Fora de minha vida dentro de voc, voc no pode se submeter  Nan,
ou aos seus filhos, ou a mais ningum, inclusive Papai.
- Quer dizer - exclamou Mack, um tanto sarcstico - que eu no posso simplesmente perguntar: "O que Jesus faria?"
Jesus deu um risinho.
-        Boas intenes, m idia. No deixe de me contar como a coisa
funciona para voc, se escolher esse caminho. - Parou e ficou srio. -  verdade, minha vida no se destinava a tornar-se um exemplo a copiar.
Ser meu seguidor no significa tentar "ser como Jesus", significa matar sua independncia. Eu vim lhe dar vida, vida real, minha vida. Ns viveremos nossa vida dentro
de voc, de modo que voc comece a ver com nossos olhos, ouvir com nossos ouvidos, tocar com nossas mos e pensar como ns. Mas nunca foraremos essa unio. Se voc
quiser fazer as coisas do seu jeito, tudo bem. O tempo est a nosso favor. E, por falar em tempo - Jesus virou-se e apontou para o caminho que levava at a floresta
no fim da clareira -, voc tem um compromisso. Siga aquele caminho e entre onde ele acaba. Vou esperar aqui.
Por mais que quisesse, Mack soube que no adiantaria tentar prosseguir na conversa. Num silncio pensativo, calou as meias e os sapatos. No estavam totalmente
secos, mas ofereciam algum conforto. Levantou-se sem dizer mais nada, foi na direo do fim da praia, parou um minuto para olhar de novo a cachoeira, pulou por cima
do crrego e entrou na floresta por um caminho bem cuidado e ntido.


                                OLHA O JUIZ A, GENTE
Quem decidir se colocar como juiz da Verdade e do Conhecimento  naufragado pela gargalhada dos deuses.
                                                                          - Albert Einstein
Ah, minha alma, prepare-se para encontrar Aquele que sabe fazer perguntas.
                                                                       - T. S. Eliot


Mack seguiu a trilha, que serpenteava, passando pela cachoeira, afastando-se do lago, e atravessou um denso bosque de cedros. Demorou menos de cinco minutos para
chegar a um impasse. O caminho o levou diretamente at a face de uma rocha onde havia a leve silhueta de uma porta praticamente invisvel. Obviamente ele devia entrar,
por isso estendeu a mo, hesitando, e empurrou. Sua mo simplesmente penetrou na parede e Mack continuou a se mover cautelosamente adiante at todo o seu corpo passar
pelo que parecia o slido exterior de pedra da montanha. Dentro, a escurido era to espessa que ele nada via.
Respirando fundo e com as mos estendidas  frente do corpo, aventurou-se dando pequenos passos na escurido total e parou. O medo o dominou e ele respirava com
dificuldade, sem saber se deveria prosseguir ou no. Enquanto seu estmago se apertava, sentiu de novo a Grande Tristeza pousando pesadamente em seus ombros, quase
o sufocando. Queria voltar desesperadamente para a luz, mas acreditava que Jesus no iria mand-lo para ali sem um bom propsito. Foi em frente.
Devagar, seus olhos se acostumaram com as sombras profundas e foi possvel perceber um corredor se curvando  esquerda. Enquanto seguia por ele, surgiu uma leve
luminosidade que se refletia nas paredes, vinda de algum lugar  frente.
A menos de 30 metros o tnel virou abruptamente para a esquerda e Mack se viu na borda do que imaginou ser uma caverna enorme. A iluso era ampliada pela nica luz
presente, um leve fulgor que o envolvia, mas se dissipava a menos de 3 metros em todas as direes. Para alm disso no conseguia ver nada, somente o negrume. O
ar era pesado e opressivo, com um frio de tirar o flego. Olhou para baixo e ficou aliviado ao vislumbrar o leve reflexo de uma superfcie - no a terra e a rocha
do tnel, mas um piso liso e escuro como mica polida.
Dando corajosamente um passo  frente, notou que o crculo de luz se movia com ele, iluminando um pouco mais a rea adiante. Sentindo-se mais confiante, comeou
a andar lenta e deliberadamente na direo para a qual estivera virado, concentrando-se no cho. Estava to ligado nos prprios ps que trombou num objeto e quase
caiu.
Era uma cadeira de madeira, de aparncia confortvel, no meio de... Nada. Mack decidiu rapidamente sentar-se e esperar. Ao fazer isso, a luz que o havia ajudado
continuou a se mover  frente como se ele ainda estivesse andando. Logo adiante pde ver uma escrivaninha de bano, de tamanho considervel, completamente vazia.
E deu um pulo quando a luz se concentrou num ponto e finalmente ele a viu. Atrs da mesa se encontrava uma mulher alta, linda, de pele morena, com feies hispnicas
bem marcadas, vestindo um manto largo de cores escuras. Estava sentada ereta e regia como um juiz da suprema corte. Sua beleza era estonteante.
"Ela  a beleza", pensou ele. "Tudo que a sensualidade luta para ser mas fica muito longe de conseguir."  luz fraca era difcil ver onde seu rosto comeava, como
se o cabelo e o manto emoldurassem as feies e se fundissem nelas. Os olhos brilhavam e luziam como se fossem portais para a vastido do cu estrelado, refletindo
alguma fonte de luz desconhecida dentro da mulher.
Mack no ousou falar, com medo de que sua voz fosse engolida pela intensidade do ambiente. Pensou: "Sou o camundongo Mickey em vias de falar com Pavarotti." O pensamento
o fez sorrir. Como se de algum modo o tivesse ouvido, a mulher sorriu de volta e o lugar clareou nitidamente. Foi o necessrio para Mack entender que era esperado
e bem vindo. A mulher parecia estranhamente familiar, como se ele a tivesse conhecido ou vislumbrado em algum lugar no passado, apesar de saber que nunca a vira
nem se encontrara com ela de verdade.
-        Ser que posso perguntar... Quem  voc? - disse Mack desajeitado, a voz mal deixando uma impresso no silncio da sala, mas depois permanecendo como a
sombra de um eco.
Ela ignorou a pergunta.
- Voc sabe por que est aqui? - Como uma brisa varrendo a poeira a voz dela afastou a pergunta de Mack para fora da sala. Ele quase podia sentir as palavras chovendo
sobre sua cabea e se dissolvendo na coluna vertebral, lanando arrepios deliciosos para todos os lados. Estremeceu e decidiu que no queria falar. S desejava que
ela falasse, com ele oi com qualquer um, desde que ele a ouvisse. Mas a mulher esperou.
- Voc sabe - disse ele baixinho, surpreso com a sonoridade da prpria voz e convicto de que dizia a verdade. - Eu no fao idia - acrescentou, voltando o olhar
para o cho. - Ningum me disse.
-        Bem, Mackenzie Allen Phillips - ela riu, fazendo-o levantar os
olhos rapidamente. - Estou aqui para ajud-lo.
Se um arco-ris ou uma flor desabrochando fizessem som, esse seria o som do riso dela. Era uma chuva de luz, um convite para falar, e Mack riu com ela, sem mesmo
saber ou se importar por qu.
De novo houve silncio, e o rosto da mulher, embora permanecesse suave, assumiu uma intensidade feroz, como se ela pudesse olhar no fundo dele, para alm dos fingimentos
e fachadas, at os lugares dos quais raramente se fala, se  que se fala.
- Hoje  um dia muito srio, com conseqncias srias. - Ela fez uma pausa, como para dar peso s suas palavras nitidamente pesadas - Mackenzie, voc est aqui em
parte por causa de seus filhos, mas tambm est aqui por...
- Meus filhos? - interrompeu Mack. - Como assim, estou aqui por causa dos meus filhos?
- Mackenzie, voc ama seus filhos de um modo que seu pai jamais conseguiu amar voc e suas irms.
- Claro que amo meus filhos. Todo pai ama os filhos. Mas por que isso tem a ver com o motivo de eu estar aqui?
- Em certo sentido, todo pai ama os filhos - respondeu ela, ignorando a segunda pergunta. - Mas alguns pais esto machucados demais para am-los bem, e outros mal
conseguem am-los, voc deveria saber disso. Mas voc ama seus filhos bem, muito bem.
- Aprendi muito disso com Nan.
- Sabemos. Mas aprendeu, no foi?
- Acho que sim.
- Dentre os mistrios de uma humanidade ferida, este tambm  bastante notvel: aprender, permitir a mudana. - Ela era calma como um mar sem vento. - Ento, Mackenzie,
qual de seus filhos voc mais ama?
Mack sorriu por dentro. Era uma pergunta que ele se fizera muitas vezes sem encontrar resposta.
- No amo nenhum mais do que os outros. Amo cada um de um modo diferente - disse, escolhendo as palavras com cuidado.
- Explique isso, Mackenzie - pediu ela com interesse.
- Bom, cada um dos meus filhos  nico, tem uma personalidade especial. E essa condio nica provoca uma reao nica em mim.
Mack se recostou na cadeira.
- Lembro-me de quando Jon, o primeiro, nasceu. Fiquei to maravilhado com aquele ser to pequeno e frgil que na verdade me preocupei, pensando se me restaria amor
para um segundo filho. Mas, quando Tyler chegou, foi como se trouxesse com ele um presente maravilhoso para mim, toda uma nova capacidade de am-lo especialmente.
Pensando bem,  como quando Papai diz que gosta de modo especial de algum. Quando penso em cada um dos meus filhos individualmente, descubro que gosto especialmente
de cada um.
- Muito bem, Mackenzie! - A apreciao dela era tangvel e ela prosseguiu, inclinando-se um pouco, com o tom ainda suave, porm srio. - Mas e quando eles no se
comportam, ou quando fazem escolhas diferentes das que voc gostaria que fizessem, ou quando so agressivos e grosseiros? E quando eles o embaraam na frente do
outros? Como isso afeta seu amor por eles?
 Mack respondeu lenta e decididamente:
-        Na verdade, no afeta. - Ele sabia que estava sendo sincero, mesmo que algumas vezes Katie no acreditasse. - Admito que isso me incomode e algumas vezes
fico sem graa ou com raiva, mas, mesmo quando eles agem mal, ainda so meus filhos e sero para sempre. O que fazem pode afetar meu orgulho, mas no meu amor.
Ela se recostou, rindo de orelha a orelha.
-        Voc  sbio em termos de amor verdadeiro, Mackenzie. Muito
acreditam que  o amor que cresce, mas  o conhecimento que cresce, e o amor simplesmente se expande para cont-lo. O amor  simplesmente a pele do conhecimento.
Mackenzie, voc ama seus filhos que conhece to bem com um amor maravilhoso e verdadeiro.
Meio sem graa com o elogio, Mack baixou o olhar.
- Bem, obrigado, mas no sou assim com muitas outras pessoas. Meu amor tende a ser bastante condicional na maior parte do tempo.
- Mas isso  um comeo, no , Mackenzie? E voc no ultrapassou sozinho a incapacidade de seu pai. Foram Deus e voc, juntos, que causaram essa mudana, para que
voc pudesse amar desse modo. E agora voc ama seus filhos praticamente como o Pai ama os dele.
Mack percebeu seu maxilar se apertando e sentiu de novo a raiva comear a crescer. O que deveria ter sido um elogio tranqilizador parecia mais uma plula amarga
que agora ele se recusava a engolir. Tentou relaxar para encobrir as emoes, mas, pela expresso dela, soube que era intil.
-        Hummm - murmurou a mulher. - Algo que eu disse incomodou
voc, Mackenzie? - Dessa vez o olhar dela o deixou desconfortvel.
Mack sentiu-se exposto.
O silncio que se seguiu  pergunta pairava no ar. Mack lutou para manter a compostura. Podia ouvir o conselho de sua me ressoando nos ouvidos: "Se no tiver nada
de bom para dizer, no diga nada."
- Ah... Bem, no! Na verdade, no.
- Mackenzie - instigou ela -, este no  um momento para usar o bom senso da sua me.  um momento de honestidade, de verdade. Voc no acredita que o Pai ame bem
seus filhos, no ? Voc no acredita realmente que Deus seja bom, no ?
- Missy  filha dele? - perguntou Mack rispidamente.
- Claro!
- Ento, no! - respondeu ele bruscamente, levantando-se. - No acredito que Deus ame todos os seus filhos muito bem! Tinha dito, e agora a acusao ecoava nas paredes
que poderiam existir na cmara. Enquanto Mack estava ali parado, com raiva e pronto para explodir, a mulher permaneceu calma e sem alterar a postura. Lentamente,
levantou-se da cadeira de encosto alto, passou em silncio por trs dele e o chamou.
-        Por que no se senta aqui?
Ele encarou-a com sarcasmo, mas no se mexeu.
-        Mackenzie. - Ela permaneceu de p atrs da cadeira. - Antes comecei a dizer por que voc est aqui hoje. No somente por causa dos seus filhos. Est aqui
para o julgamento.
Enquanto a palavra ecoava na cmara, o pnico subiu por dentro de Mack como um maremoto e lentamente ele se deixou afundar na cadeira. Lembranas se derramavam da
mente como ratos fugindo da enchente e no mesmo instante ele se sentiu culpado. Segurou os braos da cadeira, tentando encontrar algum equilbrio, inundado por imagens
e emoes. Seus fracassos como ser humano subitamente se tornaram enormes e no fundo da mente quase pde ouvir uma voz entoando uma lista crescente e apavorante
de pecados. No tinha defesa. Sabia que estava perdido.
- Mackenzie? - comeou ela, mas ele a interrompeu.
- Agora entendo. Estou morto, no estou? Por isso consigo ver Jesus e Papai, porque estou morto. - Ele se recostou e olhou para a escurido, sentindo-se nauseado.
- No acredito! No senti nada. - Olhou para a mulher, que o observava com pacincia. - H quanto tempo estou morto?
- Mackenzie, lamento desapont-lo, mas voc ainda no caiu no sono no seu mundo, e acredito que se enga... - De novo Mack a interrompeu:
- No estou morto? - Incrdulo, levantou-se de novo. - Quer dizer que tudo isto  real e ainda estou vivo? Mas voc disse que eu tinha vindo aqui para ser julgado.
- Disse, sim - declarou ela em tom casual, com uma expresso divertida. - Mas Macken...
- Julgamento? E nem estou morto? - Pela terceira vez ele a interrompeu, com a raiva substituindo o pnico. - No  justo! - Ele sabia que suas emoes no estavam
ajudando. - Isso acontece com outra; pessoas? Quero dizer, ser julgado antes mesmo de morrer? E se eu mudar? E se eu for melhor pelo resto da vida? E se me arrepender?
E a?
- H alguma coisa da qual voc queira se arrepender, Mackenzie? - perguntou ela, sem se abalar com a exploso.
Mack sentou-se de novo, lentamente. Olhou a superfcie lisa do cho e balanou a cabea antes de responder.
- Eu no saberia por onde comear - murmurou. - Sou uma confuso, no ?
- , sim. - Mack levantou os olhos e ela sorriu. - Voc  uma confuso gloriosa e destrutiva, Mackenzie, mas no est aqui para se arrepender pelo menos no do modo
como entende o arrependimento. Mackenzie voc no est aqui para ser julgado.
- Mas - interrompeu ele de novo. - Achei que voc disse que eu vim..
- ... aqui para o julgamento? - Ela permaneceu fresca e plcida como uma brisa de vero enquanto completava a pergunta dele. - Disse. Mas voc no est em julgamento.
Mack respirou fundo, aliviado com as palavras.
-        Voc ser o juiz.
O n no estmago retornou quando ele percebeu o que ela dissera. Por fim baixou os olhos para a cadeira que o esperava.
- O qu? Eu? - Fez uma pausa. - No tenho nenhuma capacidade de julgar.
- Ah, no  verdade - foi  resposta rpida, agora tingida por um leve sarcasmo. - Voc j se mostrou bastante capaz, mesmo no pouco tempo que passamos juntos. E,
alm disso, j julgou muitas pessoas durante a vida. Julgou os atos e at mesmo as motivaes dos outros, como se soubesse quais eram. Julgou a cor da pele, a linguagem
corporal e o odor pessoal. Julgou histrias e relacionamentos. At julgou o valor da vida de uma pessoa segundo seu conceito de beleza. Em todos os sentidos, voc
 bastante treinado nessa atividade.
Mack sentiu a vergonha avermelhando seu rosto. Tinha de admitir que j fizera um bocado de julgamentos. Mas no era diferente de mais ningum, era? Quem no julga
impulsivamente as aes e intenes dos outros? Ao levantar os olhos, viu-a espiando-o com ateno e rapidamente voltou a olhar para baixo.
-        Diga - pediu ela -, se  que posso perguntar: qual  o critrio pelo qual voc baseia seus julgamentos?
Mack tentou encar-la, mas descobriu que quando a olhava diretamente seu pensamento oscilava. Teve de desviar os olhos para a escurido do canto a sala, esperando
recuperar o controle.
- Nada que parea fazer muito sentido neste momento - admitiu finalmente, com a voz embargada. - Confesso que quando fiz aqueles julgamentos eu me sentia bastante
justificado, mas agora...
- Claro que se sentia. - Ela afirmou como uma declarao, como algo rotineiro, sem registrar sequer por um momento a evidente vergonha e perturbao dele. - Julgar
exige que voc se considere superior a quem voc julga. Bom, hoje voc ter a oportunidade de colocar toda a sua capacidade em uso. Venha - disse ela, dando um tapinha
no encosto da cadeira. - Quero que se sente aqui. Agora.
Hesitando, ele foi obedientemente at ela e a cadeira que o esperava. A cada passo parecia ficar menor. Subiu com dificuldade na cadeira e sentiu-se infantil, os
ps mal tocando o cho.
- E exatamente o que vou julgar? - perguntou, virando-se para olh-la.
- No o qu. - Ela foi para o lado da mesa. - Quem.
O desconforto de Mack crescia aos saltos e sentar-se numa cadeira solene e grande demais no ajudava. Que direito ele tinha de julgar algum? Claro, de certa forma
era culpado de julgar praticamente todo mundo que conhecera e muitos desconhecidos. Mack sabia que era totalmente culpado de ser egocntrico. Como  que ele ousava
julgar algum? Todos os seus julgamentos haviam sido superficiais, baseados na aparncia e nos atos, motivados por preconceitos, estados de esprito ou por sua necessidade
de sentir-se melhor ou superior. Estava comeando a entrar em pnico.
-        Sua imaginao - ela interrompeu seus pensamentos - no vai
ajud-lo muito neste momento.
"No brinca, Sherlock!", ele pensou ironicamente, mas tudo que saiu de sua boca foi:
- No posso fazer isso.
- Sua capacidade de fazer isso ou no ainda no foi determinada - disse ela com um sorriso. - E meu nome no  Sherlock.
Mack sentiu-se grato pela sala escura que escondia seu embarao. O silncio que se seguiu pareceu mant-lo cativo por muito mais tempo do que os poucos segundos
necessrios para encontrar a voz e finalmente fazer a pergunta:
- Ento quem devo julgar?
- Deus - ela fez uma pausa - e a raa humana. - Disse como se isso no tivesse importncia especial. As palavras simplesmente rolaram de sua lngua, como se fosse
um acontecimento cotidiano.
Mack ficou aparvalhado.
- Voc s pode estar brincando! - exclamou.
- Por que no? Sem dvida h muitas pessoas no seu mundo que voc acha que merecem julgamento. Deve haver pelo menos alguma culpadas por boa parte da dor e do sofrimento,
no ? Que tal os gananciosos que exploram os pobres do mundo? Que tal os que promovem as guerras? Que tal os homens que agridem as mulheres, Mackenzie? Que tal
os pais que batem nos filhos sem qualquer motivo alm de aplacar seu prprio sofrimento? Eles no merecem julgamento, Mackenzie?
Mack percebia a profundidade de sua raiva no resolvida subir com um jorro de fria. Afundou na cadeira tentando manter o equilbrio abalado por um tiroteio de imagens,
mas podia sentir o controle se esvaindo. Seu estmago deu um n enquanto ele fechava os punho; com a respirao curta e rpida.
- E que tal o homem que  um predador de menininhas inocentes? Que tal ele, Mackenzie? Esse homem  culpado? Ele deve ser julgado?
- Deve! - gritou Mack. - Deve ser mandado para o inferno!
-        Ele  culpado da sua perda?
- !
- E o pai dele, o homem que deformou o filho at que ele se transformasse num terror? E ele?
- , ele tambm!
- At onde devemos voltar, Mackenzie? Esse legado de deformao remonta at Ado. E ele? Mas por que pararmos aqui? E Deus? Deus comeou essa coisa toda. Deus deve
ser culpado?
Mack estava tonto. No se sentia de modo algum um juiz, e sim um ru sendo julgado. A mulher no se aplacava.
-        No  a que voc est travado, Mackenzie? No  isso que alimenta a Grande Tristeza? O fato de no poder confiar em Deus? Sem dvida, um pai como voc
pode julgar o Pai!
De novo a raiva dele subiu como uma chama gigantesca. Queria golpear alguma coisa, mas ela estava certa e no havia sentido em negar. A mulher prosseguiu:
-        Sua reclamao no  justa, Mackenzie? O fato de Deus ter fracassado com voc, ter fracassado com Missy? O fato de, antes da Criao, Deus saber que um
dia sua Missy seria brutalizada e mesmo assim a ter criado? E depois permitir que aquela alma deturpada a arrancasse de seus braos amorosos quando tinha poder para
impedir? Deus no deve ser culpado, Mackenzie?
Mack olhava para o cho, com uma avalanche de imagens empurrando seus sentimentos em todas as direes. Por fim falou, mais alto do que pretendia, e apontou o dedo
diretamente para ela.
- Sim! A culpa  de Deus! - A acusao pairou no ar enquanto o martelo de juiz batia em seu corao.
- Ento - disse ela em tom definitivo -, se voc pode julgar Deus com tanta facilidade, certamente pode julgar o mundo. - Sua voz no expressava emoo. - Voc deve
escolher dois de seus filhos para passar  eternidade no novo Cu e na nova Terra de Deus, mas apenas dois.
- O qu? - explodiu ele, incrdulo.
- E voc deve escolher trs filhos para passar a eternidade no inferno.
Mack no podia acreditar no que estava ouvindo e comeou a entrar em pnico.
- Mackenzie. - Agora a voz dela veio to calma e maravilhosa quanto na primeira vez em que ele a havia escutado. - S estou lhe pedindo para fazer uma coisa que
voc acredita que Deus faz. Ele conhece todas as pessoas j concebidas e muito mais profunda e claramente do que voc jamais conhecer seus filhos. Ele ama cada
um segundo o que conhece do ser desse filho ou dessa filha. Voc acredita que ele ir condenar a maioria a uma eternidade de tormento, para longe de Sua presena
e o Seu amor. No  verdade?
- Acho que sim. Simplesmente nunca pensei na coisa desse modo. - Ele tropeava nas palavras, chocado. - Simplesmente achei que, de algum modo, Deus poderia fazer
isso. Falar sobre o inferno era uma espcie de conversa abstrata e no sobre algum de quem eu realmente - Mack hesitou - ... E no sobre algum de quem eu realmente
gostasse.
- Ento voc acha que Deus faz isso com facilidade, mas voc no? Ande, Mackenzie. Quais de seus cinco filhos voc condenar ao inferno? Katie  a que est em maior
conflito com voc agora. Ela o trata mal e lhe disse coisas dolorosas. Talvez ela seja a primeira escolha, a mais lgica. Que tal ela? Voc  o juiz, Mackenzie,
e deve escolher.
- No quero ser juiz - disse ele, levantando-se. A mente de Mack disparava. Isso no podia ser real. Como Deus seria capaz de pedir que eu escolhesse entre os prprios
filhos? Era absolutamente impossvel condenar Katie ou qualquer um dos outros a uma eternidade no inferno simplesmente porque ela havia pecado contra ele. Mesmo
que Katie, Josh, Jon ou Tyler cometessem algum crime hediondo, ele no faria isso. No podia! Para ele, isso no tinha relao com o desempenho dos filhos. Tinha
a ver com seu amor por eles.
- No posso fazer isso - disse baixinho.
- Voc deve.
- No posso fazer isso - disse mais alto e veemente.
- Voc deve - repetiu ela, com a voz mais suave.
- Eu... no... vou... fazer... isso! - gritou Mack, com o sangue fervendo por dentro.
- Voc deve - sussurrou ela.
- No posso. No posso. No vou! - gritou ele, e agora as palavras e emoes saram num jorro.
A mulher simplesmente ficou parada, esperando. Por fim ele a encarou, implorando com os olhos.
- Eu no posso ir ao lugar deles? Se vocs precisam de algum para torturar por toda a eternidade, eu vou ao lugar deles. Pode ser? Eu poderia fazer isso? - Caiu
aos ps dela, chorando e implorando. - Por favor, deixe-me ir ao lugar dos meus filhos, por favor, eu ficaria feliz em... Por favor, estou implorando. Por favor...
Por favor...
- Mackenzie, Mackenzie - sussurrou a mulher, e suas palavras vieram como um jato de gua fria num dia de calor brutal. Suas mos tocaram gentilmente o rosto dele
enquanto ela o punha de p. Olhando-a atravs de lgrimas turvas, ele pde ver que o sorriso da mulher era radiante. - Agora voc est falando como Jesus. Voc julgou
bem, Mackenzie. Estou orgulhosa!
- Mas eu no julguei nada - disse Mack, confuso.
- Ah, julgou sim. Voc julgou que eles so merecedores de amor, mesmo que isso lhe custe tudo.  assim que Jesus ama. - Quando Mack ouviu as palavras, pensou em
seu novo amigo esperando junto do lago. - E agora voc conhece o corao de Papai - acrescentou ela -, que ama todos os filhos com perfeio.
No mesmo instante a imagem de Missy chamejou em sua mente e ele ficou tenso. Sem pensar, sentou-se de novo na cadeira.
-        O que aconteceu, Mackenzie? - perguntou ela.
Ele viu que no adiantaria esconder.
-        Entendo o amor de Jesus, mas Deus  outra histria. No acho que os dois sejam iguais, de modo nenhum.
- Voc no gostou do tempo que passou com Papai? - perguntou ela, surpresa.
- No, eu amo Papai, quem quer que ela seja. Ela  incrvel, mas no  nem um pouco como o Deus que eu conheo.
- Talvez sua idia de Deus esteja errada.
- Talvez. Simplesmente no vejo como Deus pudesse amar Missy com perfeio.
-        Ento o julgamento continua? - disse ela com tristeza na voz.
Isso fez Mack parar, mas apenas por um momento.
- O que eu deveria pensar? Simplesmente no entendo como Deus poderia amar Missy e deixar que ela passasse por aquele horror. Era uma menininha inocente. No fez
nada para merecer aquilo.
- Eu sei.
Mack prosseguiu:
- Deus usou-a para me castigar pelo que eu fiz com o meu pai? Iss no  justo. Ela no merecia. Nan no merecia. - Lgrimas escorreram pelo rosto dele. - Eu poderia
merecer, mas elas, no.
-  esse o seu Deus, Mackenzie? No  de espantar que voc esteja afogado na tristeza. Papai no  assim, Mackenzie. Ele no est castigando voc, nem Missy, nem
Nan. Isso no foi feito por ele.
- Mas ele no impediu.
- No, no impediu. Ele no impede um monte de coisas que lhe causam dor. O mundo de vocs est seriamente deturpado. Vocs exigiram a independncia e agora tm
raiva daquele que os amou o bastante para lhes dar o mundo. Nada  como deveria ser, como Papai deseja que seja e como ser um dia. Neste momento seu mundo est
perdido na escurido e no caos, e coisas horrveis acontecem com aqueles de quem ele gosta especialmente.
- Ento por que ele no faz algo a respeito?
- Ele j fez...
- Quer dizer, o que Jesus fez?
- Voc no viu os ferimentos em Papai tambm?
- No entendi os ferimentos. Como ele pde...
- Por amor. Ele escolheu o caminho da cruz, onde a misericrdia triunfa sobre a justia por causa do amor. Voc preferiria que ele tivesse escolhido a justia para
todo mundo? Voc quer justia, "Meritssimo Juiz"? - Ela sorriu ao dizer isso.
- No, no quero - ele respondeu, baixando a cabea. - No para mim e no para meus filhos.
Ela esperou.
-        Mas ainda no entendo por que Missy teve de morrer.
- Ela no teve, Mackenzie. Isso no foi nenhum plano de Papai. Papai nunca precisou do mal para realizar seus bons propsitos. Foram vocs, humanos, que abraaram
o mal, e Papai respondeu com bondade. O que aconteceu com Missy foi trabalho do mal e ningum no seu mundo est imune a ele.
- Mas di demais. Deve haver um modo melhor.
- H. Voc simplesmente no consegue ver agora. Retorne de sua independncia, Mackenzie. Desista de ser juiz de Papai e conhea-o como ele . Ento, no meio de sua
dor, voc poder abraar o amor dele, em vez de castig-lo com sua percepo egocntrica de como voc acha que o universo deveria ser. Papai se arrastou para dentro
de seu mundo para estar com vocs, para estar com Missy.
Mack se levantou da cadeira.
-        No quero mais ser juiz. Realmente quero confiar em Papai. - Sem que Mack notasse, a sala se iluminou de novo enquanto ele se movia ao redor da mesa em
direo  cadeira simples onde tudo havia comeado. - Mas vou precisar de ajuda.
Ela aproximou-se dele e o abraou.
-        Agora isso parece o incio da viagem para casa, Mackenzie. Parece mesmo.
O silncio da caverna foi subitamente rompido pelo som de risos de crianas. Parecia vir de uma das paredes que agora Mack podia ver claramente  medida que a sala
continuava a clarear. Enquanto olhava naquela direo, a superfcie da pedra foi ficando cada vez mais translcida e a luz do dia penetrou na caverna. Espantado,
Mack olhou pela nvoa e finalmente conseguiu vislumbrar as formas vagas de crianas brincando  distncia.
-        O som parece ser dos meus filhos! - exclamou perplexo. Enquanto ia a direo  parede, a nvoa se dividiu, como se algum tivesse aberto uma cortina, e
ele estava inesperadamente olhando para uma campina, na direo do lago. Na sua frente estava o pano de fundo das montanhas nevadas, perfeitas em sua majestade,
vestidas com florestas densas. E, aninhada ao p, a cabana onde ele sabia que Papai e Sarayu estariam  sua espera. Um riacho largo surgia bem  sua frente e desaguava
no lago junto de campos de flores. Os sons de pssaros estavam em toda parte e o perfume doce do vero pairava intenso no ar.
Tudo isso Mack viu, ouviu e cheirou num instante, mas ento seu olhar foi atrado para o grupo brincando perto do lugar onde o rio desaguava no lago, a menos de
50 metros dali. Viu seus filhos: Jor, Tyler, Josh e Kate. Mas espere! Havia mais algum!
Ofegante, tentou focalizar melhor. Moveu-se na direo deles, mas foi pressionado contra uma fora que no via, como se a parede de pedra ainda estivesse ali  sua
frente, invisvel. Ento ficou claro.
-        Missy!
L estava ela, chutando a gua com os ps descalos. Como se tivesse escutado, Missy se separou do grupo e veio correndo pela trilha que terminava diretamente diante
dele.
-        Ah, meu Deus! Missy! - gritou Mack e tentou avanar atravs do
vu que os separava. Para sua consternao, bateu contra a fora que no lhe permitia chegar mais perto, como se algum magnetismo aumentasse em oposio ao seu esforo,
mandando-o de volta para a sala.
-        Ela no pode ouvi-lo.
Mack no se importava.
-        Missy! - gritou. Ela estava to perto! A lembrana que estivera se esforando tanto para no perder, mas que sentia lentamente se esvaindo agora, saltou
de volta. Procurou algum tipo de maaneta, como se pudesse abrir alguma coisa e encontrar um modo de chegar  filha. Mas no havia nada.
Enquanto isso, Missy havia chegado e estava parada bem diante dele. O olhar dela se fixava em algo no meio, maior e obviamente visvel para ela, mas no para ele.
Finalmente Mack parou de lutar contra o campo de fora e virou-se para a mulher.
- Ela pode me ver? Ela sabe que estou aqui? - perguntou desesperado
- Ela sabe que voc est aqui, mas no pode v-lo. Do lado onde se encontra, Missy est olhando para a linda cachoeira e nada mais Porm sabe que voc est atrs
dela.
- Cachoeiras!  - exclamou Mack, rindo sozinho. - Ela adora cachoeiras! - Agora Mack se concentrou na filha, tentando memorizar de novo cada detalhe de sua expresso,
do cabelo e das mos. Enquanto ele fazia isso, o rosto de Missy se abriu num sorriso enorme, com as covinhas se destacando. Em cmara lenta, ele pde ver sua boca
falando sem som:
-        Est tudo bem, eu... - e ela fez sinais acompanhando as palavras -...te amo.
Era demais e Mack chorou de alegria. Mesmo assim no conseguia parar de olh-la, observando-a atravs de sua cachoeira de lgrimas. Estar to perto assim era doloroso,
v-la ali, com aquele jeito to caracterstico de Missy.
- Ela est realmente bem, no est?
- Mais do que voc imagina. Esta vida  apenas a ante-sala para uma realidade maior que vir. Ningum realiza plenamente seu prprio potencial no seu mundo.  apenas
um preparativo que Papai tinha em mente o tempo todo.
- Posso ir at ela? Talvez s um abrao e um beijo? - implorou baixinho.
- No.  assim que ela queria.
- Ela queria assim? - Mack ficou confuso.
- . A nossa Missy  uma criana muito sbia. Gosto especialmente dela.
- Tem certeza de que ela sabe que estou aqui?
- Sim, tenho certeza - garantiu a mulher. - Ela estava muito empolgada esperando este dia para brincar com os irmos e a irm e estar perto de voc. Ela gostaria
que a me tambm estivesse aqui, mas isso ter de esperar outra ocasio.
Mack se virou para a mulher.
- Meus outros filhos esto realmente aqui?
- Esto e no esto. S Missy est realmente aqui. Os outros esto sonhando e cada um ter uma vaga lembrana, alguns com mais detalhes do que outros. Este  um
momento muito pacfico de sono para cada um, menos para Kate. Este sonho no ser fcil para ela. Mas Missy est totalmente acordada.
Mack ficou olhando cada movimento feito por sua preciosa Missy.
- Ela me perdoou? - perguntou.
- Perdoou o qu?
- Eu falhei com ela - sussurrou ele.
- Seria da natureza dela perdoar se houvesse algo a perdoar, mas no h.
- Mas eu no impedi que ele a levasse. Ele a levou enquanto eu no estava prestando ateno... - sua voz ficou no ar.
- Se voc se lembra, voc estava salvando seu filho. S voc, em todo o universo, acredita que tem alguma culpa. Missy no acredita nisso nem Nan, nem Papai. Talvez
seja hora de abandonar essa mentira. E Mackenzie, mesmo que voc fosse culpado, o amor dela  muito mais forte do que a sua falha jamais poderia ser.
Nesse momento algum chamou o nome de Missy e Mack reconheceu a voz. A menina gritou de prazer e comeou a correr em direo aos outros. De repente parou e correu
de volta para o pai. Fez o gesto de um grande abrao e, com os olhos fechados, simulou um grande beijo. De trs da barreira ele a abraou tambm. Por um instante
ela ficou totalmente imvel, como se soubesse que estava lhe dando um presente. Depois acenou, virou-se e correu para os outros.
E agora Mack pde ouvir claramente a voz que havia chamado sua Missy. Era Jesus brincando no meio de seus filhos. Sem hesitar, Missy pulou no colo dele. Ele girou-a
no ar duas vezes antes de coloc-la de volta no cho, depois todo mundo riu e saram procurando pedras lisas para jogar ricocheteando na superfcie do lago. Os sons
de exuberante alegria eram uma sinfonia nos ouvidos de Mack e suas lgrimas correram livremente.
De sbito, sem aviso, a gua veio rugindo de cima, bem  sua frente e obliterou toda a viso e as vozes de seus filhos. Instintivamente ele saltou para trs. Ento
percebeu que as paredes da caverna haviam se dissolvido ao redor e ele estava numa gruta atrs da cachoeira.
Mack sentiu a mo da mulher nos ombros.
- Acabou? - perguntou ele.
- Por enquanto - respondeu ela com ternura. - Mackenzie, julgar no  destruir, mas consertar as coisas.
Mack sorriu.
- No estou mais me sentindo travado.
Ela o guiou gentilmente para a lateral da cachoeira, at que ele pde ver de novo Jesus na margem do lago ainda jogando pedras.
-        Acho que algum est esperando voc.
As mos dela apertaram seus ombros com suavidade, depois ela o soltou e, sem olhar, Mack soube que ela fora embora. Ele passou cuidadosamente sobre pedras escorregadias
e rochas molhadas at encontrar um caminho pela borda da cachoeira. Atravessou a nvoa revigorante da gua que despencava e retornou  luz do dia.
Exausto, mas profundamente realizado, Mack parou e fechou os olhos por um momento, tentando gravar indelevelmente no pensamento os detalhes da presena de Missy,
esperando que nos dias futuros pudesse trazer de volta cada momento com ela, cada nuance e cada movimento.
E subitamente sentiu muita, muita falta de Nan.




                      NA BARRIGA DAS FERAS
Os homens jamais fazem o mal to completamente e com tanta alegria como quando o fazem a partir de uma convico religiosa.
          - Blaise Pascal
Assim que abolimos Deus, o governo se torna Deus.
                                                            - G. K. Chesterton

Enquanto seguia pela trilha em direo ao lago, Mack percebeu subitamente que faltava alguma coisa. Sua companheira constante, a Grande Tristeza, havia sumido. Era
como se tivesse sido lavada na nvoa da cachoeira enquanto ele emergia por baixo da cortina de gua. A ausncia era estranha, talvez at desconfortvel. Nos anos
anteriores ela havia definido para ele o que era um estado normal, mas agora tinha desaparecido inesperadamente. "O normal  um mito", pensou.
A Grande Tristeza no faria mais parte de sua identidade. Agora sabia que Missy no se importaria se ele se recusasse a us-la. Na verdade, sua filha no iria querer
que o pai se envolvesse naquela mortalha e certamente sofreria se ele fizesse isso. Tentou imaginar quem ele passaria a ser, agora que estava se soltando de tudo
aquilo - comear cada dia sem a culpa e o desespero que haviam sugado de tudo as cores da vida.
Enquanto entrava na clareira, viu Jesus esperando, ainda jogando pedras.
- Ei, acho que o mximo que consegui foram 13 ricochetes - disse ele rindo e vindo ao encontro de Mack. - Mas Tyler conseguiu trs a mais do que eu, e Josh jogou
uma pedra que ricocheteou para to longe que a perdemos de vista. - Enquanto se abraavam, Jesus acrescentou: - Voc tem filhos especiais, Mack. Voc e Nan os amaram
muito bem. Kate est lutando, como voc sabe, mas ainda no terminamos.
A tranqilidade e a intimidade com que Jesus falava de seus filhos tocou-o profundamente.
- Ento eles foram embora? Jesus desfez o abrao e assentiu.
- , de volta para os sonhos, menos Missy, claro.
- Ela...? - comeou Mack.
- Ela ficou felicssima por estar to perto de voc e ficou empolgada em saber que voc est melhor.
Mack lutou para manter a compostura. Jesus entendeu e mudou de assunto.
- Como foi o tempo que voc passou com Sophia?
- Sophia? Ah, ento  ela! - exclamou Mack. E uma expresso perplexa surgiu em seu rosto. - Mas quer dizer que vocs so quatro? Ela  Deus tambm?
Jesus riu.
- No, Mack. Somos apenas trs. Sophia  uma personificao da sabedoria de Papai.
- Ah, como nos Provrbios, onde a Sabedoria  representada como uma mulher chamando nas ruas, tentando encontrar algum que a escute?
- Ela mesma.
- Mas - Mack parou enquanto se abaixava para desamarrar os cadaros dos sapatos - ela pareceu to real!
- Ah, ela  bastante real. - Em seguida Jesus olhou ao redor, como se quisesse ver se algum estava observando, e sussurrou: - Ela  parte do mistrio que cerca
Sarayu.
- Adoro Sarayu - exclamou Mack enquanto se levantava, meio surpreso com sua prpria transparncia.
-        Eu tambm! - declarou Jesus com nfase. Os dois voltaram 
margem e ficaram olhando em silncio para o outro lado do lago. -Foi terrvel e maravilhoso o tempo que passei com Sophia. - Mack finalmente respondeu  pergunta
que Jesus havia feito. Subitamente percebeu que o sol ainda estava alto no cu. - Exatamente quanto tempo estive l?
- Menos de 15 minutos, de modo que no foi muito. - Diante do olhar de perplexidade de Mack, Jesus acrescentou: - O tempo passado com Sophia no  como o tempo normal.
- H - grunhiu Mack. - Duvido que qualquer coisa com ela seja normal.
- Na verdade - Jesus comeou a falar mas parou para jogar uma ltima pedra ricocheteando na gua -, com ela tudo  normal e de uma simplicidade elegante. Como voc
est to perdido e independente acaba achando que at a simplicidade dela  profunda.
- Ento eu sou complexo e ela  simples. Uau! Meu mundo est mesmo de cabea para baixo. - Mack j se sentara num tronco e estava tirando os sapatos e as meias para
a caminhada. - Pode me dizer uma coisa? Estamos no meio do dia, e meus filhos estiveram aqui em sonhos? Como isso funciona? Alguma coisa disso tudo  real? Ou s
estou sonhando tambm?
De novo Jesus riu.
- No pergunte como tudo isso funciona, Mack. So coisas de Sarayu, o tempo, como voc sabe, no representa fronteiras para aquele que o criou. Voc pode perguntar
a ela, se quiser.
- No, acho que vou deixar isso esperando. S fiquei curioso. - Mack deu um risinho.
- Voc perguntou se "alguma coisa disso tudo  real". Muito mais do que voc pode imaginar. - Jesus parou um momento para captar toda a ateno de Mack. - O melhor
seria perguntar: "O que  real?"
- Estou comeando a pensar que no fao idia.
- Tudo isso seria menos "real" se estivesse dentro de um sonho?
- Acho que eu ficaria desapontado.
- Por qu? Mack, h muito mais coisas acontecendo aqui do que voc tem condies de perceber. Deixe-me garantir: tudo isso  real, muito mais real do que a vida
que voc conhece.
Mack hesitou, mas depois decidiu se arriscar e perguntou:
- H uma coisa que ainda me incomoda com relao  Missy.
Jesus veio e sentou-se no tronco ao lado dele. Mack inclinou-se e ps os cotovelos nos joelhos, olhando para as pedrinhas perto dos ps. Por fim, disse:
-        Eu fico pensando nela, sozinha naquela picape, to aterrorizada...
Jesus colocou a mo sobre o ombro de Mack e o apertou. Falou
gentilmente:
- Mack, ela jamais esteve sozinha. Eu nunca a deixei. Ns no a deixamos sequer por um instante. Eu no poderia abandon-la, nem voc, assim como no poderia abandonar
a mim mesmo.
- Ela sabia que voc estava l?
- Sim, Mack, sabia. No princpio, no. O medo era avassalador e ela estava em estado de choque. Demorou horas para chegar do acampamento at aqui. Mas, quando Sarayu
se enrolou ao redor dela, Missy se acalmou. A viagem longa nos deu chance de conversar.
Mack estava tentando apreender tudo aquilo. No se sentia mais capaz de falar.
-        Missy podia ter apenas 6 anos, mas ns somos amigos. Ns conversamos. Ela no tinha idia do que iria acontecer. Na verdade, estava mais preocupada com
voc e com as outras crianas, sabendo que vocs no poderiam encontr-la. Ela rezou por vocs, pela sua paz.
Mack chorou, lgrimas novas rolando pelo rosto. Dessa vez no se importou. Jesus puxou-o gentilmente e o abraou.
-        Mack, no creio que voc queira saber todos os detalhes. Tenho certeza de que eles no vo ajud-lo. Mas posso dizer que no houve um momento em que no
estivssemos com ela. Missy conheceu minha paz, e voc ficaria orgulhoso, porque ela foi muito corajosa!
As lgrimas escorriam soltas, mas Mack notava que agora era diferente. No estava mais sozinho. Sem qualquer constrangimento, chorou no ombro daquele homem que ele
aprendera a amar. A cada soluo, sua tenso ia se esvaindo, substituda por um profundo sentimento de alvio. Por fim respirou fundo e soltou o ar enquanto levantava
a cabea.
Ento, sem dizer mais nenhuma palavra, levantou-se, pendurou os sapatos no ombro e simplesmente entrou na gua. Ficou um pouco surpreso quando seu primeiro passo
encontrou o fundo do lago abaixo dos tornozelos, mas no se importou. Parou, enrolou as pernas da cala acima dos joelhos e deu mais um passo na gua gelada. A gua
chegou at o meio das canelas e, no passo seguinte, logo abaixo dos joelhos. Olhou para trs e viu Jesus parado na margem com os braos cruzado diante do peito,
olhando-o.
Mack virou-se e olhou para a margem oposta. No sabia por que dessa vez no tinha funcionado, mas decidiu continuar tentando. Jesus estava ali, por isso ele no
tinha com que se preocupar. A perspectiva de nadar por um espao longo e gelado no era nada empolgante, porm Mack tinha certeza de que conseguiria atravessar se
fosse necessrio.
Felizmente, quando deu o prximo passo, em vez de afundar mais ainda, subiu um pouco e, a cada passo seguinte, subiu mais, at estar de novo andando sobre a gua.
Jesus se reuniu a ele e os dois continuaram em direo  cabana.
- Isso sempre funciona melhor quando a gente faz junto, no acha? - perguntou Jesus, sorrindo.
- Estou vendo que ainda tenho mais coisas para aprender. - Mack devolveu o sorriso. Pouco importava que tivesse de atravessar o lago a nado ou andar sobre a gua,
por mais maravilhoso que isso fosse o que importava era ter Jesus ao seu lado. Talvez estivesse comeando a confiar nele.
- Obrigado por estar comigo, por falar comigo sobre Missy. Na verdade, no tenho falado sobre esse assunto com ningum.  uma histria apavorante demais. Agora j
no est com a mesma fora.
- A escurido esconde o verdadeiro tamanho dos medos, das mentiras e dos arrependimentos - explicou Jesus. - A verdade  que eles so mais sombra do que realidade,
por isso parecem maiores no escuro. Quando a luz brilha nos lugares onde eles vivem no seu interior, voc comea a ver o que so realmente.
- Mas por que ns mantemos toda essa porcaria l dentro?
- Porque acreditamos que ela est mais segura ali. E algumas vezes quando voc  uma criana tentando sobreviver, ela fica realmente mais segura no seu interior.
Depois voc cresce por fora, mas por dentro ainda  aquela criana na caverna escura, rodeada por monstros, e, como se habituou, continua aumentando sua coleo.
Todos colecionamos coisas de valor, sabe?
Isso fez Mack sorrir. Sabia que Jesus estava se referindo a algo que Sarayu havia dito sobre colecionar lgrimas.
- Ento como  que isso muda para algum que est perdido no escuro como eu?
- Na maioria das vezes, muito devagar. Lembre-se, voc no pode fazer isso sozinho. Algumas pessoas tentam todo tipo de mecanismos de enfrentamento e de jogos mentais.
Mas os monstros continuam l, s esperando a chance de sair.
- O que fao agora, ento?
- O que j est fazendo, Mack: aprendendo a viver sendo amado. No  um conceito fcil para os humanos. Voc tinha dificuldade para compartilhar qualquer coisa.
- Deu um risinho e continuou: - Portanto, sim, o que desejamos  que voc "retorne" para ns. Ento iremos fazer nossa casa dentro de voc e vamos compartilhar.
A amizade  real e no meramente imaginada. Ns fomos destinados a experimentar esta vida, a sua vida, juntos, num dilogo, compartilhando a jornada. Voc passa
a compartilhar nossa sabedoria e aprender a amar com nosso amor, e ns... ouvimos voc resmungar, se afligir, reclamar e...
Mack riu alto e empurrou Jesus de lado.
- Pare! - gritou Jesus e se imobilizou. A princpio Mack achou que poderia t-lo ofendido, mas Jesus estava olhando atentamente para a gua. - Voc viu? Olhe, a
vem de novo.
- O qu? - Mack chegou mais perto e protegeu os olhos na tentativa de ver o que Jesus estava olhando.
- Olhe! Olhe! - falou Jesus, meio que sussurrando. -  uma beleza! Deve ter uns 60 centmetros! - E ento Mack viu uma enorme truta do lago deslizando a apenas uns
50 ou 60 centmetros abaixo da superfcie, sem notar a agitao que estava provocando acima.
- Estive tentando peg-la durante semanas e a ela vem, s para me provocar. - Ele riu. Mack ficou olhando, pasmo, enquanto Jesus comeava a saltar para um lado
e para outro, tentando acompanhar o peixe. Finalmente desistiu e olhou para Mack, empolgado como um menininho. - No  fantstica? Provavelmente nunca vou conseguir
peg-la.
Mack ficou perplexo com aquela cena.
- Jesus, por que simplesmente no ordena que ela... no sei... pule no seu barco ou morda seu anzol? Voc no  o Senhor da Criao?
- Claro - disse Jesus, abaixando-se e passando a mo sobre a gua - Mas qual seria a diverso, hein? - Ele ergueu os olhos e riu.
Mack no sabia se ria ou chorava. Percebia o quanto havia passado amar aquele homem, aquele homem que tambm era Deus.
Jesus se levantou de novo e juntos continuaram andando para o cais. Mack se aventurou de novo:
- Se  que posso perguntar, por que voc no me falou sobre Missy antes? Por exemplo, ontem  noite, ou h um ano, ou...
- No pense que no tentamos. Voc j notou que, em sua dor, presume sempre o pior a meu respeito? Estive falando com voc durante longo tempo, mas hoje foi a primeira
vez que voc pde ouvir. No pense que todas aquelas outras ocasies foram um desperdcio. Com pequenas rachaduras na parede, uma de cada vez, mas entrelaada; elas
o prepararam para hoje.  preciso demorar um tempo preparando o solo se quiser que ele acolha a semente.
- No sei por que resistimos a isso, por que resistimos tanto a voa. Agora parece meio idiota.
- Tudo tem a ver com o momento da graa, Mack. Se houvesse apenas um ser humano no universo, o sentido de tempo seria bastante simples. Mas acrescente apenas mais
um e, bem, voc conhece a histria. Cada escolha cria ondulaes ao longo do tempo e dos relacionamentos, ricocheteando em outras escolhas. E, a partir do que parece
uma confuso enorme, Papai tece uma tapearia magnfica. S Papai pode resolver tudo isso e ela o faz com graa.
- Ento acho que tudo que posso fazer  segui-la - concluiu Mack.
- , esse  o ponto. Agora voc est comeando a entender o que significa ser realmente humano.
Chegaram  extremidade do cais e Jesus saltou nele, virando-se para ajudar Mack. Juntos, sentaram-se na beira e balanaram os ps descalos na gua, olhando os efeitos
do vento na superfcie do lago. Mack foi o primeiro a romper o silncio.
- Eu estava vendo o cu quando vi Missy? Era muito parecido com isso aqui.
- Bom, Mack, nosso destino final no  a imagem do Cu que voc tem na cabea. Voc sabe, a imagem de portes adornados e ruas de ouro. O Cu  uma nova purificao
do universo, de modo que vai se parecer bastante com isso aqui.
- Ento que histria  essa de portes adornados e ruas de ouro?
- Esta, irmo - comeou Jesus, deitando-se no cais e fechando os olhos por causa do calor e da claridade do dia -,  uma imagem de mim e da mulher por quem sou apaixonado.
Mack olhou para ver se ele estava brincando, mas obviamente no estava.
-  uma imagem da minha noiva, a Igreja: indivduos que juntos formam uma cidade espiritual com um rio vivo fluindo no meio e nas duas margens rvores crescendo
com frutos que curam as feridas e os sofrimentos das naes. Essa cidade est sempre aberta e cada porto que d acesso a ela  feito de uma nica prola... - Ele
abriu um olho e olhou para Mack. - Isso sou eu! - Ele percebeu a dvida de Mack e explicou: - Prolas, Mack. A nica pedra preciosa feita de dor, sofrimento e, finalmente,
morte.
- Entendi. Voc  a entrada, mas... - Mack parou, procurando as palavras certas. - Voc est falando da Igreja como essa mulher por quem est apaixonado. Tenho quase
certeza de que no conheo essa Igreja. - Ele se virou ligeiramente para o outro lado. - No  certamente o lugar aonde eu vou aos domingos - disse mais para si
mesmo, sem saber se era seguro falar em voz alta.
- Mack, isso  porque voc s est vendo a instituio, que  um sistema feito pelo ser humano. No foi isso que eu vim construir. O que vejo so as pessoas e suas
vidas, uma comunidade que vive e respira, feita de todos que me amam, e no de prdios, regras e programas.
Mack ficou meio abalado ouvindo Jesus falar de "igreja" desse modo, mas isso no chegou a surpreend-lo. De fato, foi um alvio.
- Ento como posso fazer parte dessa Igreja? Dessa mulher pela qual voc parece estar to apaixonado?
-  simples, Mack. Tudo s tem a ver com os relacionamentos e com o fato de compartilhar a vida.  exatamente o que estamos fazendo agora, simplesmente isso, sendo
abertos e disponveis um para o outro. Minha Igreja tem a ver com as pessoas e a vida tem a ver com os relacionamentos. Voc pode constru-la.  o meu trabalho e,
na verdade, sou bastante bom nisso - disse Jesus com um risinho.
Para Mack essas palavras foram como um sopro de ar puro! Simples. No um monte de rituais exaustivos e uma longa lista de exigncia, nada de reunies interminveis
com pessoas desconhecidas. Simplesmente compartilhar a vida.
-        Mas espere... - Mack tinha um monte de perguntas aflorando  sua mente. Talvez tivesse entendido mal. Parecia simples demais. Por isso pensou duas vezes
antes de mexer com o que estava comeando a entender. Fazer seu monte confuso de perguntas nesse momento seria como jogar um bocado de lama num pequeno lago de guas
lmpida
- No faz mal - foi tudo que disse.
-        Mack, voc no precisa entender tudo. Simplesmente esteja comigo.
Depois de um momento ele decidiu se juntar a Jesus e deitou-se de costas ao lado dele, abrigando os olhos do sol para espiar as nuvens que passavam no incio da
tarde.
-        Bom, para ser honesto - admitiu -, no estou desapontado, porque nunca me senti atrado pela "rua de ouro". Sempre achei meio chato. Maravilhoso mesmo 
estar aqui com voc.
Um silncio baixou enquanto Mack absorvia o momento. Pode ouvir o sussurro do vento acariciando as rvores e o riso do riacho ali perto derramando-se no lago. O
dia estava majestoso e o cenrio era incrvel.
- Realmente desejo entender. Quer dizer, acho que o modo como vocs so muito diferente de todo o negcio religioso em que fui criado e com o qual me acostumei.
- Por mais bem-intencionada que seja, voc sabe que a mquina religiosa capaz de engolir as pessoas! - disse Jesus, num tom meio cortante. - Uma quantidade enorme
das coisas que so feitas em meu nome no tm nada a ver comigo. E freqentemente so muito contrrias aos meus propsitos.
- Voc no gosta muito de religio e de instituies? - perguntou Mack, sem saber se estava fazendo uma pergunta ou uma afirmao.
- Eu no crio instituies. Nunca criei, nunca criarei.
- E a instituio do casamento?
- O casamento no  uma instituio.  um relacionamento. - Jesus fez uma pausa e retomou, com a voz firme e paciente: - Como eu disse, no crio instituies. Essa
 uma ocupao dos que querem brincar de Deus. Portanto, no, no gosto muito de religies e tambm no gosto de poltica nem de economia. - A expresso de Jesus
ficou notavelmente sombria. - E por que deveria gostar?  a trindade de terrores criada pelo ser humano que assola a Terra e engana aqueles de quem eu gosto. Quantos
tormentos e ansiedades relacionados a uma dessas trs coisas as pessoas enfrentam!
Mack hesitou. No sabia o que dizer. Tudo parecia um pouco excessivo. Notando que os olhos de Mack estavam ficando vidrados, Jesus baixou o tom.
- Falando de modo simples, religio, poltica e economia so ferramentas terrveis que muitos usam para sustentar suas iluses de segurana e controle. As pessoas
tm medo da incerteza, do futuro. Essas instituies, essas estruturas e ideologias so um esforo intil de criar algum sentimento de certeza e segurana onde nada
disso existe.  tudo falso! Os sistemas no podem oferecer segurana, s eu posso.
- Uau! - Era tudo que Mack conseguia pensar. A paisagem que ele e praticamente todo mundo que ele conhecia haviam buscado para administrar e orientar a vida estava
sendo reduzida a pouco mais do que entulho. - Ento... - Mack ainda estava processando o que ouvira, sem conseguir grande coisa. - Ento? - Transformou a palavra
numa pergunta.
- Eu vim lhes dar a vida na totalidade. Minha vida. - Mack ainda estava se esforando para entender. - A simplicidade e a pureza de desfrutar de uma amizade crescente.
- Ah, entendi!
-        Se voc tentar viver isso sem mim, sem o dilogo constante que estabelecemos ao compartilhar esta jornada juntos, ser como tentar andar sobre a gua sozinho.
Voc no pode! E quando tenta, por mais bem intencionado que seja, vai afundar. - Apesar de saber a resposta, Jesus perguntou: - Voc j tentou salvar algum que
estivesse se afogando?
Os msculos de Mack se retesaram instantaneamente. Ele no gostava de se lembrar de Josh e da canoa, e um sentimento de pnico subitamente jorrou da lembrana.
-  extremamente difcil resgatar algum, a no ser que a pessoa esteja disposta a confiar em voc.
- , sem dvida.
-  s isso que eu lhe peo. Quando voc comear a afundar, deixe me resgat-lo.
Parecia um pedido simples, mas Mack estava acostumado a ser salva-vidas e no o afogado.
- Jesus, no sei bem como...
- Deixe-me mostrar. Basta continuar me dando o pouco que voc tem e juntos vamos v-lo crescer.
Mack comeou a calar as meias e os sapatos.
- Sentado aqui com voc, neste momento, no parece to difcil. Mas quando penso na minha vida normal, em casa, no sei como manter o que voc sugere. Estou preso
na mesma necessidade de controle que todo mundo tem. Poltica, economia, sistemas sociais, contas, famlia, compromissos...  bastante esmagador. No sei como mudar
tudo isso.
- Ningum est pedindo que mude! - disse Jesus com ternura. - Esta  uma tarefa para Sarayu e ela sabe como fazer sem agredir ningum, importante  saber que tudo
 um processo e no um acontecimento. S quero que voc confie em mim o pouco que puder e que cresa no amor pelas pessoas ao seu redor com o mesmo amor que compartilho
com voc. No cabe a voc mud-las nem convenc-las. Voc est livre para amar sem qualquer obrigao.
-  isso que quero aprender.
-  mesmo. - Jesus piscou.
Jesus se levantou, espreguiou-se e Mack o imitou.
- Quantas mentiras me contaram! - admitiu ele. Jesus olhou para ele, puxou-o e o abraou.
- Eu sei, Mack, a mim tambm. Simplesmente no acreditei nelas.
Juntos, comearam a andar pelo cais. Quando se aproximavam da margem voltaram a diminuir o passo. Jesus colocou a mo no ombro de Mack e virou-o gentilmente, at
ficarem cara a cara.
- Mack, o sistema do mundo  o que . As instituies, as ideologias e todos os esforos vos e inteis da humanidade esto em toda parte e  impossvel deixar de
interagir com tudo isso. Mas eu posso lhe dar liberdade para superar qualquer sistema de poder em que voc se encontre, seja ele religioso, econmico, social ou
poltico. Voc ter uma liberdade cada vez maior de estar dentro ou fora de todos os tipos de sistemas e de se mover livremente entre eles. Juntos, voc e eu podemos
estar dentro do sistema e no fazer parte dele.
- Mas tanta gente de quem eu gosto parece fazer parte do sistema! - Mack estava pensando nos amigos, nas pessoas da igreja que haviam expressado amor por ele e por
sua famlia. Sabia que elas amavam Jesus, mas que tambm eram totalmente vendidas para a atividade religiosa e o patriotismo.
- Mack, eu as amo. E voc comete um erro julgando-as. Devemos encontrar modos de amar e servir os que esto dentro do sistema, no acha? Lembre-se, as pessoas que
me conhecem so aquelas que esto livres para viver e amar sem qualquer compromisso.
-  isso que significa ser cristo? - Achou-se meio idiota ao dizer isso, mas era como se estivesse tentando resumir tudo na cabea.
- Quem disse alguma coisa sobre ser cristo? Eu no sou cristo.
A idia pareceu estranha e inesperada para Mack e ele no pde evitar uma risada.
-        No, acho que no .
Chegaram  porta da carpintaria. De novo Jesus parou.
-        Os que me amam esto em todos os sistemas que existem. So budistas ou mrmons, batistas ou muulmanos, democratas, republicanos e muitos que no votam
nem fazem parte de qualquer instituio religiosa. Tenho seguidores que foram assassinos e muitos que eram hipcritas. H banqueiros, jogadores, americanos e iraquianos,
judeus palestinos. No tenho desejo de torn-los cristos, mas quero me juntar a eles em seu processo para se transformarem em filhos e filhas do Papai, em irmos
e irms, em meus amados.
- Isso significa que todas as estradas levam a voc?
- De jeito nenhum - sorriu Jesus enquanto estendia a mo para a porta da oficina. - A maioria das estradas no leva a lugar nenhum. O que isso significa  que eu
viajarei por qualquer estrada para encontra vocs. - Fez uma pausa. - Mack, tenho algumas coisas para terminar na carpintaria encontro voc mais tarde.
- Certo. O que quer que eu faa?
- O que quiser, Mack, a tarde  sua. - Jesus deu-lhe um tapa no ombro e riu. - Uma ltima coisa: lembra-se de antes, quando me agradeceu por t-lo deixado ver Missy?
Foi idia de Papai. - Depois de dizer isso ele se virou e acenou por cima do ombro enquanto entrava na oficina.
Mack soube instantaneamente o que queria fazer e foi para a cabana em busca de Papai.

              UM ENCONTRO DE CORAES
A falsidade tem uma infinidade de combinaes, mas a verdade s tem um modo de ser.
     - Jean-Jacques Rousseau
Enquanto se aproximava da cabana, Mack sentiu um cheiro delicioso que se desprendia de alguma coisa no forno. Talvez tivesse se passado apenas uma hora desde o almoo,
mas era como se ele no tivesse comido havia horas. O aroma da comida o conduziu at a cozinha. Mas quando chegou  porta dos fundos ficou surpreso e desapontado
ao ver que o local estava vazio.
- Tem algum a? - chamou.
- Estou na varanda, Mack - a voz de Papai veio atravs da janela aberta. - Pegue alguma coisa para beber e venha para c.
Mack se serviu de um pouco de caf e saiu para a varanda da frente. Papai estava reclinada numa velha cadeira, de olhos fechados, absorvendo o sol.
- O que  isso? Deus tem tempo de pegar um solzinho? No tem nada melhor para fazer nesta tarde?
- Voc no faz idia do que estou fazendo neste momento.
Mack se encaminhou para outra cadeira do lado oposto e, enquanto ele se sentava, Papai abriu um dos olhos. Sobre uma mesinha entre os dois havia uma bandeja cheia
de bolos de aparncia maravilhosa, manteiga fresca e vrios tipos de gelia.
- Uau, o cheiro  fantstico! - exclamou ele.
- Pode mergulhar de cabea.  uma receita que peguei da sua bisav. - Ela riu.
Mack mordeu um dos bolinhos. Ainda estava quente e praticamente derreteu na boca.
- Uau! Isso  bom! Obrigado!
- Bom, voc ter de agradecer  sua bisav quando a vir.
- Espero que no seja muito em breve - disse Mack entre duas mordidas.
- Voc no gostaria de saber? - perguntou Papai com uma piscadela brincalhona e voltando a fechar os olhos.
Enquanto comia outro bolinho, Mack juntou coragem para abrir o corao.
- Papai? - perguntou e, pela primeira vez, chamar Deus de Papai no pareceu estranho.
- Sim, Mack? - respondeu ela, abrindo os olhos e sorrindo com prazer.
- Eu fui muito duro com voc.
- Humm, Sophia deve t-lo afetado.
- Nem fale! Eu no fazia idia de que estava julgando voc. Foi terrivelmente arrogante.
- Porque voc estava mesmo - respondeu Papai com um sorriso.
- Sinto muito. Eu realmente no fazia idia... - Mack balanou a cabea, triste.
- Mas agora isso est no passado, que  o lugar onde deve estar. No quero que fique triste com isso, Mack. S quero que possamos crescer juntos.
- Tambm quero - disse Mack pegando outro bolinho. - No vai comer nenhum?
- No, v em frente. Voc sabe como , a gente vai provando uma coisa e outra e acaba usando todo o apetite. Aproveite. - Empurrou a bandeja na direo dele.
Mack pegou mais um bolinho e recostou-se para sabore-lo.
-        Jesus disse que foi voc quem me deu um tempo com Missy esta tarde. No sei como agradecer!
- Ah, de nada, querido. Isso tambm me deu uma grande alegria! Eu estava to ansiosa para colocar vocs dois juntos que mal conseguia esperar.
- Gostaria tanto que Nan estivesse aqui!
-        Teria sido perfeito! - concordou Papai, empolgada.
Ficaram em silncio por alguns instantes.
- Missy no  especial? - Ela balanou a cabea sorrindo. - Minha nossa, gosto especialmente daquela menina.
- Eu tambm! - Mack deu um sorriso largo e pensou na sua princesa atrs da cachoeira. Princesa? Cachoeira? Espere um minuto! Papai ficou olhando enquanto as peas
se encaixavam. - Obviamente voc conhece o fascnio da minha filha por cachoeiras e pela lenda da princesa Multnomah. - Papai assentiu. -  disso que se trata? Ela
teve de morrer para que voc me mudasse?
- Espere a, Mack. - Papai se inclinou. - No  assim que eu fao as coisas.
- Mas ela adorava tanto aquela histria!
- Claro que sim. Por isso ela foi capaz de entender o que Jesus fez por ela e por toda a raa humana. As histrias sobre uma pessoa disposta a trocar sua vida pela
de outra so um fio de ouro em seu mundo e revelam tanto suas necessidades quanto o meu corao.
- Mas se ela no tivesse morrido eu no estaria aqui agora...
- Mack, eu crio um bem incrvel a partir de tragdias indescritveis, mas isso no significa que as orquestre. Nunca pense que o fato de eu usar algo para um bem
maior significa que eu o provoquei ou que preciso dele para realizar meus propsitos. Essa crena s vai lev-lo a idias falsas a meu respeito. A graa no depende
da existncia do sofrimento, mas onde h sofrimento voc encontrar a graa de inmeras maneiras.
- Na verdade, isso  um alvio. Eu no suportaria pensar que minha dor poderia ter cortado a vida dela.
- Ela no foi seu sacrifcio, Mack. Ela  e sempre ser sua alegria. Este  um propsito suficiente para Missy.
Mack se recostou de novo na cadeira, examinando a vista da varanda.
-        Estou me sentindo preenchido!
- Bom, voc comeu quase todos os bolinhos.
- No  isso - ele riu -, e voc sabe. O mundo simplesmente parece mil vezes mais luminoso e estou me sentindo mil vezes mais leve.
- E est, Mack! No  fcil ser o juiz de todo o mundo.
O sorriso de Papai tranqilizou Mack, que se sentia pisando em terreno seguro.
- Ou julgar voc. Eu estava numa tremenda confuso... pior do que pensava. Havia me enganado totalmente com relao a quem voc  na minha vida.
- No totalmente, Mack. Ns tivemos alguns momentos maravilhosos tambm.
- Mas sempre gostei mais de Jesus do que de voc. Ele parecia to bondoso e voc to...
- M?  triste, no ? Jesus veio para mostrar como eu sou, e a maioria s acredita nisso com relao a ele. Ainda acham que fazemos o gnero "policial bom/policial
mau", especialmente as pessoas religiosas. Quando querem que os outros faam o que elas acham certo, precisam de um Deus severo. Quando precisam de perdo, correm
para Jesus.
-  isso mesmo - concordou Mack.
- Mas ns estvamos nele. Ele refletia exatamente o meu corao. Eu amo vocs e os convido a me amarem.
- Mas por que eu? Quer dizer, por que Mackenzie Allen Phillips? Por que voc ama algum to ferrado? Depois de todas as coisas que eu senti em relao a voc e de
todas as acusaes que fiz, por que voc se incomodaria em vir ao meu encontro?
- Porque  isso que o amor faz - respondeu Papai. - Lembre-se, Mackenzie, eu no fico pensando nas escolhas que voc far. Eu j sei. Vamos imaginar, por exemplo,
que estou tentando ensinar voc a no se esconder dentro de mentiras - ela piscou. - E digamos que eu sei que voc vai ter que passar por 47 situaes antes de me
ouvir com clareza suficiente para concordar comigo e mudar. Ento, quando na primeira vez voc no me ouve, no fico frustrada nem desapontada, fico empolgada. S
faltam 46 vezes. E essa primeira vez ser um tijolo para construir uma ponte de cura que um dia, que hoje, voc atravessar.
- Certo, agora estou me sentindo culpado - admitiu ele.
- Srio, Mackenzie, isso no tem nada a ver com culpa. A culpa jamais vai ajud-lo a encontrar a liberdade em mim. O mximo de que ela  capaz  fazer voc se esforar
mais para se ajustar a alguma tica exterior. Eu me importo com o interior.
- Mas o que voc disse... Quero dizer, sobre se esconder atrs de mentiras. Acho que fiz isso, de um modo ou de outro, durante a maior parte da vida.
- Querido, voc  um sobrevivente. No h vergonha nisso. Seu pai machucou voc de um modo feroz. A vida machucou voc. As mentiras so um dos lugares mais fceis
para onde os sobreviventes correm. Elas do um sentimento de segurana, um lugar onde voc s precisa contar consigo mesmo. Mas  um lugar escuro, no ?
- Demais - murmurou Mack balanando a cabea.
- Mas voc est disposto a abrir mo do poder e da segurana que esse lugar lhe promete? Esta  a questo.
- Como assim? - perguntou Mack olhando-a.
- As mentiras so uma pequena fortaleza onde voc pode se sentir seguro e poderoso. Dentro de sua pequena fortaleza de mentiras voc tenta governar sua vida e manipular
os outros. Mas a fortaleza precisa de muros, por isso voc constri alguns. Os muros so as justificativas para suas mentiras. Voc sabe, como se estivesse fazendo
isso para proteger algum que voc ama ou para impedir que essa pessoa sinta dor. Qualquer coisa que funcione para que voc se sinta bem com as mentiras.
- Mas o motivo pelo qual no contei a Nan sobre o bilhete foi porque isso iria lhe causar muita dor.
- Est vendo, Mackenzie, como voc precisa se justificar? O que voc disse  uma mentira descarada, mas voc no consegue ver. - Ela se inclinou para a frente. -
Quer que eu lhe diga qual  a verdade?
Mack sabia que Papai estava indo fundo, mas ainda assim sentiu alvio e ficou tentado a quase rir alto. Estava  vontade.
-        N--o - respondeu lentamente e deu um risinho para ela. - Mas v em frente, de qualquer modo.
Ela sorriu de volta, depois ficou sria.
- A verdade, Mack,  que o motivo real para voc ter mentido a Nan no foi para evitar que ela sofresse. O verdadeiro motivo foi que voc estava com medo de enfrentar
as emoes que poderiam surgir, tanto as dela quanto as suas. As emoes o amedrontam, Mack. Voc mentiu para se proteger e no para proteg-la!
Ele se recostou. Papai estava absolutamente certa.
-        E, alm disso - continuou ela - uma mentira dessas  desamor.
Tendo como justificativa o fato de se importar com Nan, sua mentira prejudicou seu relacionamento com ela e o relacionamento dela comigo. Se voc tivesse contado,
talvez ela estivesse conosco aqui, agora.
As palavras de Papai acertaram Mack como um soco no estmago.
- Voc queria que ela viesse tambm?
- Isso seria uma deciso sua e dela, se ela tivesse tido a chance de tom-la. O ponto, Mack,  que voc no sabe o que teria acontecido porque estava ocupado demais
tentando proteger a Nan.
De novo ele estava afundando na culpa.
- Ento o que fao agora?
- Conte a ela, Mackenzie. Enfrente o medo de sair do escuro e conte a ela, pea perdo e deixe que o perdo dela o cure. Pea que ela reze por voc, Mack. Assuma
os riscos da honestidade. Quando fizer outra besteira, pea perdo de novo.  um processo, querido, e a vida  suficientemente real sem precisar ser obscurecida
por mentiras. E, lembre-se, eu sou maior do que as suas mentiras. Posso agir para alm delas. Mas isso no as torna certas nem impede o dano que elas causam ou a
dor que provocam nos outros.
- E se ela no me perdoar? - Mack sabia que esse era um medo muito profundo com o qual convivia. Era mais seguro continuar lanando novas mentiras na pilha crescente
das velhas.
- Ah, esse  o risco da f, Mack. A f no cresce na casa da certeza. No estou aqui para lhe dizer que Nan vai perdo-lo. Talvez ela no queira ou no possa, mas
minha vida dentro de voc vai tomar conta do risco e da incerteza para transform-lo. Por meio de suas escolhas, voc passar a ser um contador de verdades e esse
ser um milagre muito maior do que ressuscitar os mortos.
Mack se recostou e deixou que as palavras dela assentassem.
- Por favor, perdoe-me - disse finalmente.
- J fiz isso h muito tempo, Mack. Se no acredita, pergunte a Jesus. Ele estava l.
Mack tomou um gole de caf, surpreso ao descobrir que a bebida continuava quente.
- Mas eu me esforcei tremendamente para trancar voc do lado de fora da minha vida.
- As pessoas so persistentes quando se trata de garantir sua independncia imaginria. Elas acumulam e guardam a doena como fosse um bem precioso. Encontram sua
identidade e seu valor na mutilao e os guardam com cada grama de fora que possuem. No  de espantar que a graa seja to pouco atraente. Nesse sentido voc tente
trancar a porta do seu corao por dentro.
- Mas no consegui.
- Porque meu amor  muito maior do que sua estupidez - disse Papai, com uma piscadela. - Eu usei suas escolhas para atingir meus propsitos. H muitas pessoas como
voc, Mackenzie, que terminam trancando num lugar muito pequeno com um monstro que acabar traindo-as, que no as preencher nem lhes dar o que elas imaginavam.
Quando ficam prisioneiras de um terror desses, tm de novo oportunidade de retornar para mim. O tesouro em que elas confiavam ir se tornar seu desastre.
- Ento voc usa a dor para forar as pessoas a voltar? - Era bvio que Mack no aprovava isso.
Papai se inclinou e tocou gentilmente a mo de Mack.
- Querido, eu tambm o perdoei por pensar que eu poderia ser assim. Entendo como  difcil para voc comear a perceber, quanto mais imaginar, o que so o verdadeiro
amor e a bondade. Porque voc est to perdido em suas percepes da realidade e ao mesmo tempo to seguro de seus julgamentos. O amor verdadeiro nunca fora. -
E apertou a mo dele e se recostou na cadeira.
- Mas, se eu entendi o que est dizendo, as conseqncias de nosso egosmo fazem parte do processo que nos leva ao fim de nossas iluses e nos ajuda a encontrar
voc.  por isso que voc no impede as coisas ruins que nos acontecem? Por isso no me avisou que Missy estava correndo perigo nem nos ajudou a encontr-la? - O
tom de acusao estava ausente da voz de Mack.
-        Se ao menos fosse to simples, Mackenzie! Ningum sabe de que horrores eu salvei o mundo, porque as pessoas no podem ver as coisas que jamais aconteceram.
Todo o mal decorre da independncia e a independncia foi  escolha que vocs fizeram. Se fosse simples anular todas as escolhas de independncia, o mundo que voc
conhece deixaria de existir e o amor no teria significado. O mundo no um playground onde eu mantenho todos os meus filhos livres do mal. O mal  o caos, mas
no ter a palavra final. Agora ele toca todos que eu amo,
os que me seguem e os que no me seguem. Se eu eliminar as conseqncias das escolhas das pessoas, destruo a possibilidade do amor. O amor forado no  amor.
Mack passou as mos pelos cabelos e suspirou.
-  simplesmente muito difcil de entender.
- Querido, deixe-me dizer um dos motivos pelos quais isso  to difcil de entender.  porque voc tem uma viso muito pequena do que significa ser humano. Voc
e a Criao so incrveis, quer voc entenda ou no. Vocs so absolutamente maravilhosos. S porque fazem escolhas horrendas e destrutivas, isso no significa que
meream menos respeito pelo que so por essncia: o auge da minha Criao e o centro do meu afeto.
- Mas... - comeou Mack.
- Alm disso - interrompeu ela -, no se esquea de que no meio de toda a sua dor e da sua mgoa voc est rodeado por beleza, pela maravilha da Criao, pela arte,
pela msica, pela cultura, pelos sons de riso e amor, de esperanas sussurradas e de celebraes, de vida nova e de transformaes, de reconciliao e perdo. Essas
coisas tambm so resultado de suas escolhas e toda escolha  importante, mesmo as ocultas. Ento, que escolhas no deveriam ter sido feitas, Mackenzie? Ser que
eu nunca deveria ter criado? Ser que Ado deveria ter sido impedido antes de escolher a independncia? Que tal a escolha de ter outra filha, ou a escolha de seu
pai de espancar o filho? Voc exige sua independncia, mas depois reclama por eu am-lo o bastante para responder ao seu pedido. Mack sorriu.
- J ouvi isso antes.
Papai sorriu de volta e pegou um pedao de bolo.
- Eu disse que Sophia mexeu com voc. Mackenzie, meus propsitos no existem para o meu conforto nem para o seu. Meus propsitos so sempre e somente uma expresso
de amor. Eu me proponho a trabalhar a vida a partir da morte, a trazer a liberdade de dentro do que est partido, a transformar a escurido em luz. O que voc v
como caos, eu vejo como desdobramento. Todas as coisas devem se desdobrar, ainda que isso ponha todos os que eu amo no meio de um mundo de tragdias horrveis, mesmo
os que so mais prximos de mim.
- Est falando de Jesus, no ? - perguntou Mack baixinho.
- , eu adoro aquele garoto. - Papai afastou o olhar e balanou cabea. - Tudo tem a ver com ele, voc sabe. Um dia vocs vo entender do que ele abriu mo. Simplesmente
no existem palavras.
Mack podia sentir as emoes crescendo. Algo o tocou profundamente ao ouvir Papai falar do filho. Hesitou antes de perguntar, mas finalmente rompeu o silncio:
- Papai, pode me ajudar a entender uma coisa? O que exatamente Jesus realizou ao morrer?
Ela ainda estava olhando para a floresta.
- Ah - e balanou a mo. - No muita coisa. Apenas a essncia de tudo que o amor se propunha desde antes dos alicerces da Criao - declarou Papai em tom casual.
Depois se virou e sorriu.
- Uau, isso  amplo demais. Pode diminuir s um pouquinho? - perguntou Mack, achando-se ousado assim que as palavras saram sua boca.
Em vez de ficar chateado, Papai sorriu para ele.
-        Nossa, voc est ficando metidinho! A gente d a mo e eles Iogo querem o brao.
Mack devolveu o sorriso, mas no disse nada.
- Como falei, tudo tem a ver com ele. A Criao e a histria tm tudo a ver com Jesus. Ele  o centro de nosso propsito e nele agora somos totalmente humanos, de
modo que o nosso propsito e o destino de vocs esto ligados para sempre. No existe qualquer outro plano.
- Parece bem arriscado - comentou Mack.
- Talvez para vocs, mas no para mim. Nunca houve dvida de que conseguirei o que eu desejava desde o incio. - Papai se inclinou e cruzou os braos sobre a mesa.
- Querido, voc perguntou o que Jesus realizou na cruz. Ento agora me oua com cuidado: a morte dele e sua ressurreio foram  razo pela qual eu agora estou totalmente
reconciliado com o mundo.
- Com o mundo inteiro? Quer dizer, com os que acreditam em voc, no ?
- Com o mundo inteiro, Mack. Estou dizendo que a reconciliao  uma rua de mo dupla e eu fiz a minha parte, totalmente, completamente, definitivamente. No  da
natureza do amor forar um relacionamento, mas  da natureza do amor abrir o caminho.
Aps dizer isso, Papai levantou-se e pegou alguns pratos para levar para a cozinha.
Mack balanou a cabea e ergueu os olhos.
-        Ento eu realmente no entendo o que  reconciliao e realmente morro de medo de emoes.  isso?
Papai no respondeu imediatamente, mas balanou a cabea. Mack a ouviu resmungar e murmurar, como se falasse com ela mesma:
- Homens! Algumas vezes so to idiotas!
Ele no podia acreditar.
- Ouvi Deus me chamar de idiota? - gritou pela porta de tela. Viu-a dar de ombros antes de desaparecer na virada do corredor.
Depois ela gritou em sua direo:
-        Se a carapua serve, querido. Sim senhor, se a carapua serve...
Mack riu e se recostou na cadeira. Sentia-se exausto. O tanque do crebro estava mais do que cheio, assim como o estmago. Levou o resto dos pratos para a cozinha,
depositou-os na bancada, deu um beijo no rosto de Papai e foi para a porta dos fundos.

                           VERBOS E OUTRAS LIBERDADES
                                     Deus  um Verbo.
                                                              - Buckminster Fuller
Mack saiu para o sol do meio da tarde. Sentia uma mistura estranha, como se estivesse ao mesmo tempo torcido como um trapo e plenamente vivo. Que dia incrvel tinha
sido aquele e ainda estavam no meio da tarde! Por um momento ficou indeciso, antes de ir at o lago. Quando viu as canoas amarradas ao cais, sentiu uma certa resistncia
mas  idia de entrar numa e passear pelo lago o energizou pela primeira vez em anos.
Desamarrando a ltima, na extremidade do cais, entrou cautelosamente e comeou a remar para o outro lado. Nas duas horas seguinte circulou pelo lago, explorando
recantos e fendas. Encontrou dois rios alguns crregos que, vindo de cima, alimentavam o lago e a seguir o esvaziavam na direo das bacias inferiores. Descobriu
um lugar perfeito para ficar  deriva olhando a cachoeira. Flores alpinas brotavam em toda parte, acrescentando manchas de cor  paisagem. Era o sentimento de paz
mais intenso e consistente que Mack experimentava havia uma enormidade de tempo - se  que jamais havia experimentado.
Chegou a cantar algumas msicas s porque teve vontade. Cantar tambm era algo que no fazia h muito tempo. Recuou ao passado comeou a cantarolar a musiquinha
ingnua que costumava cantar para Kate: "K-K-K-Katie... linda Katie, voc  a nica que eu adoro..."
Balanou a cabea ao pensar na filha, to forte e to frgil. Imaginou qual seria o modo de alcanar o corao dela. No se surpreendia mais com a facilidade com
que as lgrimas chegavam aos seus olhos.
Num determinado ponto virou-se para olhar os redemoinhos feitos pelo remo e quando se virou de novo Sarayu estava sentada na proa, olhando-o. Aquela presena sbita
o fez dar um pulo.
-Nossa! - exclamou ele. - Voc me assustou.
- Desculpe, Mackenzie, mas o jantar est quase pronto e  hora de voltar para a cabana.
- Voc estava comigo o tempo todo? - perguntou Mack, consciente do jorro de adrenalina.
- Claro. Sempre estou com voc.
- Ento por que no percebi? Ultimamente consigo saber quando voc est por perto.
- O fato de voc saber ou no saber no tem nada a ver com o fato de eu estar aqui. Sempre estou com voc. Algumas vezes quero que no perceba especialmente a minha
presena.
Mack assentiu, entendendo, e virou a canoa para a margem distante onde ficava a cabana. A presena dela provocava um arrepio na coluna. Os dois sorriram simultaneamente.
-        Sempre poderei ver ou ouvir voc como agora, mesmo quando
estiver de volta em casa?
Sarayu sorriu.
- Mackenzie, voc sempre pode falar comigo e eu sempre estarei com voc, quer sinta minha presena ou no.
- Agora sei disso, mas vou escutar voc?
- Vai aprender a ouvir meus pensamentos nos seus, Mackenzie - ela garantiu.
-        Vai ser claro? E se eu confundir voc com outra voz? E se eu errar?
Sarayu riu e o som parecia o de gua cascateando, como se fosse
msica.
-        Claro que voc vai errar. Todo mundo erra, mas vai comear a
reconhecer melhor minha voz  medida que nosso relacionamento for crescendo.
- No quero errar - resmungou Mack.
- Ah, Mackenzie, os erros fazem parte da vida e Papai trabalha seus propsitos neles tambm. - Sarayu estava achando divertido e Mack no pde evitar um sorriso.
Dava para entender muito bem o que ela dizia.
- Isso  muito diferente de tudo que eu conhecia, Sarayu. No me entenda mal, adoro o que vocs me deram neste fim de semana. Mas no fao idia de como voltar 
minha vida normal. Tenho a sensao de que era mais fcil viver com Deus quando eu pensava Nele como mestre exigente ou mesmo quando eu tinha que conviver com a
solido da Grande Tristeza.
- Voc acha? De verdade?
- Pelo menos dava a impresso de que as coisas estavam sob controle.
- Dava a impresso  o termo certo. O que voc ganhou com isso? Grande Tristeza e uma dor insuportvel, uma dor que se derramava ao mesmo sobre as pessoas de quem
voc mais gosta.
- Segundo Papai, isso  porque eu tenho medo de emoes. Sarayu riu alto.
- Achei aquela conversinha hilariante.
- Eu tenho medo de emoes - admitiu Mack, meio perturbado porque ela parecia no dar importncia. - No gosto da sensao que elas produzem. Magoei outros por causa
das minhas emoes e no consigo confiar nelas. Vocs criaram todas, ou s as boas?
- Mackenzie. - Sarayu pareceu se erguer no ar. Ainda era difcil olhar diretamente para ela, mas com o sol do fim da tarde se refletindo na gua ficava ainda pior.
- As emoes so as cores da alma. So espetaculares e incrveis. Quando voc no sente, o mundo fica opaco e sem cor. Pense em como a Grande Tristeza reduziu a
gama de cores na sua vida para matizes montonos, cinza e pretos.
- Ento me ajude a entend-las - implorou Mack.
- Na verdade, no h muito que entender. As emoes simplesmente so. Nem boas nem ruins, apenas existem. Eis algo que vai ajud-lo a entender melhor, Mackenzie.
Os paradigmas do fora s percepes e as percepes do fora s emoes. No se assuste, vou explica. A maioria das emoes so reaes quilo que voc percebe:
o que acha verdadeiro numa determinada situao. Se sua percepo for falsa, sua reao emocional a ela tambm ser falsa. Ento verifique suas percepes e alm
disso verifique a verdade de seus paradigmas, dos seus padres, daquilo em que voc acredita. S porque voc acredita firmemente numa coisa no significa que ela
seja verdadeira. Disponha-se a reexaminar aquilo em que acredita. Quanto mais voc viver na verdade, mais suas emoes iro ajud-lo a ver com clareza. Mas, mesmo
ento, no confie mais nelas do que em mim.
Mack deixou o remo girar nas mos, permitindo que ele seguisse os movimentos da gua.
- Tenho a impresso de que viver a partir do relacionamento com voc, confiando e falando com voc,  bem mais complicado do que simplesmente seguir as regras.
- Que regras so essas, Mackenzie?
- Voc sabe, todas as coisas que as Escrituras dizem que devemos fazer.
- Certo... - disse ela com alguma hesitao. - E quais so elas?
- Voc sabe - respondeu ele com um certo sarcasmo. - Fazer o bem e evitar o mal, ser caridoso com os pobres, ler a Bblia, rezar e ir  igreja. Coisas assim.
-        Sei. E como isso funciona para voc?
Ele riu.
- Bom, nunca fiz nada disso muito bem. Tenho momentos melhores, mas sempre h algo com que estou lutando ou algo que me faz sentir culpado. Acabei de pensar que
precisava me esforar mais, porm acho difcil manter essa motivao.
- Mackenzie! - Seu tom era de censura, as palavras voando com afeto. - A Bblia no lhe diz para seguir regras. Ela  uma imagem de Jesus. Ainda que as palavras
possam lhe dizer como Deus  e o que Ele pode querer de voc,  impossvel fazer isso sozinho. A vida est Nele e em mais ningum. Minha nossa, ser possvel que
voc se ache capaz de viver a retido de Deus sozinho?
- Bom, acho que sim, mais ou menos... - disse ele sem graa. - Mas voc tem de admitir que as regras e os princpios so mais simples do que os relacionamentos.
-         verdade que os relacionamentos so muito mais complicados de que as regras, mas as regras nunca vo lhe dar as respostas para as questes profundas do
corao. E nunca iro amar voc.
Mergulhando a mo na gua, ele brincou, vendo a repercusso de seus movimentos.
- Estou percebendo como tenho poucas respostas... para qualquer coisa. Voc me virou de cabea para baixo e pelo avesso, ou sei l o qu.
- Mackenzie, a religio tem a ver com respostas certas e algumas dessas respostas so de fato certas. Mas eu tenho a ver com o processo que leva voc  resposta
viva, e s ele  capaz de mud-lo por dentro. H muitas pessoas inteligentes que dizem um monte de coisas certas a partir do crebro porque aprenderam com algum
quais so as resposta certas. Mas essas pessoas no me conhecem. Assim, na verdade, como as respostas delas podem ser certas, mesmo que estejam certas? - Ela sorriu.
- Ficou confuso? Mas pode ter certeza: mesmo que possam estar certas, elas esto erradas.
- Entendo o que voc est dizendo. Eu fiz isso durante anos, depois da escola dominical. Tinha as respostas certas algumas vezes, mas no conhecia vocs. Este fim
de semana, compartilhando a vida com vocs foi muito mais esclarecedor do que todas aquelas respostas.
Continuaram a se mover preguiosamente na gua.
- Ento verei voc de novo? - perguntou ele, hesitando.
- Claro. Voc pode me ver numa obra de arte, na msica, no silncio, nas pessoas, na Criao, mesmo na sua alegria e na sua tristeza. Minha capacidade de me comunicar
 ilimitada, vivendo e transformando, e tudo isso sempre estar sintonizado com a bondade e o amor de Papai. E voc ir me ouvir e me ver na Bblia de modos novos.
Simplesmente no procure regras e princpios. Procure o relacionamento: um modo de estar conosco.
- Mesmo assim no ser o mesmo do que ter voc na proa de meu barco.
- No, mas ser muito melhor do que voc pode imaginar, Mackenzie. E, quando voc finalmente dormir neste mundo, teremos uma eternidade juntos, face a face.
E ento ela sumiu. Apesar de ele saber que no havia sumido de verdade.
-        Ento, por favor, ajude-me a viver na verdade - disse Mack em voz alta. "Talvez isso seja uma orao", pensou.
Quando entrou no chal, Mack viu que Jesus e Sarayu j estavam l, sentados em volta da mesa. Papai estava ocupada como sempre, trazendo pratos de comidas com cheiros
maravilhosos. Era evidente a ausncia de qualquer verdura. Mack foi para o banheiro se lavar e quando retornou os outros trs j haviam comeado a comer. Puxou a
quarta cadeira e sentou-se.
- Vocs realmente no precisam comer, no ? - perguntou, enquanto comeava a colocar em sua tigela algo que parecia uma fina sopa de frutos do mar, com lulas, peixes
e outras iguarias indefinidas.
- No precisamos fazer nada - declarou Papai com certa nfase.
- Ento por que comem?
- Para estar com voc, querido. Voc precisa comer. Ento, que desculpa melhor para ficarmos juntos?
- De qualquer modo, todos ns gostamos de cozinhar - acrescentou Jesus. - E eu gosto um bocado de comida. Nada como uns deliciosos pratos salgados para deixar felizes
as papilas gustativas. Acompanhe isso com um pudim de caramelo ou um tiramisu e ch quente. Humm! Nada pode ser melhor.
Todos riram, depois voltaram a passar os pratos e a se servir. Enquanto comia, Mack ouvia a conversa animada entre os trs. Falavam e riam como velhos amigos que
se gostavam e se conheciam mais intimamente do que qualquer outro ser humano. Mack sentia inveja da conversa despreocupada mas respeitosa e se perguntou o que seria
necessrio para compartilhar isso com Nan e talvez at com alguns amigos.
De novo ficou pasmo com a maravilha e o puro absurdo do momento. Voltavam-lhe  mente as conversas incrveis que o haviam envolvido nas 24 horas anteriores. Uau!
S estivera ali por um dia? E o que deveria fazer com isso quando voltasse para casa? Sabia que contaria tudo a Nan. Ela podia no acreditar e Mack no iria culp-la,
pois ele provavelmente tambm no acreditaria.
 medida que sua mente ia acelerando, ele sentiu que se afastava dos outros e fechou os olhos. Nada disso podia ser real. De repente houve um silncio de morte.
Abriu devagar um dos olhos, esperando acordar de novo em casa. Em vez disso, Papai, Jesus e Sarayu o estavam encarando com sorrisos no rosto. Ele nem tentou se explicar.
Sabia que eles sabiam.
Em vez disso, apontou para um dos pratos e perguntou:
-        Posso experimentar um pouco disso?
As interaes foram retomadas e dessa vez ele escutou. Mas de novo sentiu que ia se afastando. Para reagir, decidiu fazer uma pergunta.
- Por que vocs nos amam, os humanos? Eu acho... - Percebeu que no havia formulado bem a pergunta. - Acho que o que eu quero perguntar : por que vocs me amam,
quando no tenho nada para lhes oferecer?
- Pense um pouco nisso, Mack - respondeu Jesus. - Voc no experimenta uma forte sensao de liberdade ao saber que no pode nos oferecer nada, pelo menos nada capaz
de acrescentar ou diminuir o que somos? Isso deve trazer um grande alvio, porque elimina qualquer exigncia de comportamento.
- E voc ama mais os seus filhos quando eles se comportam bem? - acrescentou Papai.
- No. Estou entendendo. - Mack fez uma pausa. - Mas eu me sinto mais realizado porque eles esto na minha vida. E vocs?
- No - respondeu Papai. - J somos totalmente realizados em ns mesmos. Vocs esto destinados a viver em comunho tambm, j que so feitos  nossa imagem. Assim,
sentir isso por seus filhos ou por qualquer coisa que "acrescente"  perfeitamente natural e certo. Lembre-se, Mackenzie, que por natureza eu no sou um ser humano,
apesar de termos escolhido estar com voc neste fim de semana. Sou verdadeiramente humano em Jesus, mas sou algo totalmente separado em minha natureza.
- Voc sabe, claro que sabe - disse Mack em tom de desculpa -, que eu s posso seguir essa linha de raciocnio at um determinado ponto e depois me perco e meu crebro
parece derreter.
-        Entendo - admitiu Papai. -  impossvel compreender com a
mente algo que voc no pode experimentar.
Mack pensou nisso por um momento.
- Acho que sim... Pois ... Est vendo? Est derretendo.
Quando os outros pararam de rir, Mack prosseguiu:
-        Vocs sabem como me sinto grato por tudo, mas jogaram coisas demais no meu colo neste fim de semana. O que fao quando voltar? Qual  sua expectativa com
relao a mim, agora?
Jesus e Papai se viraram para Sarayu, que estava com o garfo cheio de alguma coisa a caminho da boca. Ela pousou-o lentamente de volta no prato e depois respondeu
 expresso confusa de Mack.
- Mack - comeou ela -, voc deve perdoar esses dois. Os humanos tm uma tendncia a estruturar a linguagem de acordo com sua independncia e com sua necessidade
de comportamento. Assim, quando ouo a linguagem sofrer abusos em favor das regras e no ser usada para compartilhar a vida conosco,  difcil permanecer em silncio.
- Como deve ser - acrescentou Papai.
- Ento o que foi exatamente que eu disse? - perguntou Mack, agora bastante curioso.
- Mack, v em frente e termine de mastigar. Ns podemos conversar enquanto voc come.
Mack percebeu que tambm estava com o garfo a caminho da boca. Mastigou agradecido o bocado enquanto Sarayu comeava a falar.  medida que fazia isso, ela pareceu
se alar da cadeira e tremeluzir com uma dana de tons e cores sutis, enchendo suavemente a sala com uma variedade de aromas.
- Deixe-me responder com uma pergunta. Por que voc acha que ns criamos os Dez Mandamentos?
De novo Mack estava com o garfo a meio caminho da boca, mas mesmo assim mastigou o bocado enquanto pensava na resposta.
- Acho, pelo menos foi o que me ensinaram, que  um conjunto de regras que vocs esperavam que os humanos obedecessem para viver com retido e em estado de graa
perante vocs.
- Se isso fosse verdade, e no  - respondeu Sarayu -, quantos voc acha que viveram com retido suficiente para entrar em nossas boas graas?
- No muitos, se as pessoas so como eu.
- Na verdade, s um conseguiu: Jesus. Ele obedeceu  letra da lei e realizou completamente o esprito dela. Mas entenda, Mackenzie: para fazer isso, ele teve de
confiar totalmente em mim e depender totalmente de mim.
- Ento por que vocs nos deram esses mandamentos?
- Na verdade, queramos que vocs desistissem de tentar ser justos sozinhos. Era um espelho para revelar como o rosto fica imundo quando se vive com independncia.
- Mas tenho certeza de que vocs sabem que h muitos que acham que se tornam justos seguindo as regras.
- Mas  possvel limpar o rosto com o mesmo espelho que mostra como voc est sujo? No h misericrdia nem graa nas regras, nem mesmo para um erro. Por isso Jesus
realizou todas elas por vocs, para que elas no tivessem mais poder sobre vocs.
Agora ela estava com fora total, s feies crescendo e movendo-se.
- Mas tenha em mente que, se voc viver sua vida sozinho e de forma independente, a promessa  vazia. Jesus afastou a exigncia da lei. Ela no tem mais poder de
acusar ou comandar. Jesus  a promessa e o cumprimento.
- Est dizendo que no preciso seguir as regras? - Agora Mack havia parado completamente de comer e estava concentrado na conversa.
- Sim. Em Jesus voc no est sob nenhuma lei. Todas as coisas so legtimas.
- No pode estar falando srio! - gemeu Mack.
- Criana - interrompeu Papai -, voc ainda no ouviu nada.
- Mackenzie - continuou Sarayu -, s tm medo da liberdade os que no podem confiar que ns vivemos neles. Tentar manter a lei  na verdade uma declarao de independncia,
um modo de manter o controle.
-  por isso que gostamos tanto da lei? Para nos dar algum controle? - perguntou Mack.
- muito pior do que isso - retomou Sarayu. - Ela d o poder de julgar os outros e de se sentir superior a eles. Vocs acreditam que esto vivendo num padro mais
elevado do que aqueles a quem vocs julgam. Aplicar regras, sobretudo em suas expresses mais sutis, como responsabilidade e expectativa,  uma tentativa intil
de criar a certeza a partir da incerteza. E, ao contrrio do que voc possa pensar, eu gosto demais da incerteza. As regras no podem trazer a liberdade. Elas s
tm o poder de acusar.
- Uau! - De repente Mack percebeu o que Sarayu havia dito. - Est dizendo que a responsabilidade e a expectativa so apenas outra forma de regras? Ouvi direito?
-  - exclamou Papai de novo. - Agora chegamos ao ponto: Sarayu, ele  todo seu!
Mack procurou concentrar-se em Sarayu, o que no era uma tarefa simples.
Sarayu sorriu para Papai e de novo para Mack. Comeou a falar lenta e decididamente:
- Mackenzie, eu sempre prefiro um verbo a um substantivo. Parou e esperou. Mack no tinha muita certeza de ter entendido.
- Hein?
-        Eu - ela abriu as mos para incluir Jesus e Papai - sou um verbo. Sou o que sou. Serei o que serei. Sou um verbo! Sou viva, dinmica, sempre ativa e em
movimento. Sou um ser-verbo.
Mack tinha uma expresso vazia no rosto. Entendia as palavras, mas ainda no achava o sentido.
-        E, como minha essncia  um verbo - continuou ela -, sou mais ligada a verbos do que a substantivos. Verbos como confessar, arrepender-se, viver, amar,
responder, crescer, colher, mudar, semear, correr, danar, cantar e assim por diante. Os humanos, por outro lado, gostam de pegar um verbo vivo e cheio de graa
e transform-lo num substantivo ou num princpio morto que fede a regras. Os substantivos existem porque existe um universo criado e uma realidade fsica, mas, se
o universo for apenas uma massa de substantivos, ele est morto. A no ser "eu sou", no existem verbos e os verbos so o que torna o universo vivo.
- E... - Mack ainda estava lutando, mas pareceu que um brilho de luz comeava a iluminar seu pensamento. - E isso significa exatamente o qu?
Sarayu pareceu no se perturbar com sua falta de entendimento.
- Para que alguma coisa se mova da morte para a vida, voc precisa colocar algo vivo e mvel na mistura. Passar de uma coisa que  apenas um substantivo para algo
dinmico e imprevisvel, para algo vivo e no tempo presente - um verbo -,  mover-se da lei para a graa. Posso dar alguns exemplos?
- Por favor. Sou todo ouvidos.
Jesus deu um risinho e Mack piscou para ele antes de se voltar para Sarayu. A sombra levssima de um sorriso atravessou o rosto dela enquanto retomava:
- Ento vamos usar suas duas palavras: responsabilidade e expectativa. Antes que suas palavras se tornassem substantivos, eram nomes que continham movimento e experincia:
a capacidade de reagir e a prontido. Minhas palavras so vivas e dinmicas, cheias de vida e possibilidades. As suas so mortas, cheias de leis, medo e julgamento.
Por isso voc no encontrar a palavra responsabilidade nas Escrituras.
- Minha nossa! - Mack franziu a testa, comeando a perceber aonde isso ia dar. - Por outro lado, ns a usamos um bocado.
Ela continuou:
- A religio usa a lei para ganhar fora e controlar as pessoas de que precisa para sobreviver. Eu, ao contrrio, dou a capacidade de reagir e sua reao  estar
livre para amar e servir em todas as situaes. Por isso, cada momento  diferente, nico e maravilhoso. Como sou sua capacidade de reagir livremente, tenho de estar
presente em vocs. Se eu simplesmente lhes desse uma responsabilidade, no teria de estar com vocs. A responsabilidade seria uma tarefa a realizar, uma obrigao
a cumprir, algo para vencer ou fracassar.
- Minha nossa, minha nossa - disse Mack outra vez, sem muito entusiasmo.
- Usemos o exemplo da amizade e veremos que remover o elemento de vida de um substantivo pode alterar um relacionamento. Mack, se voc e eu somos amigos, h uma
prontido dentro de nosso relacionamento. Quando nos vemos ou quando estamos separados, h a prontido de estarmos juntos, de rirmos e falarmos. Essa prontido no
tem definio concreta:  viva, dinmica, e tudo que emerge do fato de estarmos juntos  um dom nico que no  compartilhado por mais ningum. Mas o que acontece
se eu mudar "prontido" por "expectativa", verbalizada ou no? Subitamente a lei entra no nosso relacionamento. Agora voc espera que eu aja de um modo que atenda
s suas expectativas. Nossa amizade viva se deteriora rapidamente e se torna uma coisa morta, com regras e exigncias. No tem mais a ver com ns dois, mas com o
que os amigos devem fazer ou com as responsabilidades de um bom amigo.
- Ou - observou Mack - com as responsabilidades de marido, de pai, empregado ou qualquer outra coisa. Entendi. Prefiro viver na prontido.
- Eu tambm - disse Sarayu.
- Mas - argumentou Mack -, se no tivssemos expectativas e responsabilidades, tudo no iria simplesmente desmoronar?
- S se voc fizer parte do mundo fora de mim, regido pela lei. As responsabilidades e as expectativas so a base para a culpa,  vergonha e o julgamento. Elas fornecem
a estrutura que faz do comportamento a base para a identidade e o valor de algum. Voc sabe muito bem como  no atender s expectativas de algum.
- Sei mesmo! - murmurou Mack. -  uma idia que me traz tristes lembranas. - Parou brevemente, com um novo pensamento relampejando. - Voc est dizendo que no
tem expectativas com relao a mim?
Agora Papai falou:
-        Querido, eu nunca tive expectativas com relao a voc nem a
ningum. A idia por trs disso exige que algum no saiba o futuro ou o resultado e esteja tentando controlar o comportamento do outro para chegar ao resultado
desejado. Os humanos tentam esse controle principalmente por meio das expectativas. Eu o conheo e sei tudo sobre voc. Por que teria uma expectativa diferente daquilo
que j sei? Seria idiotice. E, alm disso, como no a tenho, vocs nunca me desapontam.
- O qu? Voc nunca ficou desapontado comigo? - Mack estava s esforando bastante para digerir isso.
- Nunca! - declarou Papai enfaticamente. - O que tenho  uma prontido constante e viva no nosso relacionamento e lhe dou a capacidade de reagir a qualquer situao
e circunstncia em que voc se encontrar. Se passar a contar com expectativas e responsabilidades, voc no m conhece nem confia em mim.
- E pela mesma razo - exclamou Jesus - voc vive no medo.
- Mas... - Mack no estava convencido. - Mas voc no quer que a gente estabelea prioridades? Voc sabe: Deus primeiro, depois sei l qu, seguido por mais no
sei o qu?
- O problema de viver segundo prioridades - disse Sarayu -  que se v tudo como uma hierarquia, uma pirmide, e voc e eu j falamos sobre isso. Se voc puser Deus
no topo, o que isso realmente significa? Quanto tempo voc me d antes de poder cuidar do resto do seu dia, da parte que lhe interessa muitssimo mais?
Papai interrompeu de novo.
-        Veja bem, Mackenzie, eu no quero simplesmente um pedao de voc e da sua vida. Mesmo que voc pudesse, e no pode, me dar o pedao maior, no  isso que
eu quero. Quero voc inteiro e todas as partes de voc e de seu dia.
Agora Jesus falou de novo.
- Mack, no quero ser o primeiro numa lista de valores. Quero estar no centro de tudo. Quando vivo em voc, podemos viver juntos tudo que acontece com voc. Em vez
de uma pirmide, quero ser como centro de um mbile, onde tudo em sua vida - seus amigos, sua famlia, seu trabalho, os pensamentos, as atividades - esteja ligado
a mim, mas se movimente ao vento, para dentro e para fora, para trs e para frente, numa incrvel dana do ser.
- E eu - concluiu Sarayu - sou o vento. - Ela deu um sorriso enorme e fez uma reverncia.
Houve silncio enquanto Mack procurava se controlar. Estivera segurando a borda da mesa com as duas mos, como se quisesse agarrar algo tangvel diante daquele tiroteio
de idias e imagens.
- Bom, chega disso - declarou Papai, levantando-se da cadeira. -  hora de diverso! Vocs vo em frente enquanto eu tiro as coisas que podem estragar. Cuido dos
pratos mais tarde.
- E as oraes? - perguntou Mack.
- Nada  um ritual, Mack - disse Papai, pegando alguns pratos de comida. - Portanto, esta noite vamos fazer uma coisa diferente. Voc vai gostar!
Enquanto se levantava e se virava para acompanhar Jesus at a porta dos fundos, Mack sentiu uma mo no ombro e virou-se. Sarayu estava parada ali, olhando-o com
intensidade.
-        Mackenzie, se voc me permitir, gostaria de lhe dar um presente para esta noite. Posso tocar seus olhos e cur-los s por esta noite?
Mack ficou surpreso.
- Eu enxergo bastante bem.
- Na verdade - disse Sarayu em tom de desculpa -, voc v muito pouco, embora para um ser humano enxergue bastante bem. Mas s por esta noite eu adoraria que voc
visse um pouco do que ns vemos.
- Ento est bem - concordou Mack. - Por favor, toque meus olhos e at mais, se quiser.
Enquanto Sarayu estendia as mos para ele, Mack fechou os olhos. O toque dela era como gelo, inesperado e empolgante. Um tremor delicioso o atravessou e Mack ergueu
as mos para segurar as dela junto ao rosto. No havia nada ali e ele comeou lentamente a abrir os olhos.


                         UM FESTIVAL DE AMIGOS
"Voc pode dizer adeus a sua famlia e a seus amigos e afastar-se milhas e milhas e, ao mesmo tempo, carreg-los em seu corao, em sua mente, em seu estmago, pois
voc no apenas vive no mundo, mas o mundo vive em voc"
                                                   - Frederick Buechner, Telling The Truth
Quando abriu os olhos, Mack teve de proteg-los imediatamente de uma luz muito intensa que o ofuscou. Depois ouviu algo.
- Voc vai achar muito difcil olhar diretamente para mim - disse voz de Sarayu - ou para Papai. Mas,  medida que sua mente se acostumar s mudanas, ser mais
fcil.
Ele estava parado no mesmo lugar onde fechara os olhos, mas a cabana havia sumido, assim como o cais e a carpintaria. Estava ao ar livre, no topo de uma pequena
colina, sob um cu noturno brilhante mas sem lua. Podia ver as estrelas em movimento, tranqilamente e com preciso, como se houvesse grandes condutores celestiais
coordenando seus movimentos.
Ocasionalmente, como se recebendo um comando, cometas e chuvas de meteoros rolavam por entre as estrelas, acrescentando variao  dana. Ento Mack viu algumas
estrelas crescerem e mudarem de cor. Era como se o tempo tivesse se tornado dinmico e voltil, juntando-se  imagem celestial aparentemente catica, mas administrada
com preciso.
Ele se virou para Sarayu, que ainda estava ao seu lado. Apesar de ser difcil olhar diretamente para ela, agora podia vislumbrar simetria e cores engastadas em padres,
como se minsculos diamantes, rubis e safiras tivessem sido costurados numa roupa de luz que se movia primeiro em ondas e depois se espalhava em partculas.
-  tudo incrivelmente lindo! - sussurrou ele.
-  verdade. - A voz de Sarayu vinha da luz. - Agora, Mackenzie, olhe ao redor.
Ele ficou boquiaberto. Mesmo na escurido da noite, tudo tinha clareza e brilhava com halos de luz em vrios tons e cores. Embora a floresta estivesse incendiada
de luz e cor, cada rvore e cada folha eram distintamente visveis. Pssaros criavam uma trilha de fogo colorido ao voarem se perseguindo.  distncia, um exrcito
da Criao parecia estar a postos: cervos, ursos, cabritos monteses e alces majestosos desfilavam perto das bordas da floresta, lontras e castores no lago, cada
um luzindo com cores chamejantes. Mirades de pequenas criaturas saltavam e voavam por toda parte, cada uma em sua prpria glria.
Num jorro de chamas, uma guia-pescadora mergulhou em direo  superfcie do lago, mas mudou o curso no ltimo instante e roou a superfcie, com fagulhas caindo
como neve nas guas. Atrs dela, uma grande truta vestida de arco-ris rompeu a superfcie e mergulhou de volta em meio a um borrifo de cores.
Mack sentiu-se maior do que a vida, como se pudesse estar presente em todas as partes. Dois filhotes de urso brincavam ao p da me e, de onde estava, Mack, sem
pensar, estendeu o brao para toc-los. Recolheu-o de volta, espantado ao perceber que tambm chamejava. Olhou as mos maravilhosamente esculpidas e claramente visveis
dentro da cascata de cores de luz que parecia cobri-las como luvas. Examinou o resto do corpo e descobriu que a luz e a cor o envolviam completamente. Uma veste
de pureza que o revestia de liberdade e decncia.
Tambm percebeu que no sentia dor, nem mesmo nas juntas geralmente doloridas. Na verdade, nunca havia se sentido to bem, to inteiro. Sua cabea estava lmpida
e ele respirava profundamente os perfumes da noite e das flores.
Uma alegria delirante e deliciosa cresceu por dentro, e ele flutuou lentamente no ar, retornando suavemente ao cho. " como se eu voasse em um sonho", pensou.
Ento Mack viu as luzes. Pontos em movimento emergiam da floresta, convergindo para a campina abaixo onde ele estava com Sarayu. Agora podia v-los no alto das montanhas
ao redor, aparecendo e desaparecendo enquanto vinham em sua direo seguindo caminhos e trilhas invisveis.
Chegou  campina um exrcito de crianas. No havia velas - elas prprias eram luzes. E, dentro de sua prpria luminosidade, cada uma vestia roupas diferentes que
Mack imaginou que correspondiam  tribo diversas. Eram as crianas da Terra, os filhos de Papai. Acercaram-se com dignidade e graa silenciosa, rostos cheios de
contentamento e paz, as maiores segurando as mos das menores.
Por um momento Mack se perguntou se Missy estaria ali, mas logo desistiu. Achou que, se estivesse e quisesse ir ao seu encontro, correria para ele. Agora as crianas
haviam formado um crculo enorme na campina, deixando um caminho aberto a partir das proximidades de onde Mack estava, bem no centro. Pequenos jorros de fogo e luz,
como flashes fotogrficos, espocavam lentamente, acendendo-se quando as crianas riam ou sussurravam. Embora Mack no fizesse idia do que estava acontecendo, elas
obviamente sabiam.
Emergindo na clareira atrs delas e formando outro crculo de luzes maiores, apareceram adultos cheios de cores brilhantes, mas discretas.
De repente a ateno de Mack foi atrada por um movimento incomum. Parecia que um dos seres de luz no crculo externo estava tendo alguma dificuldade. Clares e
lanas de cor violeta e marfim saltavam em forma de breves arcos na noite, sendo substitudos por tons de orqudea, ouro e vermelho flamejante, jorros ardentes e
luminosos de luz que explodiam indo ao encontro da escurido ao redor.
Sarayu deu um risinho.
- O que est acontecendo? - sussurrou Mack.
- H um homem com dificuldade para conter o que est sentindo.
A pessoa que no conseguia se controlar agitava as que estavam
prximas. O efeito de ondulao era claramente visvel  medida que a luz flamejante se estendia at o crculo de crianas. As mais prximas do instigador pareciam
reagir conforme as cores e luzes fluam delas para ele. As combinaes que emergiam eram nicas, diferentes da cor daquele que estava provocando a agitao.
- Ainda no entendo - sussurrou Mack de novo.
- Mackenzie, o padro de cor e luz  nico em cada pessoa; no h dois iguais, nenhum padro se repete. Aqui podemos ver uns aos outros verdadeiramente porque cada
personalidade e cada emoo so visveis como cor e luz.
- Isso  incrvel! - exclamou Mackenzie. - Ento por que as cores das crianas so principalmente brancas?
- Se voc se aproximar, ver que elas tm muitas cores individuais que se fundiram no branco.  medida que elas amadurecerem e crescerem, as cores iro se tornar
mais distintas e emergiro tons e matizes nicos.
- Incrvel! - foi tudo que Mack conseguiu dizer. Olhou com mais ateno e notou que por trs do crculo de adultos haviam surgido outros, igualmente espaados, ao
redor de todo o permetro. Eram chamas mais altas, aparentemente soprando com as correntes de ar, e tinham cores semelhantes, de safira e azul-gua, com pedacinhos
nicos de outras cores engastados em cada um.
- Anjos - respondeu Sarayu antes que Mack pudesse perguntar. - Servidores e guardies.
- Incrvel! - exclamou Mack mais uma vez.
- H mais, Mackenzie, e isso vai ajud-lo a entender o problema que aquele indivduo est tendo. - Ela apontou na direo da agitao que continuava, lanando luzes
e cores sbitas e abruptas na direo deles.
- No somente conseguimos ver a especificidade de cada pessoa em cor e luz como reagimos tambm usando cor e luz. Essa reao  muito difcil de controlar e geralmente
no deve ser contida, como esse homem est tentando.  mais natural deixar que a reao simplesmente se expresse.
- No entendo - hesitou Mack. - Est dizendo que podemos reagir uns aos outros em cores?
- Sim - Sarayu assentiu. - Cada relacionamento entre duas pessoas  absolutamente nico. Por isso voc no pode amar duas pessoas da mesma maneira. Simplesmente
no  possvel. Voc ama cada pessoa de modo diferente por ela ser quem ela  e pela especificidade do que ele recebe de voc. E quanto mais vocs se conhecem, mais
ricas so as cores desse relacionamento.
Mack escutava ao mesmo tempo em que olhava o que acontecia  volta Sarayu continuou:
- Vou dar um exemplo para voc entender melhor. Suponha, Mack que voc est com um amigo numa lanchonete. Voc est concentrado no companheiro e, se tiver olhos
para ver, perceber que os dois esto envolvidos numa variedade de cores e luzes que marcam no apenas o que cada um  especificamente, mas tambm a especificidade
do relacionamento entre vocs e das emoes que esto experimentando.
- Mas... - Mack comeou a perguntar e foi interrompido.
- Mas suponha - continuou Sarayu - que outra pessoa que voc ama entre na lanchonete e, embora esteja envolvido pela conversa com o primeiro amigo, voc nota a entrada
do outro. De novo, se voc tivesse olhos para ver a realidade mais ampla, testemunharia que uma combinao nica de cor e luz saltaria de voc e se enrolaria no
que acabou de chegar representando voc em outra forma de am-lo e receb-lo. Mais uma coisa, Mackenzie: a especificidade no  somente visual, mas tambm sensorial.
Voc pode sentir, cheirar e at mesmo sentir o gosto dela.
- Adoro isso! - exclamou Mack. - Mas, a no ser por aquele l -apontou na direo das luzes agitadas ao redor do adulto -, por que todos esto calmos? Eu imaginaria
que houvesse cor por todo lado. Ele: no se conhecem?
- A maioria se conhece muito bem, mas esto aqui para uma comemorao que no tem nada a ver com eles nem com os relacionamentos de uns com os outros, pelo menos
no diretamente - explicou Sarayu. - Eles esto esperando.
- O qu?
- Voc ver logo - respondeu Sarayu e era bvio que ela no diria mais nada sobre o assunto.
- Ento por que aquele est tendo tanta dificuldade e por que ele parece concentrado em ns?
- Mackenzie - disse Sarayu com gentileza -, ele no est concentrado em ns, est concentrado em voc.
- O qu? - Mack ficou pasmo.
-        Aquele que tem tanta dificuldade para se conter  o seu pai.
Uma onda de emoes, uma mistura de raiva e anseio varreu Mack.
Nesse momento as cores de seu pai explodiram da campina e o envolveram. Ele ficou perdido num jorro de rubi e vermelho, magenta e violeta,  medida que a luz e
a dor faziam um redemoinho ao seu redor e o cobriam. E de algum modo, no meio da tempestade que explodia, ele se viu correndo pela campina para encontrar o pai,
correndo para a fonte de cores e emoes. Era um menininho querendo o pai e, pela primeira vez, no teve medo. Estava correndo, sem se importar com coisa alguma
alm do objeto do desejo de seu corao, e o encontrou. Seu pai estava de joelhos, coberto de luz, lgrimas brilhando como uma cachoeira de diamantes e jias nas
mos que cobriam o rosto.
-        Papai! - gritou Mack e jogou-se para o homem que nem podia
olhar o filho.
No uivo de vento e chamas, Mack segurou o rosto do pai com as duas mos, forando-o a olh-lo para que pudesse gaguejar as palavras que sempre quisera dizer: "Papai,
desculpe! Papai, eu te amo!"
A luz de suas palavras pareceu explodir, afastando a escurido das cores do pai, transformando-as em vermelho-sangue. Os dois trocaram palavras soluantes de confisso
e perdo. E um amor maior do que qualquer um dos dois os curou.
Finalmente se levantaram juntos, o pai abraando o filho como nunca pudera fazer antes. Foi ento que Mack notou a onda de uma cano passando sobre os dois, como
se penetrasse no lugar sagrado onde ele estava com o pai. Abraados, incapazes de falar em meio s lgrimas, eles ouviram a cano de reconciliao que iluminava
o cu noturno. Uma fonte de cor brilhante comeou a jorrar em arco entre as crianas, sobretudo entre as que haviam sofrido mais, e ondulou ao passar de cada uma
para a prxima, levada pelo vento, at que todo o campo estivesse inundado de luz e msica.
De algum modo Mack soube que no era um momento para conversar e que seu tempo com o pai estava passando rapidamente. Pra ele, a nova leveza que sentia era eufrica.
Beijando o pai nos lbios, virou-se e voltou para a pequena colina onde Sarayu o esperava. Enquanto passava pelas fileiras de crianas, pde sentir o toque e as
cores delas envolvendo-o rapidamente e ficando para trs. De algum modo ele j era conhecido e amado ali.
Quando chegou a Sarayu, ela o abraou tambm e ele deixou que ela o segurasse enquanto continuava a chorar. Quando recuperou uma leve tranqilidade, virou-se para
olhar de novo a campina, o lago e o cu noturno. Um silncio baixou. A antecipao era palpvel. De repente,  direita, saindo da escurido, surgiu Jesus e o pandemnio
irrompeu. Ele vestia uma roupa branca e usava na cabea uma coroa simples de ouro, mas era, em cada centmetro do seu ser, o rei do universo.
Seguiu pelo caminho que se abriu  sua frente at chegar ao centro - o centro de toda a Criao, o homem que  Deus e o Deus que  homem. Luz e cor danavam e teciam
uma tapearia de amor para ele pisar. Alguns choravam, dizendo palavras de amor, enquanto outros simplesmente permaneciam de mos levantadas. Muitos daqueles cujas
cores eram as mais ricas e profundas estavam deitados com o rosto no cho. Tudo que respirava cantava uma cano de amor e agradecimento sem fim. Nessa noite o universo
era como devia ser.
Quando chegou ao centro, Jesus parou para olhar em volta. Seus olhos pousaram em Mack, que, parado na pequena colina, ouviu Jesus sussurrar em seu ouvido:
- Mack, eu gosto especialmente de voc. - Foi tudo que Mack conseguiu suportar enquanto caa no cho dissolvendo-se numa onda de lgrimas jubilosas. No podia se
mexer, preso no abrao de Jesus, feito de amor e ternura.
Ento ouviu Jesus dizer alto e claro, mas de modo muito gentil e convidativo: "Venham!" E eles foram, as crianas primeiro, depois os adultos, cada um por sua vez,
rindo, falando, abraando-se e cantando com seu Jesus. O tempo pareceu parar enquanto a dana celestial prosseguia. E ento cada um foi saindo at no restar ningum,
a no ser as ardentes sentinelas azuis e os animais. Jesus caminhou entre eles, chamando cada um pelo nome, e ento os animais e seus filhotes voltaram para as tocas,
os ninhos e os leitos nas pastagens.
Por fim estavam novamente sozinhos. O grito selvagem e assombroso de um mergulho ecoando sobre o lago pareceu sinalizar o fim da celebrao, e as sentinelas desapareceram
ao mesmo tempo. Os nicos sons que restavam eram os do coro de grilos e sapos retomando suas canes de culto na margem da gua e nas campinas ao redor. Sem uma
palavra, os trs se viraram e retornaram para a cabana, que de novo se tornara visvel para Mack. Como uma cortina sendo puxada sobre seus olhos, de repente a viso
voltou ao normal. Ele teve uma sensao de perda e de ansiedade e chegou h ficar um pouco triste, at que Jesus se aproximou, pegou sua mo e apertou-a para assegurar
que tudo era como devia ser.


                       MANH DE TRISTEZAS
Um Deus infinito pode se dar inteiro a cada um de seus filhos.
Ele no se distribui de modo que cada um tenha uma parte,
mas a cada um ele se d inteiro, to integralmente como se no houvesse outros.
       - A. W. Tozer


Mack teve a sensao de que acabara de entrar num sono profundo, sem sonhos, quando sentiu uma mo sacudindo-o para acordar.
- Mack, acorde.  hora de irmos. - A voz era familiar, mas profunda, como de algum que tambm tivesse acabado de acordar.
- Hein? - gemeu ele. - Que horas so? - murmurou enquanto tentava descobrir onde estava e o que estava fazendo.
-  hora de ir! - repetiu o sussurro.
Mack saiu da cama resmungando e procurou at encontrar o interruptor de luz. Depois da escurido de breu, a claridade foi ofuscante e ele demorou at conseguir abrir
os olhos e se esforar para ver o visitante.
O homem parado junto dele se parecia um pouco com Papai: digno, mais velho, magro e mais alto do que Mack. O cabelo muito branco estava preso num rabo-de-cavalo,
e o bigode e o cavanhaque eram grisalhos. Camisa xadrez com mangas enroladas, jeans e botas de caminhada completavam a vestimenta de algum pronto para pr o p
na trilha.
- Papai? - perguntou Mack.
- Sim, filho.
Mack balanou a cabea.
-Ainda est brincando comigo, no ?
- Sempre - disse ele com um sorriso. E, respondendo  pergunta seguinte de Mack antes que ela fosse feita: - Nesta manh voc vai precisar de um pai. Vamos indo.
Tem tudo de que voc precisa na cadeira e na mesa ao p da sua cama. Encontro-o na cozinha, onde voc pode comer alguma coisa antes de sairmos.
Mack assentiu. No se incomodou em perguntar onde estaria indo. Se Papai desejasse que ele soubesse, teria dito. Vestiu rapidamente as roupas do tamanho exato, semelhantes
s de Papai, e calou um par de botas de caminhada. Parou rapidamente no banheiro para se lavar e entrou na cozinha.
Jesus e Papai estavam perto da bancada, parecendo muito mais descansados do que Mack. Ele j ia falar quando Sarayu entrou pela porta dos fundos com um grande embrulho.
Parecia um longo saco de dormir, amarrado com uma tira presa em cada ponta para ser carregado facilmente. Entregou-o a Mack e ele sentiu imediatamente um perfume
maravilhoso que vinha do embrulho. Era uma mistura de ervas e flores aromticas que ele pensou reconhecer. Pde sentir cheiro de canela e de hortel junto com sais
e frutas.
- Isso  um presente para mais tarde. Papai vai lhe mostrar como us-lo. - Ela sorriu e ele sentiu uma espcie de abrao.
- Voc pode carregar - acrescentou Papai. - Voc colheu essas plantas com Sarayu ontem.
- Meu presente vai esperar aqui at sua volta - sorriu Jesus e tambm abraou Mack.
Os dois saram pelos fundos e Mack ficou sozinho com Papai, que estava fritando ovos com bacon.
- Papai - perguntou Mack, surpreso ao ver como havia ficado fcil cham-lo assim. - No vai comer?
- Nada  um ritual, Mackenzie. Voc precisa disso, eu no. - Ele sorriu. - Mastigue devagar. Voc tem bastante tempo e comer depressa demais no  bom para a digesto.
Mack comeu devagar e em silncio, simplesmente desfrutando a presena de Papai.
Num determinado momento, Jesus apareceu para informar que havia posto as ferramentas de que precisariam do lado de fora da porta. Papai agradeceu, Jesus lhe deu
um beijo nos lbios e saiu pela porta dos fundos.
Mack estava ajudando a limpar os poucos pratos quando perguntou
- Voc realmente o ama, no ? Quero dizer, Jesus.
- Sei de quem voc est falando - respondeu Papai, rindo. Parou de lavar a frigideira. - De todo o corao! Imagino que haja algo muito especial num filho unignito.
- Papai piscou para Mack e continuou - Isso faz parte do modo nico pelo qual eu o conheo.
Quando acabaram, Mack acompanhou Papai para fora. O alvorecer se anunciava nos picos das montanhas, as cores do nascer do sol invadindo o cinza da noite. Mack pegou
o presente de Sarayu e o pendurou no ombro. Papai lhe entregou uma pequena picareta e ps uma mochila s costas. Em seguida pegou uma p com uma das mos, uma bengala
com a outra e, sem dizer uma palavra, passou pelo jardim e pelo pomar indo na direo do lado direito do lago.
Quando chegaram ao incio da trilha havia luz suficiente para andar com facilidade. Ali Papai parou e apontou a bengala para uma rvore fora do caminho. Mack pde
ver que algum marcara a rvore com um pequeno arco vermelho quase imperceptvel. Aquilo no significava nada para ele e Papai no deu explicao. Em vez disso,
virou-se e seguiu pelo caminho, andando com facilidade.
O presente de Sarayu era relativamente leve e Mack usou o cabo da picareta como bengala. O caminho levou-os a atravessar um dos riachos e a entrar mais fundo na
floresta. Mack podia ouvir Papai trauteando uma cantiga, mas no a reconheceu.
Enquanto andavam, Mack pensou na mirade de coisas que experimentara nos dias anteriores. As conversas com cada um dos trs, juntos e separados, o tempo passado
com Sophia, s oraes de que havia participado, a contemplao do cu estrelado com Jesus, a caminhada pelo lago. A comemorao da noite anterior completara tudo,
at mesmo a reconciliao com seu pai - tanta cura com to poucas palavras. Era difcil absorver tal quantidade de experincias e informaes.
Enquanto pensava e avaliava o que havia aprendido, Mack percebeu quantas perguntas ainda tinha para fazer. Mas sentia que ainda no era hora. Sabia apenas que nunca
mais seria o mesmo e se perguntava o que significariam essas mudanas para Nan e seus filhos, especialmente Kate. Mas havia uma coisa que o estava incomodando. Por
fim rompeu o silncio.
- Papai?
- Sim, filho.
- Sophia me ajudou a entender muita coisa sobre Missy ontem. E realmente foi til conversar com Papai. Ah, quero dizer, com voc. - Mack estava confuso, mas Papai
parou e sorriu como se entendesse. Mack prosseguiu: -  estranho eu precisar falar sobre isso com voc tambm. Quero dizer, voc  muito mais do que um pai, se 
que isso faz sentido.
- Entendo, Mackenzie. Estamos completando o crculo. Perdoar seu pai ontem foi extremamente importante para voc poder me conhecer como pai hoje. No precisa explicar
mais.
De algum modo Mack sabia que estavam chegando ao fim de uma jornada e que Papai estava trabalhando para ajud-lo a dar os ltimos passos. Papai prosseguiu:
-        No havia possibilidade de criar a liberdade sem um custo, como voc sabe. - Papai olhou para baixo, com as cicatrizes visveis marcadas indelevelmente
nos pulsos. - Eu sabia que minha Criao iria se rebelar, que escolheria a independncia e a morte, e sabia o que me custaria abrir um caminho para a reconciliao.
A independncia do ser humano liberou o que parece a voc um mundo de caos aleatrio e apavorante. Eu
poderia ter impedido o que aconteceu com Missy? A resposta  sim.
Mack olhou para Papai, os olhos fazendo a pergunta que no precisava ser verbalizada. Ele continuou:
-        Primeiro, se no tivesse havido a Criao, no haveria essas questes. Em segundo lugar, eu poderia ter optado por interferir ativamente no que aconteceu
com ela. Jamais considerei a possibilidade de deixar de criar, e interferir no caso de Missy no era uma opo, por causa de propsitos que voc no pode entender
agora. Nesse ponto tudo que tenho a lhe oferecer como resposta  o meu amor, minha bondade e meu relacionamento com voc. Eu no tive a inteno de fazer Missy morrer,
mas isso no significa que no possa usar a morte dela para o bem.
Mack balanou a cabea, triste.
-        Est certo. No entendo direito. Por um segundo acho que vou
compreender, mas depois toda a dor da perda parece crescer e me dizer que o que eu compreendi simplesmente no pode ser verdade. Mas confio em voc... - De repente
irrompeu esse novo pensamento, surpreendente e maravilhoso. - Papai, eu confio em voc!
Papai sorriu de volta para ele.
-        Eu sei, filho, eu sei.
Virou-se e voltou a caminhar pela trilha, seguido por Mack, agora com o corao mais leve e apaziguado. Logo comearam uma subida relativamente fcil e o ritmo diminuiu.
Ocasionalmente Papai parava e batia numa pedra ou numa rvore grande do caminho, indicando em cada uma a presena do pequeno arco vermelho. Antes que Mack pudesse
fazer a pergunta bvia, Papai se virava e continuava pela trilha.
 medida que avanavam, as rvores iam rareando e Mack pde vislumbrar campos rochosos onde deslizamentos de terra haviam tirado trechos da floresta algum tempo
antes de a trilha ser aberta. Pararam uma vez para um rpido descanso e Mack aproveitou para beber um pouco da gua fresca que Papai colocara nos cantis.
Pouco depois da parada, o caminho ficou bem ngreme e o ritmo de caminhada diminuiu ainda mais. Mack achou que deviam ter andado por quase duas horas quando saram
do meio das rvores. Para chegar  trilha delineada na encosta adiante teriam de passar por uma grande rea de rochas e pedregulhos.
De novo papai parou, pousou sua mochila e enfiou a mo dentro.
- Estamos quase chegando, filho - falou, entregando um cantil a Mack.
- Estamos? - perguntou Mack, olhando para o solitrio e desolado terreno rochoso  frente.
- Estamos! - foi s o que Papai respondeu.
Papai escolheu uma pequena pedra perto do caminho e, colocando a mochila e a p ao lado, sentou-se. Parecia perturbado.
- Quero mostrar uma coisa que vai ser muito dolorosa para voc.
- Est bem. - O estmago de Mack comeou a se revirar enquanto ele se sentava e pousava a picareta e o presente de Sarayu sobre os joelhos. Os aromas, reforados
pelo sol da manh, preencheram seus sentidos com beleza e trouxeram alguma paz. - O que ?
- Para ajud-lo a ver, quero tirar mais uma coisa que obscurece seu corao.
Mack soube imediatamente o que era e olhou para o cho entre seus ps. Papai falou gentilmente, tranqilizando-o.
-        Filho, isso no  para envergonhar voc. No uso humilhao, nem culpa, nem condenao. Elas no produzem uma fagulha de plenitude ou de justia e por isso
foram pregadas em Jesus na cruz.
Esperou, deixando que esse pensamento penetrasse em Mack e lavasse parte do sentimento de vergonha que ele sentia. Depois continuou:
- Hoje estamos na trilha da cura para encerrar essa parte da sua jornada. No s para voc, mas para outras pessoas tambm. Hoje vamos jogar uma pedra grande no
lago e as ondulaes vo chegar a lugares que voc no imagina. Voc j sabe o que eu quero, no sabe?
- Acho que sim - murmurou Mack, sentindo emoes que subiam aceleradas, saindo de um cmodo trancado em seu corao.
- Filho, voc precisa falar, precisa verbalizar isso.
Agora no havia como se conter e, enquanto lgrimas quentes jorravam de seus olhos, Mack, soluando, comeou a confessar.
-        Papai - ele disse chorando -, como posso perdoar aquele filho da puta que matou minha Missy? Se ele estivesse aqui hoje, no sei o que eu faria. Sei que
no  certo, mas quero feri-lo como ele me feriu... Se eu no puder ter justia, ainda quero vingana.
Papai simplesmente deixou a torrente sair de Mack, esperando que a onda passasse.
- Mack, perdoar esse homem  entreg-lo a mim e permitir que eu o redima.
- Redimi-lo? - De novo Mack sentiu o fogo da raiva e da dor. - No quero que voc o redima! Quero que o machuque, castigue, mande para o inferno... - Sua voz ficou
no ar.
Papai esperou com pacincia que as emoes passassem.
- Estou travado, Papai. Simplesmente no posso esquecer o que ele fez, posso? - implorou Mack.
- Perdoar no significa esquecer, Mack. Significa soltar a garganta da outra pessoa.
- Mas eu achava que voc esquecia os nossos pecados.
- Mack, eu sou Deus. No esqueo nada. Sei de tudo. Para eu esquecer  optar por me limitar. Filho - a voz de Papai ficou baixa e Mack olhou-o diretamente nos olhos
profundos e castanhos -, por causa de Jesus, no h agora nenhuma lei exigindo que eu traga seus pecados  mente. Eles se foram e no interferem no nosso relacionamento.
- Mas esse homem...
- Ele tambm  meu filho. Quero redimi-lo.
- E depois? Voc quer que eu simplesmente o perdoe, que fique tudo bem e que ns nos tornemos amigos? - disse Mack baixinho, mas com sarcasmo.
- Voc no tem relacionamento com esse homem, pelo menos ainda no tem. O perdo no estabelece um relacionamento. Em Jesus eu perdoei todos os humanos por seus
pecados contra mim, mas s alguns escolheram relacionar-se comigo. Mackenzie, voc no v que o perdo  um poder incrvel, um poder que voc compartilha conosco,
um poder que Jesus d a todos em quem ele reside, para que a reconciliao possa crescer? Quando Jesus perdoou os que o pregaram  cruz, eles deixaram de dever qualquer
coisa, tanto a ele quanto a Mim. No meu relacionamento com aqueles homens, jamais falarei do que eles fizera: nem irei envergonh-los ou constrang-los.
- No creio que eu seja capaz de fazer isso - respondeu Mack baixinho.
- Quero que voc faa. O perdo existe em primeiro lugar para aquele que perdoa, para liber-lo de algo que vai destru-lo, que vai acabar com sua alegria e capacidade
de amar integral e abertamente. Voc acha que esse homem se importa com a dor e o tormento que lhe causou? No mnimo ele se alimenta com seu sofrimento. Voc no
quer cortar isso? Ao faz-lo, ir libertar o homem de um fardo que ele carrega, quer saiba ou no, quer reconhea ou no. Quando voc opta por perdoar o outro, voc
o ama melhor.
- Eu no o amo.
- Hoje no, voc no o ama. Mas eu amo, Mack, no pelo que ele se tornou, mas pela criana mutilada e deformada pela dor. Quero ajud-lo a assumir a natureza que
encontra mais poder no amor e no perdo do que no dio.
- Ento isso significa - de novo Mack sentia um pouco de raiva pela direo que a conversa havia tomado - que, se eu perdoar esse homem, estarei deixando que ele
brinque com Kate ou com minha primeira neta?
- Mackenzie - Papai foi forte e firme. - Eu j lhe disse que o perdo no cria um relacionamento. A no ser que as pessoas falem a verdade sobre o que fizeram e
mudem a mente e o comportamento, no  possvel um relacionamento de confiana. Quando voc perdoa algum, certamente liberta essa pessoa do julgamento, mas, se
no houver uma verdadeira mudana, no pode ser estabelecido nenhum relacionamento verdadeiro.
- Ento o perdo no exige que eu finja que o que ele fez nunca aconteceu?
- Como seria possvel? Voc perdoou seu pai ontem  noite. Algum dia voc vai esquecer o que ele lhe fez?
- Acho que no.
- Mas agora voc pode am-lo, apesar disso. A mudana dele permite. O perdo no exige de modo algum que voc confie naquele a quem perdoou. Mas, caso essa pessoa
finalmente confesse e se arrependa, voc descobrir em seu corao um milagre que ir lhe permitir estender a mo e comear a construir uma ponte de reconciliao
entre os dois. Algumas vezes, e isso talvez parea incompreensvel para voc agora, essa estrada pode at mesmo levar ao milagre da confiana totalmente restaurada.
Mack escorregou para o cho e se recostou na pedra onde estivera sentado. Examinou a terra sob seus ps.
-        Papai, acho que entendo o que voc est dizendo. Mas parece que, se eu perdoar esse sujeito, ele vai ficar livre. Como posso desculp-lo pelo que fez? 
justo para Missy deixar de ficar com raiva dele?
- Mackenzie, o perdo no desculpa nada. Acredite, esse homem pode ser qualquer coisa, menos livre. E voc no tem o dever de fazer justia nesse caso. Eu cuidarei
disso. E, quanto a Missy, ela j o perdoou.
- J? - Mack nem levantou os olhos. - Como pde?
- Por causa de minha presena nela.  o nico modo pelo qual o verdadeiro perdo  possvel.
Mack sentiu Papai sentar-se ao seu lado, no cho, mas no olhou para cima. Enquanto os braos de Papai o envolviam, comeou a chorar.
-        Deixe isso tudo sair - ouviu o sussurro de Papai e finalmente se
entregou. Fechou os olhos enquanto as lgrimas jorravam. As lembranas de Missy inundaram de novo sua mente: vises de livros de colorir, lpis de cor, vestido rasgado
e ensangentado. Chorou at ter derramado toda a escurido, todo o anseio e a perda, at no restar nada.
Com os olhos fechados, balanando para trs e para a frente, implorou:
- Me ajude, Papai. Me ajude! O que eu fao? Como posso perdo-lo?
- Diga a ele.
Mack levantou os olhos, como que esperando ver um homem que nunca havia encontrado. Mas no havia ningum.
-        Como, Papai?
-        S diga em voz alta. H poder no que meus filhos declaram.
Mack comeou a sussurrar, primeiro hesitante, depois com convico crescente:
- Eu te perdo. Eu te perdo. Eu te perdo.
Papai o abraou com fora.
- Mackenzie, voc  uma alegria enorme.
Quando ele finalmente se controlou, Papai lhe entregou um leno umedecido para limpar o rosto. Depois Mack se levantou, a princpio meio inseguro.
-        Uau! - disse, rouco, tentando encontrar uma palavra capaz de
descrever a jornada emocional por que havia passado. Sentia-se vivo. Entregou o leno de volta a Papai e perguntou: - Ento, tudo bem se eu ainda sentir raiva?
Papai foi rpido em responder:
-        Sem dvida! O que ele fez foi terrvel. Ele causou uma dor tremenda a muitas pessoas. Isso  errado e a raiva  a resposta certa para algo to errado. Mas
no deixe que a raiva, a dor e a perda que voc sente o impeam de perdoar e de tirar as mos do pescoo dele.
Papai pegou sua mochila e a colocou no ombro.
-        Filho, talvez voc tenha de declarar seu perdo uma centena de vezes no primeiro e no segundo dia, mas a cada dia sero menos vezes, at que um dia voc
perceber que perdoou completamente. E vai chegar o momento em que rezar pela plenitude dele e o entregar a mim, para que meu amor queime na vida dele qualquer
vestgio de corrupo. Por mais incompreensvel que possa parecer no momento, talvez um
dia voc conhea esse homem num contexto diferente.
Mack gemeu. Por mais que tudo que escutava lhe revirasse o estmago, no corao ele sabia que era verdade. Os dois se levantaram e Mack se virou na trilha para voltar
na direo de onde tinham vindo.
- Mack, ns no terminamos.
Mack parou.
- Verdade? Achei que era por isso que voc me trouxe aqui.
-        Era, mas eu lhe disse que tinha uma coisa para mostrar, uma coisa que voc me pediu para fazer. Estamos aqui para levar Missy para casa.
De repente tudo fez sentido. Ele olhou o presente de Sarayu e percebeu para que servia. Em algum lugar naquela paisagem desolada o assassino havia escondido o corpo
de Missy e eles tinham vindo recuper-lo.
- Obrigado - foi tudo que pde dizer enquanto de novo uma cascata de lgrimas rolava por seu rosto, como se viesse de um reservatrio infinito. - Odeio todas essas
lgrimas, esse negcio de ficar chorando como um idiota - ele gemeu.
- Ah, filho - disse Papai com ternura. - Jamais desconsidere a maravilha das suas lgrimas. Elas podem ser guas curativas e uma fonte de alegria. Algumas vezes
so as melhores palavras que o corao pode falar.
Mack parou e encarou Papai. Jamais havia olhado para um amor, uma delicadeza, uma esperana e uma alegria to puras.
- Mas voc prometeu que um dia no haver mais lgrimas. Estou ansioso por isso.
Papai sorriu, encostou os dedos no rosto de Mack e gentilmente enxugou as faces marcadas pelas lgrimas.
-        Mackenzie, este mundo est cheio de lgrimas, mas, se voc lembra, prometi que seria Eu quem iria enxug-las de seus olhos.
Mack conseguiu sorrir enquanto sua alma continuava a se derreter e se curar no amor desse Pai.
-        Aqui - disse Papai e lhe entregou um cantil. - Tome um bom gole. No quero ver voc se encolhendo como uma ameixa seca antes de tudo isso acabar.
Mack no conseguiu evitar uma gargalhada que a princpio parecia deslocada, mas que depois, pensando bem, soube que era perfeita. Era um riso de esperana e de alegria
restauradas... Do processo de encerramento. Papai foi  frente. Antes de deixar o caminho principal e seguir por uma trilha que penetrava na massa de pedras espalhadas,
parou e com sua bengala bateu numa pedra grande. Indicou para Mack o mesmo arco vermelho. E Mack descobriu que o caminho que estavam seguindo fora marcado pelo homem
que levara sua filha. Enquanto caminhavam, Papai explicou a Mack que nenhum corpo fora encontrado porque esse homem procurava lugares para escond-los meses antes
de seqestrar as meninas.
No meio da rea pedregosa, Papai saiu do caminho e entrou num labirinto de pedras e paredes da montanha, no sem antes apontar novamente para a marca, agora familiar,
numa face de rocha prxima. Mack podia ver que, a no ser que a pessoa soubesse o que estava procurando, as marcas passariam facilmente despercebidas. Dez minutos
depois Papai parou diante de uma fenda onde dois afloramentos de pedra se encontravam. Havia uma pequena pilha de pedregulhos na base, um deles com o smbolo do
assassino.
-        Pode me ajudar? - pediu a Mack e comeou a retirar as pedras
maiores. - Isso esconde a entrada de uma caverna.
Assim que a entrada ficou livre, eles tiraram com a picareta e a p a terra endurecida e o cascalho que bloqueavam a passagem. De repente o resto de entulho cedeu
e apareceu  entrada de uma pequena caverna que provavelmente j fora a toca de algum animal durante a hibernao. Um odor ranoso de podrido saiu, deixando Mack
engasgado. Papai enfiou a mo na extremidade do rolo dado por Sarayu e tirou um pedao de pano do tamanho de um leno de cabea. Amarrou-o em volta da boca e do
nariz de Mack e imediatamente um cheiro doce cortou o fedor da caverna.
S havia espao suficiente para entrarem se arrastando. Tirando uma poderosa lanterna da mochila, Papai se enfiou primeiro no buraco, com Mack logo atrs, ainda
levando o presente de Sarayu.
S demoraram alguns minutos para encontrar o tesouro agridoce. Num pequeno afloramento de rocha, Mack viu o corpo que ele presumiu ser o de Missy, de rosto para
cima, coberto por um pano sujo e apodrecido. No mesmo instante soube que a verdadeira Missy no estava ali.
Papai desembrulhou o que Sarayu lhes dera e no mesmo instante a toca se encheu de maravilhosos perfumes vivos. O pano por baixo do corpo de Missy era frgil, mas
Mack conseguiu levant-la e coloc-la no meio de todas as flores e especiarias. Ento Papai a enrolou com ternura e levou-a at a entrada. Mack saiu primeiro e Papai
lhe passou o tesouro. Nenhuma palavra fora dita, a no ser as de Mack, que murmurava baixinho:
- Eu te perdo... Eu te perdo...
Antes de deixarem o local, Papai pegou a rocha com o arco vermelho e colocou-a sobre a entrada. Mack no prestou muita ateno, pois estava absorvido pelos prprios
pensamentos, enquanto segurava com ternura o corpo da filha junto ao corao.


               ESCOLHAS DO CORAO
 No h sofrimento na Terra que o Cu no possa curar.
                                                             - Autor desconhecido
 Chegaram de volta ao chal em pouco tempo. Jesus e Sarayu esperavam perto da porta dos fundos. Jesus aliviou Mack gentilmente do fardo e juntos foram  carpintaria
onde ele estivera trabalhando. Mack no entrava ali desde que chegara e ficou surpreso com a simplicidade do lugar. A luz, atravessando grandes janelas, captava
e refletia o p de madeira que ainda pairava no ar. As paredes e as bancadas, cobertas com todo tipo de ferramentas, estavam dispostas para facilitar as atividades
da carpintaria. Este era claramente o santurio de um mestre arteso.
A frente deles estava o trabalho que Jesus estivera fazendo, uma obra de arte para guardar os restos de Missy. Ao examinar a caixa, Mack reconheceu imediatamente
os relevos na madeira. Detalhes da vida de Missy estavam nela esculpidos. Havia um relevo de Missy com seu gato Judas, e outro com Mack sentado numa cadeira lendo
uma histria para ela. Toda a famlia aparecia em cenas trabalhadas na lateral e em cima: Nan e Missy fazendo bolinhos, a viagem ao lago Wallowa com telefrico subindo
a montanha e at Missy colorindo o livro na mesa do acampamento, com uma representao caprichada do broche de joaninha que o assassino deixara. Havia tambm um
relevo exato de Missy de p sorrindo e olhando para a cachoeira, ciente de que seu pai esta do outro lado. Entremeados com as cenas estavam s flores e animais prediletos
de Missy.
Mack abraou Jesus e este lhe sussurrou ao ouvido:
-        Foi Missy quem ajudou a escolher as cenas.
O abrao de Mack ficou mais forte e demorado.
-        Temos o lugar perfeito preparado para o corpo dela - disse Sarayu, que se aproximara. - Mackenzie,  no nosso jardim.
Com grande cuidado puseram os restos de Missy na caixa, colocando-a num leito de grama e musgo macios, e depois encheram com as flores e especiarias do embrulho
de Sarayu. Fecharam  tampa, Jesus e Mack pegaram as extremidades e levaram o caixo para fora, seguindo Sarayu at o local do pomar que Mack ajudara a limpar. Ali,
entre cerejeiras e pessegueiros, rodeado por orqudeas e lrios, fora aberto um buraco no lugar onde Mack havia desenraizado os arbustos floridos na vspera. Papai
esperava-os. Assim que a caixa enfeitada foi posta gentilmente no cho, ele deu um grande abrao em Mack, que retribuiu com a mesma intensidade.
Sarayu se adiantou e disse com um floreio e uma reverncia:
-        Sinto-me honrada em cantar a cano que Missy comps exatamente para esta ocasio.
E comeou a cantar com uma voz que parecia vento de outono: um som de folhas balanando e florestas adormecendo lentamente, tons da noite chegando e uma promessa
de novos dias. Era a cantiga insistente que ele ouvira Sarayu e Papai cantarolarem antes. Agora Mack escutava as palavras de sua filha:
Respire em mim... fundo,
Para que eu respire... e viva.
E me abrace apertado para eu dormir
Suavemente segura por tudo que voc d.
Venha me beijar, vento, e tire meu flego
At que voc e eu sejamos um s,
E danaremos entre os tmulos
At que toda a morte se v.
E ningum sabe que existimos
Nos braos um do outro,
A no ser Aquele que soprou o hlito
Que me esconde livre do mal.
Venha me beijar, vento, e tire meu flego
At que voc e eu sejamos um s,
E danaremos entre os tmulos
At que toda a morte se v.
Quando ela terminou houve silncio, e depois Deus, todos os trs, disseram simultaneamente:
-        Amm.
Mack ecoou o amm, pegou uma das ps e, com a ajuda de Jesus comeou a encher o buraco, cobrindo o caixo onde descansava corpo de Missy.
Quando a tarefa terminou, Sarayu enfiou a mo dentro da roupa e pegou seu frasco pequeno e frgil. Derramou algumas gotas da preciosa coleo na mo e comeou a
espalhar as lgrimas de Mack no solo rico e preto sob o qual dormia o corpo de Missy. As gotas caram como diamantes e rubis, e onde pousavam brotavam flores instantaneamente,
abrindo-se ao sol luminoso. Ento Sarayu parou um momento, olhando com intensidade uma prola que repousava em sua mo, uma lgrima especial, e depois deixou-a cair
no centro do terreno. Imediatamente uma pequena rvore rompeu a terra e comeou a se desdobrar, jovem, luxuriante e espantosa, crescendo e amadurecendo at se abrir
em brotos e flores. Ento Sarayu, no seu modo de brisa sussurrante virou-se e sorriu para Mack, que estivera olhando hipnotizado.
-  uma rvore da vida, Mack, crescendo no jardim do seu corao.
Papai chegou perto e ps o brao em seu ombro.
- Missy  incrvel, voc sabe. Ela o ama muitssimo.
- Sinto uma falta terrvel dela... ainda di demais.
- Eu sei, Mackenzie. Eu sei.
Era pouco mais de meio-dia quando os quatro retornaram do jardim e entraram de novo no chal. No havia nada preparado na cozinha nem qualquer comida sobre a mesa
de jantar. Papai levou-os para a sala de estar, onde sobre a mesinha de centro havia uma taa de vinho e um po recm-assado. Sentaram-se todos, menos Papai, que
permaneceu de p. Ele dirigiu suas palavras a Mack.
-        Mackenzie, temos uma coisa para voc refletir. Enquanto esteve conosco, voc foi curado e aprendeu muito.
-        Acho que isso  um eufemismo - riu Mack.
Papai sorriu.
- Voc sabe o quanto ns gostamos de voc. Mas agora h uma escolha a ser feita. Voc pode permanecer conosco e continuar a crescer e aprender ou pode retornar 
sua outra casa, a Nan, seus filhos e amigos. De qualquer modo, prometo que sempre estarei com voc.
Mack se recostou e pensou.
-        E Missy? - perguntou.
- Bom, se voc optar por ficar, ir v-la esta tarde. Ela vir tambm. Mas, se escolher deixar este lugar, tambm estar escolhendo deixar Missy para trs.
- Essa no  uma escolha fcil - Mack suspirou.
A sala ficou em silncio durante vrios minutos enquanto Papai dava a Mack espao para lutar com seus prprios pensamentos e desejos. Por fim, ele perguntou:
- O que Missy iria querer?
- Embora adorasse ficar com voc hoje, ela vive onde no h impacincia. Ela no se incomoda em esperar.
- Eu adoraria ficar com ela. - Mack sorriu diante do pensamento. - Mas seria muito duro para Nan e meus outros filhos. Deixe-me perguntar uma coisa. O que eu fao
l em casa  importante? Eu apenas trabalho e cuido de minha famlia e dos amigos...
Sarayu o interrompeu:
-        Mack, se alguma coisa importa, tudo importa. Como voc  importante, tudo que faz  importante. Todas as vezes que voc perdoa, o universo muda; cada vez
que estende a mo e toca um corao ou uma vida, o mundo se transforma; a cada gentileza e servio, visto ou no visto, meus propsitos so realizados e nada jamais
ser igual.
-        Certo - disse Mack em tom decidido. - Ento vou voltar. No creio que ningum v acreditar na minha histria, mas, se eu voltar, sei que posso fazer alguma
diferena, mesmo que seja pequena. H algumas coisas que eu preciso... ... que quero fazer de qualquer modo. - E parou e olhou para cada um. - Vocs sabem...
Todos riram.
- E realmente acredito que vocs nunca vo me deixar nem me abandonar, por isso no estou com medo de voltar. Bom, talvez um pouquinho.
-  uma escolha muito boa - disse Papai. Em seguida deu um sorriso luminoso e sentou-se ao lado dele.
Sarayu parou diante de Mack e falou:
- Mackenzie, agora que voc vai voltar, tenho mais um presente para voc levar.
- O que ? - perguntou Mack, curioso.
-  para Kate.
- Kate? - exclamou Mack, percebendo que ainda a levava como um fardo no corao. - Por favor, diga.
- Kate acredita que  culpada pela morte de Missy.
Mack ficou pasmo. O que Sarayu acabava de dizer era bvio demais. Fazia sentido que Kate se culpasse. Ela havia erguido o remo que provocara a seqncia de acontecimentos,
permitindo que Missy fosse seqestrada. Ele no podia acreditar que esse pensamento nunca lhe tivesse passado pela cabea. Num instante as palavras de Sarayu abriram
um nova perspectiva na luta de Kate.
- Muito obrigado! - disse, com o corao cheio de gratido. Agora tinha certeza de que precisava voltar, nem que fosse somente por Kate. Sarayu concordou e sorriu.
Por fim Jesus se levantou, foi at uma da prateleiras e apanhou a latinha de Mack.
- Mack, achei que voc iria querer...
Mack a pegou e a manteve nas mos por um momento.
- Na verdade, acho que no vou precisar mais disso. Pode guardar para mim? Todos os meus melhores tesouros esto escondidos em voc, de qualquer modo. Quero que
voc seja a minha vida.
- Eu sou - disse a clara e verdadeira voz da confirmao.
Sem qualquer ritual nem cerimnia, eles saborearam o po quente, compartilharam o vinho e riram lembrando os momentos mais estranhos do fim de semana. Mack sabia
que o tempo havia acabado, que era hora de voltar e pensar num modo de contar tudo a Nan.
No tinha nada para guardar na bagagem. Seus poucos pertences presumivelmente estavam de volta no carro. Tirou a roupa de caminhada e vestiu aquelas com as quais
tinha vindo, recm-lavadas e muito bem dobradas. Quando terminou de se vestir, pegou o casaco e deu uma ltima olhada em seu quarto antes de sair.
-        Deus, o servidor - ele riu, mas depois sentiu algo crescendo por dentro de novo, enquanto o pensamento o fazia parar. -  mais verdadeiramente Deus, meu
servidor.
Quando Mack retornou  sala, os trs haviam sumido. Uma xcara de caf fumegante o esperava perto da lareira. Ele no tivera chance de dizer adeus, mas, ao pensar
nisso, achou que se despedir de Deus parecia meio idiota. Sentado no cho, de costas para a lareira e tomando um gole de caf, sorriu. Era maravilhoso e ele pde
sentir o calor descendo pelo peito. De repente estava exausto com a infinidade de emoes. Como se tivessem vontade prpria, seus olhos se fecharam e Mack escorregou
suavemente para um sono reconfortante.
A sensao seguinte foi de frio, dedos endurecidos se enfiando pela roupa e gelando a pele. Acordou de um salto e levantou-se desajeitadamente, com os msculos doloridos
e rgidos por ter ficado deitado no cho. Olhando ao redor, viu rapidamente que tudo estava igual ao que era dois dias antes, at a mancha de sangue perto da lareira
onde estivera dormindo.
Pulou, correu pela porta quebrada e saiu para a varanda em runas. De novo a cabana era velha e feia, com portas e janelas enferrujadas e quebradas. O inverno cobria
a floresta e a trilha que levava ao jipe de Willie. Mal se via o lago atravs da vegetao de urzes e espinheiros que o rodeavam. A maior parte do cais estava afundada
e apenas algumas das pilastras maiores continuavam de p. Estava de volta ao mundo real. Ento sorriu. Era mais como se estivesse de volta ao mundo irreal.
Apertou o casaco contra o corpo e retornou ao carro, seguindo suas prprias pegadas ainda visveis na neve. Foi tranqila  volta at Joseph, aonde chegou ao escuro
de um fim de tarde de inverno. Encheu o tanque, comeu comida de gosto normal e tentou ligar para Nan, sem sucesso. Ela provavelmente estava na estrada, disse a si
mesmo, e a cobertura do celular podia ser precria. Resolveu passar pela delegacia para falar com Tommy, mas depois que um rpido exame no revelou qualquer atividade
l dentro decidiu no entrar.
No cruzamento seguinte o sinal ficou vermelho e ele parou. Estava cansado, mas em paz e estranhamente empolgado. No achava que teria qualquer problema para ficar
acordado na longa viagem para casa. Sentia-se ansioso para encontrar sua famlia, especialmente Kate.
Perdido em pensamentos, simplesmente passou pelo cruzamento quando o sinal ficou verde. No viu o outro motorista avanando o sinal vermelho da transversal. Houve
apenas um claro luminoso depois nada, a no ser silncio e escurido.
Numa frao de segundo o jipe vermelho de Willie foi destrudo, em minutos chegaram o resgate dos bombeiros e a polcia e em horas o corpo ferido e inconsciente
de Mack foi entregue pelo resgate areo no Hospital Emmanuel em Portland, Oregon.



                          ONDULAES SE ESPALHANDO
A f nunca sabe onde est seno levada, Mas conhece e ama Aquele que a est levando.
      - Oswald Chambers
E finalmente, como se viesse de muito longe, ele escutou uma voz familiar gritando:
- Ele apertou meu dedo! Eu senti! Juro!
Mack no podia abrir os olhos para ver, mas sabia que Josh estava segurando sua mo. Tentou apertar de novo, mas a escurido o dominou e ele apagou. Demorou um dia
inteiro para recuperar a conscincia outra vez. Mal podia mover outro msculo do corpo. At mesmo o esforo para levantar uma nica plpebra parecia avassalador,
mas o movimento foi recompensado por gritos e risos. Uma aps outra, um desfile de pessoas veio at seu nico olho entreaberto, como se estivessem olhando para dentro
de um buraco fundo e escuro que continha algum tesouro incrvel. Aquilo que viam parecia agrad-las tremendamente e elas foram espalhar a notcia.
Alguns rostos Mack reconhecia, e os que no reconhecia, ele logo ficou sabendo, eram os de seus mdicos e das enfermeiras. Dormia com freqncia, mas parecia que
cada vez que abria os olhos isso causava uma grande empolgao. "Esperem s at eu poder esticar a lngua", pensava, "a, sim, todo mundo vai ficar realmente impressionado."
Tudo parecia doer. Todo o corpo reclamava quando um enfermeiro o virava para a fisioterapia e para impedir as escaras. Aparentemente esse era um tratamento de rotina
para pessoas que haviam ficado inconscientes por mais de um ou dois dias, mas saber disso no tornava a coisa mais suportvel.
No princpio, Mack no fazia idia de onde estava nem de como havia chegado quela situao. Mal conseguia perceber quem era. Sentia-se grato pela morfina que tirava
o excesso de dor. Nos dois dias seguintes sua mente foi clareando devagar e ele comeou a recuperar a voz. Num entra-e-sai constante, familiares e amigos vieram
desejar uma recuperao rpida ou conseguir alguma informao que ningum sabia dar. Josh e Kate estavam sempre ali, ocupando-se com o dever de casa, enquanto Mack
cochilava ou respondia s perguntas que nos primeiros dias ele se fazia repetidamente.
Num determinado ponto, Mack por fim entendeu que ficara inconsciente durante quase quatro dias depois do acidente terrvel em Joseph. Nan deixou claro que ele tinha
de dar muitas explicaes, mas por enquanto estava mais concentrada em sua recuperao do que na necessidade de respostas. De qualquer forma, sua memria estava
envolta numa nvoa e, mesmo que ele pudesse recordar alguns pedaos, no conseguia junt-los de modo a fazer sentido.
Lembrava-se vagamente de ter ido  cabana, mas depois disso as coisas ficavam turvas. Nos sonhos, as imagens de Papai, Jesus, Missy brincando junto ao lago, Sophia
na caverna e a luz e as cores do festival na campina voltavam como cacos de um espelho quebrado. Cada uma era acompanhada por ondas de deleite e alegria, mas ele
no sabia se eram reais ou uma alucinao provocada por colises entre neurnios danificados e os remdios que percorriam suas veias.
Na terceira tarde depois de ter recuperado a conscincia acordou e encontrou Willie encarando-o, parecendo meio sem jeito.
- Seu idiota! - resmungou Willie.
-  um prazer v-lo tambm, Willie - bocejou Mack.
- Onde foi que voc aprendeu a dirigir? - interpelou Willie. - Ah, j sei,  um garoto criado em fazenda que no se acostumou com cruzamentos. Mack, pelo que ouvi
dizer, voc deveria ter sentido o bafo do outro cara a um quilmetro de distncia. - Mack ficou deitado, olhando o amigo falar sem parar, tentando ouvir e compreender
cada palavra, sem conseguir.
- E agora - continuou Willie - Nan est furiosa e no quer falar comigo. Ela me culpa por ter emprestado o jipe e deixado voc ir  cabana.
- Ento por que eu fui  cabana? - perguntou Mack, lutando para juntar os pensamentos. - Tudo est confuso.
Willie gemeu suplicando.
- Voc tem de contar a ela que eu tentei convenc-lo a no ir.
- Voc tentou?
- No faa isso comigo, Mack. Eu tentei convencer...
Mack sorria enquanto ouvia Willie reclamar. Se as outras lembranas eram confusas, recordava-se com nitidez de quanto esse sujeito gostava dele e apreciava t-lo
por perto. De repente Mack se espantou ao perceber que Willie havia se inclinado e sussurrava.
- Srio, ele estava l? - Willie olhou rapidamente ao redor para certificar de que no havia ningum escutando.
- Quem? - sussurrou Mack. - E por que estamos falando baixo?
-        Voc sabe, Deus - insistiu Willie. - Ele estava na cabana?
Mack achou divertido.
- Willie - ele respondeu -, no  segredo. Deus est em toda parte. Ento eu estive na cabana.
- Sei disso, gnio - reagiu Willie impetuosamente. - No se lembra de nada? Quer dizer, nem se lembra do bilhete? Voc sabe: o que recebeu do Papai e que estava
na sua caixa de correio quando voc escorregou no gelo e bateu com a cabea.
Foi ento que a histria desconjuntada comeou a se cristalizar na mente de Mack. Subitamente tudo fez sentido quando sua mente comeou a ligar os pontos e preencher
os detalhes: o bilhete, o jipe, a viagem  cabana e cada acontecimento daquele glorioso fim de semana. As imagens e as lembranas comearam a jorrar de volta e to
poderosamente que ele sentiu que elas seriam capazes de arranc-lo da cama e lev-lo para fora deste mundo. Enquanto se lembrava, comeou a chorar.
-        Mack, desculpe. - Agora Willie estava implorando. - O que foi
eu disse?
Mack estendeu a mo e tocou o rosto do amigo.
-        Nada, Willie... agora me lembro de tudo. Do bilhete, da cabana, de Missy, de Papai. Eu me lembro de tudo.
Willie ficou imvel, sem saber o que pensar ou dizer, com medo de ter forado o amigo alm do limite. Por fim, perguntou:
-        Quer dizer que ele estava l? Deus estava l?
E agora Mack ria e chorava.
- Willie, ele estava l! Ah, ele estava l! Espere at que eu lhe conte. Voc nunca vai acreditar. Cara, nem eu sei se acredito. - Mack parou, perdido nas lembranas
por um momento. - Ah,  - falou finalmente. - Ele me mandou lhe dizer uma coisa.
- O qu? A mim? - Mack ficou olhando enquanto a preocupao e a dvida se estampavam no rosto de Willie. - Ento, o que ele disse?
Mack parou, procurando as palavras.
-        Ele falou: diga ao Willie que gosto especialmente dele.
Mack viu o rosto e o maxilar do amigo ficarem tensos e poas de lgrimas encherem seus olhos. Os lbios e o queixo de Willie tremeram e Mack soube que o amigo estava
se esforando para manter o controle.
-        Preciso ir - sussurrou Willie, rouco. - Voc ter de me contar isso mais tarde. - Virou-se e saiu do quarto, deixando Mack s voltas com seus pensamentos
e lembranas.
Quando Nan chegou, encontrou Mack sentado e rindo. Como ele no sabia por onde comear, deixou que a mulher falasse primeiro. Ela o colocou a par de alguns detalhes
do acidente. Ele quase fora morto por um motorista bbado e havia passado por cirurgias de emergncia para reparar vrios ossos quebrados e ferimentos internos.
Seu estado era grave e, por isso, o seu despertar aliviara a preocupao.
Enquanto ela falava, Mack pensou que era realmente estranho sofrer um acidente logo depois de passar um fim de semana com Deus. O aparente caos aleatrio da vida.
No era assim que Papai tinha dito?
Ento ouviu Nan dizer que o acidente havia acontecido na noite de sexta-feira.
- No foi no domingo? - perguntou.
- Claro que no! Foi na noite de sexta-feira que trouxeram voc para c de helicptero.
As palavras dela o confundiram e por um momento ele se perguntou se os acontecimentos na cabana teriam sido apenas um sonho. "Talvez fosse um daqueles deslocamentos
temporais de Sarayu", pensou.
Quando Nan terminou de narrar os acontecimentos, Mack comeou a contar tudo o que lhe havia acontecido. Mas primeiro pediu perdo, confessando como e por que mentira.
Perplexa, Nan pensou que tratava dos efeitos do trauma e da morfina.
Toda a histria de seu fim de semana - ou do dia, como Nan repetia - se desdobrou lentamente em vrias narrativas. Algumas vezes os remdios o dominavam e ele caa
num sono sem sonhos, no meio de uma frase. Inicialmente Nan ouviu com pacincia e ateno, tentando suspender ao mximo o julgamento, pensando que a narrativa dele
pudesse ser conseqncia de algum dano neurolgico. Mas a nitidez e a profundidade das lembranas a tocaram e lentamente foram solapando sua dvida. Era intensamente
vivo o que Mack estava contando e ela entendeu rapidamente que o que quer que tivesse acontecido causara um enorme impacto e transformara seu marido.
O ceticismo de Nan foi cedendo e finalmente ela concordou em terem uma conversa com Kate. Mack no quis dizer o motivo, o que a deixou nervosa, mas decidiu confiar
nele. Chamaram a filha e mandaram Josh se ocupar com alguma coisa, deixando os trs sozinhos.
Mack estendeu a mo e Kate segurou-a.
-        Kate - ele comeou, com a voz ainda um pouco fraca e spera.
- Quero que voc saiba que eu a amo de todo o corao.
-        Eu amo voc tambm, papai. - V-lo naquele estado a havia
suavizado um pouco.
Ele sorriu, depois ficou srio de novo, ainda segurando a mo da filha.
-        Quero falar com voc sobre Missy.
Kate deu um repelo para trs, como se tivesse sido picada por uma abelha, e seu rosto ficou sombrio. Instintivamente tentou puxar a mo, mas Mack a segurou, o que
exigiu um esforo considervel. Ela olhou ao redor. Nan se aproximou e a envolveu com o brao. Kate tremia.
-        Por qu? - perguntou num sussurro.
-        Katie, no foi sua culpa.
Agora ela hesitou, quase como se tivesse sido apanhada num segredo.
-        O que no foi minha culpa?
De novo ele precisou esforar-se para falar, mas ela ouviu com clareza.
-        Termos perdido Missy.
Lgrimas rolaram pelo rosto de Mack enquanto ele lutava com essas palavras simples. De novo Kate se encolheu, dando-lhe as costas.
-        Querida, ningum culpa voc pelo que aconteceu.
O silncio dela durou apenas alguns segundos mais, antes que a represa transbordasse.
-        Mas se eu no fosse descuidada na canoa voc no teria que... - sua voz saiu pesada de acusaes.
Mack a interrompeu, pondo a mo em seu brao.
-         isso que estou tentando dizer, querida. No foi sua culpa.
Kate soluou enquanto as palavras do pai penetravam em seu corao devastado.
- Mas eu sempre achei que fosse minha culpa. E achava que voc e mame me culpavam, e eu no queria...
- Nenhum de ns queria que isso acontecesse, Kate. Simplesmente aconteceu, e vamos aprender a conviver com isso. Mas vamos fazer isso juntos. Est bem?
Kate no tinha idia de como reagir. Dominada pela emoo e soluando, soltou-se da mo do pai e saiu correndo do quarto. Nan, com lgrimas descendo pelo rosto,
deu um olhar desamparado mas encorajador para Mack e saiu rapidamente atrs da filha.
Na vez seguinte em que Mack despertou, Kate estava dormindo ao seu lado na cama, aninhada e segura. Era evidente que Nan pudera ajud-la a superar parte da dor.
Quando Nan percebeu que Mack abrira os olhos, aproximou-se em silncio para no acordar a filha e beijou-o.
-        Acredito em voc - sussurrou e ele sorriu, surpreso ao se dar conta de como era importante ouvir isso. "Provavelmente eram os remdios que o estavam deixando
assim to emotivo", ele pensou.
Mack melhorou rapidamente nas semanas seguintes. Menos de um ms depois de receber alta do hospital, ele e Nan ligaram para o recm-nomeado subxerife de Joseph,
Tommy Dalton, para falar sobre a possibilidade de fazerem uma caminhada outra vez na rea atrs da cabana. Como tudo havia revertido  desolao original, Mack comeara
perguntar se o corpo de Missy ainda estaria na caverna. Seria difcil explicar  polcia como sabia onde o corpo da filha estava escondido, Mack achava que o amigo
lhe daria o benefcio da dvida e o ajudaria.
Tommy foi realmente solcito. Mesmo depois de ouvir a histria do fim de semana de Mack, que ele interpretou como sendo os sonhos e pesadelos de um pai sofredor,
concordou em voltar  cabana. Queria ver Mack, de qualquer modo. Itens pessoais haviam sido salvos dos destroos do jipe de Willie e devolv-los era uma boa desculpa
para passarem algum tempo juntos. Assim, numa manh lmpida de sbado, no incio de novembro, Willie acompanhou Mack e Nan at Joseph encontraram Tommy e os quatro
se dirigiram para a Reserva.
Tommy ficou surpreso ao ver Mack passar direto pela cabana e ir at uma rvore perto do incio de uma trilha. Tal como explicara aos outros na vinda, Mack encontrou
um arco vermelho na base da rvore. Ainda mancando ligeiramente, guiou-os numa caminhada de duas horas pelo terreno ermo. Nan ficou em absoluto silncio, mas seu
rosto revelava claramente a intensidade das emoes com as quais batalhava. No caminho continuaram encontrando o mesmo arco vermelho marcado em rvores e pedras.
Quando chegaram a uma vasta rea de pedregulho, sem hesitar Mack entrou diretamente no labirinto de paredes rochosas.
Provavelmente nunca teriam encontrado o lugar exato se no fosse por Papai. No topo de uma pilha de rochas diante da caverna estava  pedra com a marca vermelha
voltada para fora. A percepo de que aquilo era obra de Papai levou Mack a quase rir alto.
Mas encontraram e, quando ficou convencido do que estavam abrindo, Tommy fez com que parassem. Mack entendeu a importncia do procedimento e, embora um tanto de
m vontade, concordou que deveriam lacrar de novo a caverna para proteg-la. Retornariam a Joseph, onde Tommy poderia notificar os peritos legistas e as agncias
policiais adequadas. Durante a descida, Tommy ouviu novamente a histria de Mack, dessa vez com uma nova percepo. Tambm aproveitou para orientar o amigo sobre
o melhor modo de enfrentar os interrogatrios que logo viriam.
No dia seguinte os peritos recuperaram os restos de Missy e guardaram o pano junto com tudo o que puderam encontrar. Depois disso foram necessrias apenas algumas
semanas at obterem provas para rastrear e prender o Matador de Meninas. A partir das pistas que o homem deixara para poder encontrar a caverna de Missy, as autoridades
localizaram e recuperaram os corpos das outras meninas assassinadas.




POSFCIO
Bom, a est. Pelo menos como me foi contado. Tenho certeza de que algumas pessoas se perguntaro se a histria de Mack aconteceu de verdade ou se o acidente e a
morfina simplesmente o deixaram meio confuso. Mack continua levando sua vida normal e produtiva e teima garantir que cada palavra da histria  verdadeira. Todas
as mudanas em sua vida, segundo ele, so provas suficientes. A Grande Tristeza foi e ele passa a maior parte dos dias com um profundo sentimento de alegria.
Assim, a questo que eu me coloco enquanto redijo este texto  como terminar uma histria destas? Talvez eu possa fazer isso falando um pouco das transformaes
que ela causou em mim. Como declarei no prefcio, a histria de Mack me mudou. No creio que haja um aspecto da minha vida, sobretudo de meus relacionamentos, que
no tenha sido profundamente tocado e alterado de modo importante. Se eu acho que  verdade? Quero que tudo seja verdade. Talvez alguma parte no seja verdadeira
num determinado sentido, mas ainda assim  verdade. Voc sabe o que quero dizer. Acho que Sarayu vai ajudar a entender.
E Mack? Bom, ele  um ser humano que continua passando por um processo de mudana, como todos ns. S que ele aceita bem as mudanas, enquanto que eu muitas vezes
resisto a elas. Noto que ele ama mais e melhor do que a maioria das pessoas,  rpido em perdoar e ainda mais rpido em pedir perdo. As transformaes que ele sofreu
provocaram na famlia e nos amigos efeitos que nem sempre foram fceis de entender. Mas devo lhe dizer que nunca conheci outro adulto que leve a vida com tanta simplicidade
e alegria. De algum modo, ele virou criana de novo. Ou, para explicar melhor, ele virou a criana que nunca teve permisso de ser. Uma pessoa confiante e cheia
de entusiasmo. Ele consegue acolher at mesmo os tons mais escuros da vida, vendo-os como parte de uma tapearia incrivelmente rica e profunda, tecida magistralmente
por invisveis mos de amor.
Enquanto escrevo isto, Mack est sendo testemunha no julgamento do Matador de Meninas. Ele quer fazer uma visita ao acusado, mas ainda no teve permisso. Porm
est determinado a v-lo, mesmo que isso s acontea depois do veredicto.
Se voc tiver chance de passar um tempo com Mack, logo vai perceber que ele est esperando uma nova revoluo, uma revoluo de amor e gentileza - uma revoluo
provocada por Jesus, pelo que ele fez por ns e continua a fazer em um mundo que tem fome de reconciliao e de um local que possa chamar de lar. No  uma revoluo
que pretenda derrubar nada, ou, se derrubar, far isso de um modo que jamais poderemos imaginar antecipadamente. Sero os poderes silenciosos e cotidianos de morrer,
servir, amar e rir, de ternura simples e gentileza gratuita, porque, se alguma coisa importa, todas as coisas importam. E um dia, quando tudo for revelado, cada
um de ns ficar de joelhos e confessar, por obra e graa de Sarayu, que Jesus  o Senhor de toda a Criao, para a glria de Papai.
Ah, uma ltima coisa. Estou convencido de que Mack e Nan ainda vo l algumas vezes,  cabana, s para ficarem a ss. No me surpreenderia se soubesse que ele anda
at o velho cais, tira os sapatos e as meias e, voc sabe, pe os ps na gua s para ver se... bem, voc sabe...
                                    WILLIE

A Terra repleta de cu,
E cada arbusto comum incendiado com Deus,
Mas s aquele que v tira os sapatos;
Os outros se sentam ao redor e colhem amoras.

                         - Elizabeth Barrett Browning


AGRADECIMENTOS
Levei uma pedra para trs amigos. Era um pedao de pedregulho que eu havia escavado nas cavernas da minha experincia. Esses trs, Wayne Jacobsen, Brad Cummings
e Bobby Downes, com gentileza enorme e cuidadosa, me ajudaram a lascar essa pedra at que pudssemos ver uma maravilha por baixo da superfcie.
Wayne foi o primeiro a ler esta histria e se esforou ao mximo para que eu a publicasse. Seu entusiasmo levou os outros a refinar a narrativa e prepar-la para
ser compartilhada com uma platia mais ampla, tanto em livro quanto, esperamos, em filme. Ele e Brad me ajudaram na edio, acrescentando suas idias sobre os modos
pelos quais Deus atua. A qualidade do trabalho que voc tem nas mos deve-se, em grande parte, aos talentos deles. Bobby trouxe sua contribuio nica em cinema
para ajustar o fluxo e reforar o drama.
Muitos se ligaram a este projeto, deixando um pedao de sua vida dentro da histria e de como ela se desdobrou. Dentre esses esto Marisa Ghiglieri, Dave Aldrich,
Kate Lapin e Julie Williams. Vrios amigos me ajudaram a mexer no texto, especialmente nas primeiras revises. Dentre esses esto Austrlia Sue, Jim Hawley e Dale
Bruneski.
H uma quantidade de gente cujas idias, perspectivas, companheirismo e encorajamento foram importantes. Obrigado a Larry Gillis, Dan Polk, MaryKay e Rick Larson,
Micheal e Renee Harris, Julie e Tom Rushton e  famlia Gunderson, alm do pessoal da DCS, meu grande amigo Dave Sargent, s pessoas e famlias da comunidade NE
Portland, e aos Closner/Foster/Weston/Dunbar em Estacada.
O estmulo criativo inclui uma quantidade de velhos amigos falecidos, como Jacques Ellul, George McDonald, Tozer, Lewis, Gibran, os Inklings e Soren Kierkegaard.
Mas tambm agradeo a escritores e oradores como Ravi Zacherias, Anne Lamott, Wayne Jacobsen, Marilynne Robinson, Donald Miller e Maya Angelou, para citar apenas
alguns.
Obrigado, Anna Rice, por amar esta histria e penetrar nela com seu dom musical. Voc (me) nos deu um presente incrvel.
A maioria de ns tem suas prprias tristezas, sonhos partidos e coraes feridos, cada um viveu perdas nicas, nossa prpria "cabana". Rezo para que voc encontre
a mesma graa que eu recebi l e que a presena constante de Papai, Jesus e Sarayu preencha seu vazio interior com alegria indizvel.




Se voc se sentiu tocado pelo assombro deste livro e quer ajudar
a torn-lo disponvel a outros num nvel mais amplo, ns o
convidamos a participar do...
                                  Projeto Missy
Ns, um grupo de leitores que se sentiu tocado por A cabana, estamos convencidos de que este livro merece ser lido pelo maior nmero de pessoas possvel. No  somente
uma histria envolvente e inspiradora, mas tem uma qualidade literria que faz dela um presente especial. Oferece uma das vises mais pungentes de Deus e de como
ele se relaciona com a humanidade. No somente ir encorajar os que j o conhecem, mas tambm atrair quem ainda no reconheceu a presena do Criador em sua vida.
Produtores de cinema j expressaram interesse em transformar esta histria em filme e faro isso depois que um nmero considervel de livros estiver em circulao.
A divulgao boca a boca ainda  a ferramenta mais eficaz para que um livro como este possa causar transformaes.
Se voc, como ns, foi tocado pela mensagem deste livro, talvez j tenha algumas idias de como fazer que outros o conheam. Oferecemos algumas sugestes para ajud-lo
a compartilhar A cabana com outras pessoas.
D o livro de presente a amigos e at mesmo a estranhos. Eles estaro recebendo no apenas uma histria empolgante, mas tambm um vislumbre magnfico sobre a natureza
de Deus de uma forma raramente apresentada em nossa cultura.
Se voc tem um site ou um blog na internet, fale um pouco sobre o livro e como ele tocou sua vida. No revele o enredo, mas recomende entusiasticamente que as pessoas
o leiam.

Escreva uma resenha para um jornal de sua cidade, uma revista de sua predileo ou um site que voc freqente. Se voc tem uma loja, exponha o livro com a maior
visibilidade possvel. Se for dono de uma empresa, considere a possibilidade de presentear com o livro seus clientes preferenciais.
Doe o livro para abrigos femininos, prises, lares de reabilitao, casas de repouso e outros lugares onde as pessoas possam ser encorajadas pela histria e pela
mensagem.
Em reunies e encontros, fale do livro e conte do impacto que ele causou em sua vida. Voc estar prestando um grande favor aos que o escutarem.
Para mais informaes e idias de como voc pode ajudar, conhea o Projeto Missy (The Missy Project) em nosso site em ingls:
www.theshackbook.com
